Medicamentos para diarreia: entender as causas para fazer uma boa escolha

Por Rafaela J M de Santana

Diarreia é a ocorrência de três ou mais evacuações líquidas ou semilíquidas em quantidade moderada ou grande em 24 horas1. Pode ser crônica (duração superior a duas semanas), como na intolerância à lactose e na Síndrome do Intestino Irritável, ou aguda (duração inferior a duas semanas), sendo esta causada por agentes infecciosos, fármacos ou toxinas2. A diarreia aguda não específica geralmente é benigna e autolimitada, sendo a desidratação o maior risco envolvido.  A terapia de reidratação oral constitui uma medida essencial, enquanto medicamentos antidiarreicos, quando indicados, reduzem os sintomas e encurtam o incômodo experimentado pelo paciente, permitindo que ele retorne mais rapidamente à suas atividades normais3.

Fonte: Google Imagens

Fonte: Google Imagens (adaptada)

Ao procurar por antidiarreicos nas farmácias e drogarias, os antigos consumidores devem se perguntar onde estão a Ftalomicina® (ftalilsulfatiazol + hidróxido de alumínio), o Kaomagma® (associação de caulim, pectina e hidróxido de alumínio), ou xarope à base de loperamida, medicamentos que já foram tão indicados para a diarreia.  Em 1994, a Secretaria de Vigilância Sanitária do Ministério da Saúde (antecessora da Anvisa) instituiu portaria4 proibindo a produção e comercialização de 73 antidiarreicos, muitos deles de uso popular consagrado. A razão foi ineficácia e a possibilidade de provocar efeitos adversos graves, incluindo óbitos, como o caso dos opiáceos (difenoxilato e loperamida) em formas farmacêuticas líquidas para uso pediátrico. Também foram cancelados os registros de associações de antimicrobianos com substâncias anticolinérgicas, caulim, pectina e atapulgita, isolados ou associados entre si e com indicação antidiarreica. Essa medida contribuiu para a diminuição das opções terapêuticas irracionais no mercado, aumentando a segurança no uso dessa classe de medicamentos5.

Os medicamentos destinados ao tratamento da diarreia disponíveis atualmente podem atuar sobre os microrganismos que causam a diarreia ou sobre o trato intestinal, diminuindo a motilidade ou a secreção ou alterando a sua flora. Os medicamentos que diminuem a motilidade intestinal (loperamida, Imosec®) devem ser evitados nas diarreias causadas por microrganismos ou toxinas, pois podem retardar a eliminação dos mesmos e propiciar invasão sistêmica. Os antissecretórios (racecadotril, Tiorfan®) influenciam na excreção de eletrólitos e não na motilidade6. Os probióticos (S. boulardii, Floratil®) são suplementos microbianos que melhoram a função intestinal através da competição com os patógenos por nutrientes e por locais de adesão no intestino, além de produzirem compostos que inibem os patógenos7. Os antidiarreicos não são indicados para diarreia aguda em crianças por apresentarem riscos elevados e pouco benefício no tratamento da diarreia infantil. Para o tratamento da diarreia aguda em crianças, recomenda-se a terapia de reidratação oral, alimentação balanceada e suplementação com zinco1.

A compreensão das causas da diarreia facilita a escolha correta para o tratamento eficaz desse sintoma, que mesmo sendo em grande parte dos casos autolimitado e benigno, impacta as atividades diárias e pode levar os pacientes a absenteísmo ao trabalho e à escola, com impacto na vida social e econômica7.

