Como tomar corretamente os anti-inflamatórios não esteroides

por Raissa Carolina Fonseca Cândido

Aines 2A inflamação é “uma resposta protetora direcionada para eliminar a causa inicial da lesão, bem como as células e tecidos necróticos que resultam do problema original”¹, ou seja, uma reação de defesa do organismo. Contudo, embora a inflamação seja uma medida protetora, dependendo de sua intensidade e persistência pode se tornar um processo crônico e causar danos consideráveis.

Assim, para controlar esse processo e evitar que ele resulte em um dano grave, rotineiramente são prescritos anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) como: ibuprofeno (Advil®), ácido acetilsalicílico (Aspirina®), naproxeno (Naprosyn®), cetoprofeno (Profenid®), nimesulida (Nisulid®), diclofenaco (Voltaren®), indometacina (Indocid®) e ácido mefenâmico (Ponstan®)*.

Mas a pergunta é: você sabe como tomar corretamente um anti-inflamatório?

É bem verdade que, quando o assunto é tomar medicamentos, parte da população entende que o ideal é tomar o medicamento em jejum para não diminuir sua absorção. Contudo, apesar dessa informação estar correta para alguns medicamentos², quando se trata de anti-inflamatórios é importante considerar ao menos duas questões:

1 – por serem fármacos ácidos, ao entrarem em contato com o estômago vazio podem provocar umAines 1 irritação gástrica, conhecida por efeito de contato.

2 – além desse efeito de contato, eles podem provocar um efeito sistêmico que também resulta em irritação gástrica, uma vez que inibem uma enzima (COX-1 gástrica) responsável por sintetizar inibidores da secreção de ácido e protetores da mucosa do estômago³.

Visto isso, se pensarmos em um paciente que faz uso de AINEs por períodos prolongados, como por exemplo, alguns pacientes idosos, concluímos que em longo prazo esses efeitos podem até resultar em Aines 3úlceras gastrointestinais e hemorragias graves². Deste modo, a fim de diminuir a irritação gástrica causada pelo efeito de contato, é importante sempre ingerir anti-inflamatórios com um copo cheio de água e nunca em jejum², mesmo que isso resulte em uma pequena redução da absorção do fármaco pelo organismo. E na impossibilidade de se alimentar antes da ingestão do medicamento, tomá-lo com um copo cheio de água é indispensável para diminuir o contato entre o medicamento e o estômago. Além disso, o uso de bebida alcoólica durante o tratamento deve ser evitado, conforme já publicado aqui no blog (Leia mais).

Vale ressaltar que vários fatores devem ser considerados na escolha do anti-inflamatório a ser utilizado, como a experiência prévia de uso do medicamento, a tolerância aos efeitos adversos, o intervalo de administração e o custo. Por fim é fundamental esclarecer todas as dúvidas antes de tomar qualquer medicamento. Para isso basta consultar o médico que os prescreveu ou um farmacêutico.

*Nota: os nomes citados entre parênteses referem-se aos nomes comerciais dos respectivos medicamentos de referência registrados na Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). Nossa intenção ao citá-los é única e exclusivamente de facilitar a identificação pelo usuário do medicamento ao qual estamos nos referindo.

Colaboração:
Prof. Renes de Resende Machado – professor das disciplinas de Farmacologia I, Farmacologia II e Farmacologia Clínica e Terapêutica na Faculdade de Farmácia/UFMG.
 
Referências
¹ Kumar V, Abbas AK, Fausto N, Mitchell RN. Inflamação Aguda e Crônica. Robbins: Patologia Básica. 8ª edição; 2008. p.33-62.
² Fuchs FD, Wannmacher L. Antiinflamatórios não-esteróides. In: Wannmacher L, Ferreira MBC. Farmacologia clínica: fundamentos da terapêutica racional. 2ª edição; 1998. p. 187-93.
³ Rang HP, Dale MM et al. Rang & Dale. Farmacologia. 7.ed. Rio de Janeiro: Elsevier Editora; 2011.
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18 pensamentos sobre “Como tomar corretamente os anti-inflamatórios não esteroides

  1. Vale lembrar que o aumento de volume de água pode aumentar a toxicidade dos derivados do acetilsalicílico. ( Farmacologia Integrada, 4a edição, Clube de Autores)

