Descarte de medicamentos: uma questão ambiental

por Bruna Xavier de Moro

         Medicamentos são de uso imprescindível  na sociedade moderna, porém o manuseio e  descarte incorretos têm sido danosos ao meio ambiente. Existem várias vias de entrada de fármacos no ambiente: além dos resíduos industriais e descarte inadequado no lixo comum, deve-se considerar aqueles que são excretados nas fezes e urina.¹ Este impasse também se verifica com os medicamentos de uso veterinário que são potencialmente poluentes ao ambiente além de contaminar carne e leite.²

         Medicamentos descartados no lixo e no esgoto contaminam solo e água propiciando a incorporação de substâncias químicas nesses compartimentos ambientais, e como fármacos são biologicamente ativos, podem afetar organismos terrestres e aquáticos mesmo em concentração traço.¹ As tecnologias de tratamento de esgoto empregadas não removem de forma efetiva os compostos químicos², visto que foram detectados restos de fármacos em águas superficiais, subterrâneas e inclusive na água para o consumo humano. Compostos que não fazem parte do meio e não possuem limites de concentração definidos são ditos emergentes.³ Contaminantes emergentes compreendem produtos farmacêuticos e de higiene pessoal (PFHP), indicadores de atividade antrópica, subprodutos industriais, hormônios naturais e drogas ilícitas.4

As substâncias emergentes contaminam a água promovendo ambiente hostil incompatível com a vida de algumas espécies. Dentre os agentes contaminantes, dois grupos representam maior risco: interferentes endócrinos e antibióticos. Interferentes endócrinos podem provocar a efeminação ou hermafroditismo de peixes² que tenham sido expostos a concentrações menores que 1ng/L, e antibióticos podem ocasionar no surgimento de bactérias resistentes, as superbactérias¹.

         Estudos revelaram que a maioria dos usuários não sabe o que fazer com seus medicamentos vencidos ou que não serão mais utilizados, e parte deles desconhecem os danos ambientais proveniente de sua destinação inadequada.1,5 Com isso é possível perceber que a falta de informação é um dos maiores problemas. Com efeito, o primeiro passo é a educação ambiental, o  esclarecimento da população sobre as implicações do descarte impróprio e informação sobre os postos de coleta.

         Atualmente não existe um método totalmente eficiente para a eliminação de fármacos do ambiente. A destinação final recomendada para o medicamento é a incineração que reduz o volume, porém lança gases tóxicos na atmosfera. Enquanto um sistema eficaz não é desenvolvido, aguardamos uma regulamentação efetiva e um destino ambientalmente correto de medicamentos para que ocorra a harmonização com a natureza.

Referências:

  1. Aspectos legais e toxicológicos do descarte de medicamentos – Revista Brasileira de Toxologia 22, n. 1 -2 (2009)
  2. Poluentes emergentes como desreguladores endócrinos  –  J. Braz. Soc. Ecotoxicol, v.2, n. 3, 2007, 283 – 288
  3. Para não precisar remediar – Instituto Ciência Hoje –  Acesso em Maio de 2012   http://cienciahoje.uol.com.br/especiais/reuniao-anual-da-sbpc-2010/para-nao-precisar-remediar
  4. Contaminantes emergentes –  2° Workshop sobre Contaminantes Emergentes em água para consumo humano – Acesso em Maio de 2012    http://lqa.iqm.unicamp.br/workshop/contaminantes_emergentes.html
  5. Impacto ambiental do descarte de fármacos e estudo da conscientização da população a respeito do problema  – Revista Ciências do Ambiente On-line – Julho, 2009 vol. 5, n. 1

(Texto extraído do V.8, n°4 do Boletim publicado em 18/05/12).

10 pensamentos sobre “Descarte de medicamentos: uma questão ambiental

  1. Caros cemedianos;

    Gostaria de elogiar pela matéria sobre o descarte inadequado de medicamentos, a qual é de extrema relevância para a população.
    Pensando na população, gostaria de sugerir que vocês disponibilizassem informação acerca da existência (ou não) de postos de coleta em BH.

    Abraço fraterno,

    Andréia Ribeiro

    • Cara eterna cemediana (afinal, uma vez Cemed, sempre Cemed! Como nosso glorioso Flamengo!),
      Seu desejo é um ordem, e discutiremos o caso. Matéria que vem por ai trata do assunto, mas nossa dúvida foi colocar ou não nome de empresa para não incorrer em risco de publicidade. Mas voltaremos ao assunto atendendo sua sugestão.
      Saudações cemedianas.

    • Andréia, há uma grande rede de drogarias em Belo Horizonte que faz o recolhimento de medicamentos vencidos, de qualquer origem, seja os vendidos por ela ou não. Se o pessoal do blog me permite, gostaria de divulgar o nome, pois é uma das poucas que sei que já faz o serviço.

      • Sem problema, Bruno. Para nós é um alívio pois ficamos entre a cruz e a espada, sem saber qual a melhor posição: informar é preciso, mas nossa posição nos deixa dúvida se devemos ou podemos colocar nomes. Sendo um comentário, isso nos isenta e informa. Sabemos que não estaríamos propagandeando ou ofendendo ninguém, mas ainda temos algo de imaturos para lidar com esse conflito na rede – aprenderemos! E obrigado pela participação. Esteja conosco – siga-nos!

      • Então, quem quiser descartar medicamentos pode procurar qualquer unidade da Droga Raia. Eles tem um sistema próprio, com identificação inclusive de lote, fabricante…

  2. Já há estudos mostrando que a urina de mulheres que tomam anticoncepcional já pode provocar disrupções endócrinas em peixes… imagine o descarte de anticoncepcionais propriamente dito…

    • Pois é, Violeta. No momento que vivemos, em que a sustentabilidade tornou uma questão de sobrevivência, e que se pensarmos apenas os peixes como alimentos (esquecendo até mesmo sua existência como vida independente da nossa), o uso de medicamentos também ganha importância nessa área. E se juntarmos a isso os antibióticos e anabolizantes que usamos aos borbotões na pecuária, vamos só precisando ter mais responsabilidadena área farmacêutica.

    • Obrigado Gustavo. Esperamos sempre melhorar e contar com sua presença. Siga-nos e participe deste espaço. Traga ao nosso leitor o debate que nossa sociedade tanto carece. Um abraço.

  3. Pingback: Medicamentos na gravidez: cautela é o melhor remédio | CEMED UFMG

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