Acordo entre médicos e indústria: tudo como dantes no quartel d’Abrantes

O CFM (Conselho Federal de Medicina) e a Interfarma (Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa) assinaram acordo dia 14 de Fevereiro deste ano. O objetivo é regular as sempre questionáveis relações entre médicos (aqueles de quem a indústria, na maioria dos casos, depende para vender seus produtos) e o setor produtor e comercial.

Essa é uma velha querela.  E continuará sendo mesmo para quem ler superficialmente o acordo.

A necessidade do acordo reconhece antigos problemas éticos na relação entre os dois atores sociais. A indústria produz o que precisamos, e se precisamos, aqueles a quem a sociedade delegou competência para nos orientar sobre o produto e a forma de usá-lo não deveriam se  beneficiar dessa nobre delegação. Se para isso benefícios são necessários (e vultosos, como sabemos), há algo de errado nesse terreno. A literatura científica está farta de falar nisso. E aos pacientes só resta a tensão, pois a eles são dados motivos para duvidar dos bons preceitos da prática aplicada aos seus cuidados.

Os mais elementares preceitos éticos e morais ditam o inoportuno da sedução financeira, ou por outras formas menos explícitas, com que o setor industrial joga suas cartas, e mais que isso, com que o setor prestador de serviços aceita participar do jogo.

E o que nos traz o acordo? Os brindes continuam, agora mais baratinhos. Quem vai fiscalizar os preços, nós não sabemos. Que nos desculpem, mas nos parece inviável esse controle. E isso pode até ser bom para a indústria – barateia seu esforço. As viagens continuam, mas sem acompanhantes, ou terão que pagar à parte. Então nos perguntamos, a quem os médicos irão mandar seus recibos? Hilário!!! A seleção dos profissionais a serem brindados com viagens deverá ser feita por critérios técnicos, e não por serem maiores prescritores de seus produtos. Essa é irônica, até porque os que menos prescrevem são também assediados. E o critério técnico será regulado por quem?

E porque não falar nos formadores de opinião pagos pela indústria, com suas palestras lustrosas nos eventos. Na visitação o “relacionamento com profissionais da saúde deve ser baseado na troca de informações que auxiliem o desenvolvimento permanente da assistência médica e farmacêutica” e o “objetivo das visitas é contribuir para que pacientes tenham acesso a terapias eficientes e seguras, informando os médicos sobre suas vantagens e riscos”. Que tal enviarem os ensaios clínicos e ensinarem os médicos a lerem os mesmos, principalmente atentos aos detalhes do financiamento da pesquisa e aos vícios de seleção, escolhas dos resultados a serem realçados, enfim, ao jogo da sedução literária que não costuma realçar os limites de sua aplicabilidade. E, é claro, ao esclarecimento sobre os ensaios que não chegaram ao seu termo. E junto deveriam enviar algumas revisões sistemáticas independentes, se disponível.

Outros detalhes do acordo: “As indústrias farmacêuticas que convidarem médicos para eventos somente poderão pagar as despesas relacionadas a transporte, refeições, hospedagem e taxas de inscrição cobradas pela entidade organizadora”. Fica a pergunta: o que mais pagavam para terem que incluir isso no acordo?

O presidente do CFM, ao afirmar que “Ganhamos em transparência e em respeito. Isso sem contar na autonomia e na liberdade que os médicos e suas entidades de representação conquistam no momento de expressar suas opiniões, ideias e análises”, não estaria confessando que a classe tem problemas sérios em relação a essa liberdade e autonomia? E se isso for verdadeiro, a quem devo recorrer quando estiver doente (essa frase é retirada do filme E a vida continua, lembram-se?).

Em outra fala, agora do presidente da AMB, podemos ver: “Devemos evitar situações onde ocorram conflitos de interesses, pois a atividade médica deverá ter sempre como principal foco o que é melhor para os pacientes. O acordo traz-nos expectativa de melhorias”. Como seria possível evitar conflitos de interesses quando uma prática antes disfarçada passa a ser regulamentada em um acordo?  Esses conflitos não deixam de existir por um acordo que expressa a possibilidade de fazer algo que está em suas entranhas eivado de dúvidas. Ou nos ensinaram tudo errado na vida?

Concluindo, nossa impressão é a de que o acordo mantém tudo como dantes no quartel d’Abrantes. Lastimável. Uma sugestão: façamos um levantamento das regulamentações legais, incluindo códigos de ética, e tentemos cumprir a lei. E aí quem não cumprir recebe a pena prevista. Não seria uma solução, pelo menos para começar?

Idosos e remédios: estudo mapeia diferentes consumos

Pesquisadores das faculdades de Medicina e Odontologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e da Universidade Estadual de Campinas realizaram estudo que avalia o uso de remédios entre idosos residentes em áreas urbanas e rurais do município de Carlos Barbosa (RS). Os resultados, publicados nos Cadernos de Saúde Pública da Fiocruz, indicam disparidades quanto ao consumo de medicamentos entre as duas populações analisadas.

Intitulada Uso de medicamentos entre idosos residentes em áreas urbanas e rurais de município no Sul do Brasil: um estudo de base populacional, a pesquisa entrevistou 811 pessoas de no mínimo 60 anos. Entre a conclusões está a prevalência no uso de medicamentos e polifarmácia entre idosos urbanos (79,4%), comparado aos residentes da área rural do município (63,5%).

Além disso, o estudo revelou maior consumo de remédios entre as mulheres com idade superior a 70 anos, de cor branca, sem companheiro, com maior escolaridade e renda superior a R$ 260, acometidas por mais doenças e com pior qualidade de vida.

Os medicamentos com ação sobre o aparelho cardiovascular foram os mais utilizados pelas duas populações, uma vez que, por representar uma das principais causas de morbimortalidade entre idosos, são frequentemente prescritos. Outro fator que chamou atenção na pesquisa foi o elevado uso de antidepressivos, principalmente entre os idosos de área urbana, que respondem por 16,9% do consumo desse tipo de medicamento.

(Fonte: Portal da Fiocruz)