    • Olá Dr. Roberto! Primeiramente gostaria de agradecer sua visita e comentário. No que diz respeito a sua observação é importante salientar que muitos fatores estão envolvidos no aumento de toxicidade de um fármaco, não podendo por isso serem avaliados de forma isolada. Consultando o livro indicado por você, me ative aos capítulos relativos aos anti-inflamatórios e a parte destinada a farmacocinética, farmacodinâmica e interações medicamentosas, uma vez que você não informou nenhum capítulo específico. No capítulo dedicado aos AINEs, não observei nada que pudesse embasar seu comentário, considerando que ao tratar do ácido acetilsalicílico, por exemplo, o autor reforça a ideia do risco de ocorrência de irritação gástrica e ulcerações devido ao seu efeito ácido ao entrar em contato com a mucosa estomacal. Já no capítulo intitulado “Interações medicamentosas” encontrei uma informação que talvez seja o motivo de sua consideração. Neste capítulo o autor tece considerações acerca do esvaziamento gástrico e motilidade gastrointestinal, e menciona que alimentos líquidos aumentam o esvaziamento gástrico ao estimularem receptores de tensão presentes na parede do estômago, o que poderia levar a uma maior toxicidade dos fármacos por promoverem dessa forma uma maior absorção dos mesmos. Vale lembrar que um aumento de absorção de um medicamento administrado em sua posologia adequada, não está diretamente relacionado a um maior risco de toxicidade de um fármaco. Este é um raciocínio perigoso e desconsidera todos os testes pré-clínicos e clínicos realizados para que a comercialização do medicamento seja possível. Além disso, implica em afirmar que a maior absorção do fármaco resulta em uma intoxicação com doses adequadas do medicamento, quando na verdade isso está relacionado a casos de sobredose (>100 mg/kg). Por fim, ressalto que a indicação de administração do ácido acetilsalicílico com um copo cheio de água integra a bula do medicamento de referência (Aspirina®), assim como sua monografia disponível no Micromedex®. Atenciosamente, Raissa Carolina F. Cândido

    • Obrigada Solange, ficamos felizes em saber que o texto lhe foi útil! Esperamos contribuir cada vez mais para esclarecer dúvidas e estimular o aprendizado de profissionais e pacientes. Continue nos acompanhando e sinta-se sempre a vontade para participar com comentários e sugestões.
      Raissa Carolina F. Cândido

  2. Pingback: Dor e opioides: riscos do uso e metas para minimizar danos | Blog do CEMED

  3. Raissa, tenho uma dúvida: existe algum problema grave em tomar um copo/xícara de café após ingerir um comprimido de um anti-inflamatório?

    Obrigado!

    • Olá Lucas,
      obrigada por sua participação e por visitar o nosso Blog. Os medicamentos anti-inflamatórios não-esteroides são ácidos e, por essa razão, podem causar irritação gástrica quando em contato com o organismo. Além disso, causam a inibição de uma enzima responsável por sintetizar inibidores da secreção de ácido clorídrico e protetores da mucosa do estômago. Por sua vez, o café contém cafeína que, similar aos anti-inflamatórios, também pode causar irritação gastrointestinal. Por esse motivo, embora não haja nenhuma contraindicação expressa em se tomar um copo ou xícara de café após o uso de um anti-inflamatório, é recomendado que haja um intervalo entre o uso das duas substâncias. No caso de tratamentos prolongados com anti-inflamatório, pode ser interessante evitar o uso de bebidas e alimentos que contenham cafeína ou outras substâncias que causem esse desconforto gastrointestinal a fim de diminuir o aparecimento desse efeito. Espero ter lhe ajudado!
      Raissa Carolina F. Cândido

  4. Gostaria de saber se seria mais conveniente tomar o anti inflamatório um dia sim e outro não, ao invés de todo dia, de forma a reduzir os efeitos colaterais e os nocivos. Seria passar um dia sem dor e outro com um pouco de dor. Mas a inflamação correria o risco de se tornar crônica?

