Uso irracional de antibióticos: bom apenas para as bactérias

Por Raissa Carolina Fonseca Cândido

O que fazer quando um microrganismo patogênico é resistente à última geração de antibióticos? Como evitar que estes microrganismos alcancem este nível de resistência?

Em 1943¹, a descoberta da penicilina trouxe para o tratamento de doenças bacterianas uma nova perspectiva: a medicina com o auxílio de antibióticos começava a vencer a antiga batalha contra essas doenças. Porém, mais de 60 anos se passaram e a descoberta recente de cepas de blenorragia (gonorreia) resistentes às cefalosporinas² de última geração demonstra que esta batalha está, pelo menos no que se refere à gonorreia, correndo o risco de ter outro vencedor.

A blenorragia, resistente à penicilina desde 1960, é a segunda doença infecciosa mais notificada nos Estados Unidos². Além disso, é a primeira doença sexualmente transmissível a enfrentar problemas graves relacionados à resistência bacteriana², uma vez que as cefalosporinas eram a última alternativa segura para seu tratamento. Isto é, um tratamento de baixo custo, eficaz e administrado em dose única. Contudo, ela não é a única doença infecciosa agravada pelo aumento da resistência a antimicrobianos, e o vasto número de fármacos desta classe disponíveis no mercado nos alerta para isso.

Diversas políticas de saúde têm sido implantadas para diminuir o desenvolvimento de resistência. No Brasil, a mais recente foi o controle da comercialização de antibióticos.

Conforme dados divulgados pela Organização Mundial de Saúde (OMS)3, o uso inadequado de antibióticos fornece condições extremamente favoráveis para que microrganismos resistentes venham a emergir, estando diretamente relacionado, por exemplo, ao surgimento anual de cerca de 440.000 novos casos de tuberculose multirresistente. Destes, pelo menos 150.000 resultam em óbito. Além disso, a resistência à geração anterior de medicamentos antimaláricos é conhecida na maioria dos países endêmicos e muitas infecções hospitalares causadas por bactérias altamente resistentes vêm apresentando alta incidência.

Apesar de serem limitadas as evidências de que o uso indiscriminado de antibióticos contribua para o aumento da resistência, o controle da comercialização foi um passo importante para a prática do uso racional de medicamentos no Brasil. E conforme experiências de outros países divulgadas pela Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS)4, a medida adotada pela ANVISA pode sim contribuir para o controle da resistência aos antimicrobianos.

Resta adotar medidas para o controle do uso de antibióticos em outros setores, uma vez que estes estão presentes na produção de quase todos os alimentos que ingerimos, e tornar efetiva a venda controlada nas farmácias.

Referências:

1 Gonorréia. Gerson Oliveira Penna et al. Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical 33(5):451-464, set-out, 2000.

2 O Retorno da Blenorragia, Maryn McKenna. Scientific American Brasil |Junho 2012.

3 Antimicrobial resistance. World Health Organization (WHO). Fact sheet N°194 Reviewed March 2012. Acessado em 17/06/12. Disponível em: http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs194/en/

4 O uso indiscriminado de antibióticos e a resistência microbiana: uma guerra perdida?. Lenita Wannmacher. Uso racional de medicamentos: temas selecionados. ISSN 1810-0791 Vol. 1, Nº 4 Brasília, Março de 2004.

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Como obter uma licença para o risco

por William Pereira Alves

      Certamente, faz parte das lembranças de infância de muitas pessoas o personagem Popeye, cujo espinafre fornecia força sobrenatural. Criado em 1929, ele personifica a vontade humana de tornar-se forte e invencível de forma imediata. Os tempos mudaram, o espinafre adquiriu nova aparência, novas apresentações e benefícios foram adicionados, consagrando-se nos atuais suplementos vitamínicos.

Hoje, essas substâncias vendem a ilusão de que criarão uma invulnerabilidade. Essa invulnerabilidade é ilusória e equivocada, segundo revisão sistemática da Cochrane1, cujas conclusões apontam não existir evidências de que tais suplementos atuam na prevenção primária e secundária de doenças. Ainda assim, o fascínio pelas vitaminas persiste envolto pela atmosfera mágica de ser um super-homem. Um artigo no Psychological Science2 corrobora essa ideia ao apontar maior tendência de exposição aos riscos por aqueles que tomam algum tipo de suplemento vitamínico.

Micronutrientes são essenciais para o funcionamento adequado do organismo, sendo possível e recomendável a obtenção dos mesmos de forma natural, por meio de alimentação balanceada. Possíveis benefícios para a proteção da saúde ainda são discutidos, e precisam ser estudados em mais detalhes. Mas algo é certo, força e resistência adquiridas como mágica existem apenas no mundo da fantasia.

Referências:

1 – The Cochrane Library. Antioxidant supplements for prevention of mortality in healthy participants and patients with various diseases. Acesso em 12/06/12: http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/14651858.CD007176/abstract.

2 – Psychological Science. Ironic Effects of Dietary Supplementation. Illusory Invulnerability Created by Taking Dietary Supplements Licenses Health-Risk Behaviors. Acesso em 12/06/12: http://pss.sagepub.com/content/22/8/1081

(Texto extraído do V.9, n°1 do Boletim publicado em 29/06/12).