A complexidade da Atenção Primária e as enfermidades raras

Fonte: Ministério da Saúde

Fonte: Ministério da Saúde

Ainda hoje é comum escutarmos e reforçarmos a ideia de que a Atenção Primária em Saúde (APS), desenvolvida em nossas Unidades Básicas de Saúde, se caracteriza por ser uma atividade que envolve ações e diagnósticos voltados apenas para as afecções mais corriqueiras (e invariavelmente assumidas como simples). Por isso o médico de família é percebido como um profissional de pouco conhecimento, cujo trabalho se destina muito mais a encaminhar pacientes para especialistas do que diagnosticar e tratar suas enfermidades.

Essa percepção é equivocada por muitos motivos. A organização da APS é uma tarefa de alta complexidade, pois exige uma atenção que orienta todo o sistema de saúde: promove a saúde; previne uma gama enorme de doenças de alta prevalência, muitas delas crônicas, além de diagnosticar e tratar as mesmas e acompanhar as pessoas portadoras; organiza a população em torno de seus direitos e necessidades de saúde e encaminha as pessoas, quando necessário, para os setores especializados,  recebendo-as de volta para o acompanhamento. Outro ponto importante é que a complexidade de sua organização envolve trabalhar muito próximo às formas de organização da sociedade, enfrentando com essas organizações os conflitos políticos e sociais de cada local, desenvolvendo trabalhos que vão do curativo no joelho do filho de Joana às tarefas mais complexas de organização dessa sociedade para o melhor desenvolvimento de sua saúde. Não é nada fácil! E por aí afora poderíamos ir pensando em muitas coisas.

Pois bem. Agora podemos ver uma experiência espanhola que começa a mostrar a importância dos médicos de família no diagnóstico de doenças raras, auxiliados por um protocolo de atenção primária para as mesmas (Leia mais). Vale a pena conferir o editorial da revista Atención Primária (v.45, n.7, agosto de 2013). Talvez nos ajude na difícil tarefa de mudar uma visão antiquada de APS como um nível da atenção à saúde pobre de tecnologia para atendimento de pessoas pobres.

Link para o Editorial: El diagnóstico de las enfermedades raras desde la consulta de atención primaria: desmontando el mito

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Jovens e o uso de medicamentos para disfunção erétil

por Weverton S Teixeira

Fonte: Google imagens

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A disfunção erétil, doença que em geral acomete homens de meia-idade ou idosos, está normalmente associada a problemas psíquicos ou vasculares. Algumas classes de medicamentos também podem afetar a função erétil, entre elas os antipsicóticos, os antidepressivos e os anti-hipertensivos1. O número de afetados é significativo e em 1995 estimou-se um total de 152 milhões de homens acometidos por disfunção erétil. A projeção para 2025 é de que esse número ultrapasse os 330 milhões, sendo que na África, na Ásia e na América do Sul a proporção de afetados deverá aumentar mais do que em outras regiões2.

O citrato de sildenafila (Viagra®), aprovado nos Estados Unidos em 1998, foi o primeiro inibidor seletivo da fosfodiesterase tipo V para a farmacoterapia da impotência sexual1,3. Desenvolvido para tratar angina, seu efeito no tratamento da disfunção erétil foi descoberto acidentalmente. Além dele, conhecido como pílula azul, existem outros dois medicamentos com o mesmo mecanismo de ação: tadalafila (Cialis®) e vardenafila(Levitra®). Esses medicamentos são administrados em dose única e por via oral. O citrato de sildenafila atinge concentração plasmática máxima entre 30 minutos e 2 horas após sua administração. Por isso, aconselha-se tomá-lo uma hora antes da relação sexual1.

