Quando ‘não usar’ medicamento estigmatiza

por Edson Perini

Quem, como eu, passou esses últimos 20 anos tentando entender algo sobre o consumo de medicamentos, a farmacoepidemiologia, a farmacovigilância, e coisas do gênero, deve ter visto o que vi: dentre tantos simbolismos, bons e ruins se assim podemos classificar os símbolos, usar medicamentos traz o significado de estar doente. E estar doente traz muitas coisas – a solidariedade (e assim o medicamento pode significar um pedido de ajuda); a rejeição (e ele pode ser usado como forma de solicitar a alguém que nos deixe quieto no canto); o medo (terei tempo de fazer minhas coisas antes do fim?); o privilégio (consegui ter o benefício da ciência)… enfim, deixo ao leitor o espaço para mais significados.

Uma das questões mais fortes que vi nesse tempo é a produção do estigma. Estar doente é uma forma de ser visto como algo diferente, e rejeitado ou alijado por isso. Ao trabalhar com o abandono do tratamento da tuberculose isso me pareceu mesmo muito forte, e cruel. Estar tuberculoso é muito diferente de ser tuberculoso – aí o pessoal das línguas saxônicas me perdoe se é difícil entender (mas como não vão ler isso, fica assim dito). Essa diferença abismal é sutil demais para o senso comum, e não há sentimento cristão que anda dando conta disso, principalmente se levarmos em conta o tamanho astronômico da deturpação do cristianismo em nossos dias.

Pois tomar medicamentos nos leva a estigmatização e isso me pareceu claramente colocado nesse tempo que passei na academia, acreditando ter entendido algo sobre isso. Até perceber que me fechava ao outro lado da moeda. Um lado que ainda não compreendi bem, e me foi colocado por uma pedagoga em uma reunião na qual discutíamos uma provável colaboração para estudar o consumo de metilfenidato nas escolas. Ao colocar nosso ponto de vista, e nossas preocupações com o consumo crescente dessa droga entre as crianças, os problemas do diagnóstico e possível abuso no consumo, incentivado por um sistema de produção e comercialização para o qual pouco importa se são crianças ou não, ela expressava sua preocupação com a produção do estigma para aqueles que não consomem, sendo ‘identificados’ como pessoas mais ‘desatentas’ ou ‘agitadas, hiperativas’.

Pois bem, quem se inseriu nessa área de estudos de utilização dos medicamentos já deve estar entendendo minha angústia – para onde temos dirigido nossa preocupação? Para entender essa realidade, digamos reversa à nossa postura tradicional da produção do estigma pelo consumo de medicamentos, devemos nos questionar mais profundamente sobre como estamos medicalizando, e medicamentalizando, nossa sociedade. Nossa postura tradicional na produção científica da área tem sido guiada por questionamentos que podem ser aqui resumidas na pergunta: por que um(a) menino(a) que está desatento (ou é desatento?) deve tomar um medicamento que transforma seu funcionamento cerebral?

Minha impressão é que essa pergunta tem nos levado a posicionamentos pouco efetivos no questionamento dessa realidade: não nos darmos conta, pelo menos de forma adequada, do reverso da moeda. E esse reverso está sendo muito bem trabalhado pelo setor produtivo e comercial farmacêutico: por que esse(a) menino(a) não deve tomar? Parece bobagem, mas tenho a impressão de que essa mudança pode nos levar a pensar melhor nossa postura científica. Se o metilfenidato nos traz esse novo questionamento, essa nova questão, ele nos diz algo que nós não estávamos percebendo nas mudanças que estão se processando na produção da medicalização da sociedade. E se a ciência deve perceber a sutil forma de expressão da natureza das coisas, é nosso papel entender que a sutileza dessa reversão pode ser uma forma de entendermos melhor sobre o que estamos estudando, e contra quais forças estamos lutando, e suas formas de expressão e ação.