    • Prezado(a) Nogueira,
      agradecemos sua participação e comentário! É muito importante que a forma de utilização de qualquer medicamento seja realizada conforme orientação médica ou farmacêutica. A posologia (doses e horários) de um medicamento é pensada de modo que no intervalo entre um comprimido e outro o efeito do medicamento seja mantido. Logo, antes que a concentração do medicamento no organismo reduza a ponto de não fazer efeito, um novo comprimido deve ser tomado. Por essa razão, há medicamentos que devem ser tomados de 6 em 6 horas, outros de 8 em 8 horas, outros uma vez ao dia, etc. No caso do uso crônico de um medicamento é imprescindível que haja acompanhamento regular com o profissional que o indicou ou prescreveu para observar se o medicamento está sendo eficaz e se houve o aparecimento de efeitos adversos. No caso de sintomas persistentes após a utilização adequada de um medicamento, pode ser interessante buscar orientação profissional para a reavaliação do tratamento. Espero tê-lo ajudado! Atenciosamente, Raissa Carolina F. Cândido.

  5. Bom dia, fiz uma cirurgia e o médico me receitou uma caixa de Cetrotofeno, já tomei, mas estou em dúvida se continuo tomando, pois a cirurgia ainda não cicatrizou

    • Olá Reginaldo,
      obrigada por sua visita e participação em nosso Blog! Acredito que você esteja se referindo ao anti-inflamatório cetoprofeno, correto? O cetoprofeno atua como anti-inflamatório, analgésico e antipirético (controle da febre). Medicamentos com essas características são comumente prescritos após cirurgias, por tempo determinado e, possivelmente, foi para prevenir o início de um processo inflamatório e promover o alívio de dores e febre que o médico o prescreveu para você. Se você já tomou todo o medicamento que foi receitado para você, recomendamos que você procure o seu médico e não faça uso do medicamento por conta própria. Aproveite e converse com ele sobre quais as possíveis razões para a cirurgia ainda não ter cicatrizado, qual é o prazo para que o processo de cicatrização termine e quais os cuidados que você deverá ter nesse período. O processo de cicatrização de uma cirurgia varia de paciente para paciente e conforme o tamanho da intervenção que foi feita. É extremamente importante que você siga todas as orientações necessárias para sua recuperação e tire todas as suas dúvidas com o profissional que está acompanhando você. Entender como o processo de recuperação será no seu caso vai te ajudar a se cuidar melhor!
      Atenciosamente,
      Raissa CF Cândido – Equipe do Cemed

  6. Olá, gostaria de mais informações sobre o diclofenaco. Após muita leitura confirmei que o diclofenaco é muito usado por pacientes sem prescrição médica e que seu uso foi banido em alguns países como India e Estados Unidos. O meu principal questionamento seria qual fármaco usar para substituir o diclofenaco ?

    • Prezado,
      Agradecemos sua participação!

      O diclofenaco é um anti-inflamatório não esteroide (AINE), usado para tratar dor de intensidade leve a moderada, sintomas de artrose ou artrite reumatoide e cólica menstrual, entre outras condições inflamatórias. Dentre os efeitos adversos frequentemente relatados com o uso do fármaco, encontram-se: dor abdominal, constipação, diarreia, desconforto gastrintestinal, retenção de líquidos, náuseas e dor de cabeça. Além disso, os AINE aumentam o risco de eventos adversos gastrointestinais como sangramento, ulceração e perfuração gástrica ou intestinal.

      O diclofenaco é um medicamento de tarja vermelha, isto é, de venda sob prescrição médica. Entretanto, como não há obrigatoriedade de retenção da receita, muitas vezes é vendido sem apresentação da prescrição, o que pode levar ao uso inapropriado do medicamento.

      A regulamentação do diclofenaco em vários países é marcada por discussões acerca de sua segurança. As discussões estão relacionadas ao risco de reações adversas cardíacas graves e acidente vascular encefálico (derrame). Esse risco é especialmente importante quando o medicamento é utilizado em doses altas ou por períodos prolongados. No entanto, não encontramos em nossa pesquisa, registros referentes à proibição da comercialização do diclofenaco nos Estados Unidos e Índia. Consultamos sites de algumas das principais agências reguladoras (Estados Unidos, União Europeia e Canadá) e constatamos que ele ainda está disponível nesses países.

      Alguns anti-inflamatórios poderão ser considerados para substituir o diclofenaco. Contudo, é necessário consultar um médico para que ele avalie cuidadosamente o caso e recomende o uso de um anti-inflamatório mais adequado de acordo com suas características e seu quadro clínico.

      Atenciosamente,

      Equipe Cemed.