Atualmente, o consumo desses medicamentos por homens sem diagnóstico de disfunção erétil tem despertado a atenção dos pesquisadores. Dois estudos, um realizado no Brasil e outro na Argentina, demonstraram que 14,7% e 21,5% de jovens entre 18 e 30 anos, respectivamente, já usaram algum tipo de inibidor da fosfodiesterase, sendo que a maioria o fez por curiosidade e sem receita médica4,5. Outro estudo, realizado pela Escola de Farmácia e Bioquímica da Universidade de Maimónides, também da Argentina, e divulgado em uma publicação não cientifica, informa que 30% das pílulas de Viagra® comercializadas no país em 2008 foram consumidas por menores de idade6.

A comercialização clandestina de medicamentos para impotência sexual é comum. Conforme já informado no blog do Cemed, 69% dos medicamentos apreendidos pela Polícia Federal entre 2007 e 2010 eram dessa classe. A venda sem controle especial ou retenção de receita médica desse tipo de medicamento em drogarias e pela internet facilita o uso indiscriminado, inclusive por jovens em início de vida sexual4. Muitas vezes esses jovens desconhecem que o consumo de inibidores seletivos da fosfodiesterase tipo V pode causar efeitos adversos, como hipotensão, rubor e dor de cabeça1.

Além dos efeitos adversos, outro aspecto importante são as interações medicamentosas que podem ser observadas no caso do uso de dois ou mais medicamentos. No caso do citrato de sildenafila, por exemplo, pacientes em tratamento com medicamentos que induzem a produção de CYP3A4, enzima responsável pela biotransformação do citrato de sildenafila, podem ter o efeito dos inibidores da fosfodiesterase comprometido (ex.: carbamazepina, rifampicina e barbitúricos). Em contrapartida, cimetidina, antibióticos macrolídeos, imidazolinas antifúngicas e alguns agentes antivirais inibem a produção dessa enzima, retardando a biotransformação do sildenafila  e aumentando o tempo de ação deste medicamento no organismo. Há também interação com os nitratos orgânicos, medicamentos que possuem ação de relaxamento nos músculos lisos, especialmente na musculatura lisa vascular. Assim, eles não devem ser utilizados concomitantemente ao citrato de sildenafila1.

Como qualquer outro fármaco, e dado seu perfil de riscos, os inibidores da fosfodiesterase tipo V devem ser usados com responsabilidade e cautela. Intervenções medicamentosas devem ser adotadas apenas quando necessárias, após avaliação de um profissional da saúde. A busca por um melhor desempenho sexual, principalmente por jovens sem disfunção erétil, tem aumentado o consumo desta classe de medicamentos. A equipe do Cemed alerta, principalmente aos jovens, para os riscos de efeitos adversos desses medicamentos, para o uso dos mesmos em associação com o álcool ou outras drogas5 e fármacos1. Destacamos o risco de dependência psíquica5 e os problemas decorrentes desse fato, comprometendo a qualidade de vida.

Referências:
1 Rang HP, Dale MM et al. Rang & Dale Farmacologia. 7.ed. Rio de Janeiro: Elsevier Editora; 2011.
2 Aytac IA, et al. The likely worldwide increase in erectile dysfunction between 1995 and 2025 and some possible policy consequences. BJU International. 1999 mar 16; 84: 50-56.
3 Padma-Nathan H. Sildenafil citrate (Viagra) treatment for erectile dysfunction: an updated profile of reponse and effectiveness. NPG. 2006 Jun 29; 18: 423-31.
4 Freitas VM, Menezes FG, et al. Frequência de uso de inibidores de fosfodiesterase-5 por estudantes universitários. Rev Saúde Pública. 2008; 42(5): 965-7
5 Bechara A, Casabé A, et al. Recreational use of fosfodiesterase type 5 inhibitors by healthy young men. J Sex Med. 2010 Nov 7; 7(11): 3736-42.
6 Jóvenes toman Viagra cuando llega momento de su debut sexual [internet].  Infobae. Argentina. 2009 [acesso em 2013 jul 05]. Disponível em: http://www.infobae.com/notas/438222-.html