      Referências:
      1. Drugs.com. Diclofenac. [acesso em 22 de maio 17]. Disponível em: https://www.drugs.com/diclofenac.html
      2. Medscape. Diclofenac. [acesso em 22 de maio 17]. Disponível em: http://reference.medscape.com/drug/voltaren-xr-cataflam-diclofenac-343284
      3. Gov.UK. Diclofenac tablets now only available as a prescription medicine. [acesso em 27 de maio 17]. Disponível em: https://www.gov.uk/government/news/diclofenac-tablets-now-only-available-as-a-prescription-medicine
      4. Health Canada. Drugs and Health Products. Summary Safety Review – Diclofenac – Risk of Major Heart and Stroke Related Adverse Events. [acesso em 27 de maio 17]. Disponível em: http://www.hc-sc.gc.ca/dhp-mps/medeff/reviews-examens/diclofenac-eng.php
      5. McGettigan P, Henry D. Use of non-steroidal anti-inflammatory drugs that elevate cardiovascular risk: an examination of sales and essential medicines lists in low-, middle-, and high-income countries. PLoS Med. 2013;10(2):e1001388.
      6. European Medicines Agency – Science Medicines Health. Diclofenac-containing medicines. [acesso em 27 de maio 17]. Disponível em: http://www.ema.europa.eu/ema/index.jsp?curl=pages/medicines/human/referrals/Diclofenac-containing_medicines/human_referral_prac_000009.jsp&mid=WC0b01ac05805c516f
      7. Central drugs standard control organization – Director general of health services, ministry of health and family welfare, government of India. HOME. Approval. CT APPROVAL 2016-2017. [acesso em 27 de maio 17]. Disponível em: http://cdsco.nic.in/forms/list.aspx?lid=2173&Id=11
      8. U.F. Food & Drug Administration. Drugs@FDA: FDA Approved Drug Products. [acesso em 27 de maio 17]. Disponível em: https://www.accessdata.fda.gov/scripts/cder/daf/index.cfm?event=overview.process&applno=074376

    • Prezada Maria do Carmo,
      Agradecemos pelo contato.
      O cetoprofeno é um anti-inflamatório indicado para tratar dores leves a moderadas, osteoartrite, cólica menstrual e artrite reumatoide . A recomendação geral é que seja utilizado na menor dose efetiva e pelo menor período possível¹. É um medicamento de tarja vermelha e, portanto, deve ser vendido com apresentação de prescrição médica. Recomendamos que você não utilize esse medicamento sem antes consultar um médico, pois é importante identificar as causas da dor e verificar se o medicamento é realmente indicado para o seu caso.

      Referências

      1. Ketoprofen. Dosing/Administration. Adult Dosing. In: DRUGDEX® System (electronic version). Truven Health Analytics, Greenwood Village, Colorado, USA. Disponível: http://www-micromedexsolutions-com.ez27.periodicos.capes.gov.br/. Acesso em 21/08/2017.

  7. Bom dia!!Estou com faringite purulenta.O médico do pronto socorro receitou amoxilina e maxulide,recomendando parar o antiinflamatório assim que a dor cesasse.Comecei a tomar ontem,e hoje não dói mais.O antibiótico vou tomar por uma semana,mas posso parar com o antoinflamatório,pois tenho gastrite cronica,e a dor passou?

    • Prezada Eliane,
      Pedimos desculpas pela demora em lhe dar um retorno. Infelizmente não conseguimos atender às demandas de maneira instantânea. Assim, sugerimos que as dúvidas mais urgentes sejam esclarecidas presencialmente com um profissional de saúde. Um farmacêutico poderia ajudar no seu caso.
      O uso de anti-inflamatórios não esteroides como o Maxulide (nimesulida) é recomendado apenas como adjuvante no tratamento da faringite para alívio de sintomas como dor e febre [1]. Portanto, o uso do medicamento pode ser interrompido quando os sintomas já não estiverem mais presentes.
      Por outro lado, o antibiótico deve ser mantido após a resolução dos sintomas, até completar o período indicado na prescrição médica. O uso correto do antibiótico é imprescindível para o sucesso do tratamento e para que o quadro não se agrave.
      Atenciosamente,
      Equipe Cemed
      [1] Streptococcal pharyngitis. Treatment. In: DISEASEDEX – General Medicine (electronic version). Truven Health Analytics, Greenwood Village, Colorado, USA. Disponível em: http://www-micromedexsolutions-com.ez27.periodicos.capes.gov.br/ (acesso em 11/09/2017).

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