Referências
1 World Health Organization. The Treatment of diarrhoea: a manual for physicians and other senior health workers. 4th rev. Geneva: WHO Library Cataloguing: 2005.
2 Farthing M, Lindberg G, Dite P, Khalif I, Lindo ES, Goh K, Thomson A, Khan AG. Guia prático da Organização Mundial de Gastroenterologia: Diarreia Aguda. 2008.
3 Kaplan MA, Prior MJ, McKonly KI, DuPont HL, Temple AR, Nelson EB. A Multicenter Randomized Controlled Trial of a Liquid Loperamide Product Versus Placebo in the Treatment of Acute Diarrhea in Children. Clin pediatr. 1999; 38:579-591.
4 Brasil. Ministério da Saúde. PORTARIA Nº 106, DE 14 DE SETEMBRO DE 1994. [internet]. [acesso em 2013 set 02]. Disponível em  http://www.brasilsus.com.br/legislacoes/svs/15134-106.html
5 Costa ARV, Carvalho PM, Souza ESM. Medical and social repercussion of the governamental prohibition of selling of antidysenterics. Rev bras ciênc saúde. 1998; 2(1/3): 43-8.
6. Brunton LL, Lazo JS, Parker KL. Goodman e Gilman: As bases farmacológicas da terapêutica. 11 ed. Porto Alegre: AMGH; 2010.
7 Moraes E, Chinzon D, Coelho LG, Fernandes TF, Haddad  MT. A multicentric, randomised, investigator-blind, parallel group study to assess the efficacy, safety and tolerability of Racecadotril versus Saccharomyces boulardii in the treatment of acute diarrhoea in adults. Rev bras med. 2001; 58(1/2):65-74.
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Acupuntura: uma alternativa não farmacológica para o tratamento da dor

por Alessandra C. Montes Frade

Fonte: Google Imagens

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A Medicina Chinesa compreende um vasto campo do conhecimento, de origem e concepção filosófica abrangendo vários setores ligados à saúde e doença1, e vem se desenvolvendo ao longo de, pelo menos, 3000 anos. No ocidente, o recurso terapêutico mais conhecido da Medicina Chinesa é a Acupuntura. Ela envolve o uso de agulhas, geralmente introduzidas entre as camadas superficiais da pele para promover o estímulo mecânico de pontos dos canais de energia, que se situam abaixo do local de aplicação2, auxiliando na recuperação da saúde.

O tratamento consiste em sessões com duração entre 45 minutos e uma hora, e a resposta ao tratamento varia de acordo com a percepção da dor, sua etiologia e a saúde geral do indivíduo3. Dessa forma, a sensação de melhora no quadro da dor pode variar de 6 a 8 sessões, mas em alguns pacientes ela pode ser notada bem antes (entre 2 e 3 sessões). O número de agulhas usadas pode variar entre 12 e 35 durante uma única sessão3.

Por ser uma técnica minimamente invasiva não há contra indicação, podendo ser utilizada inclusive na gravidez; nesses casos, porém, deve-se evitar a estimulação dos pontos que atuam como dilatadores do colo do útero e facilitadores da contração uterina4. Atualmente, as agulhas são descartáveis e embaladas individualmente, sendo o risco de infecção extremamente baixo3. A complicação mais comum é um leve ferimento em áreas muito vascularizadas onde as agulhas são inseridas, embora seja uma ocorrência rara, pois as agulhas são pequenas e finas3.

Indicada para o tratamento da dor aguda e crônica, a acupuntura oferece alívio efetivo, principalmente nas dores lombares, cefaleias e na osteoartrite. Ensaios clínicos randomizados relatam que grupos de pacientes que utilizaram a acupuntura no tratamento da dor muscular esquelética, osteoartrite e dor de cabeça apresentaram eficácia 55%, 57% e 42% maiores, respectivamente, em relação ao grupo que não recebeu a acupuntura5.

No Brasil, após várias Conferências Nacionais de Saúde e de recomendações da OMS, foi implantada a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC), com o objetivo de regulamentar a utilização da acupuntura e outras técnicas alternativas na promoção da saúde no Sistema Único de Saúde (SUS)5,6. Em 1999, a acupuntura foi incluída na tabela de procedimentos do Sistema de Informação Ambulatorial do SUS (SIA/SUS)5,6, o que ampliou o acesso a esse tratamento. Além disso, observa-se um aumento gradual na oferta desse serviço pelo SUS desde a sua inclusão6. Dados atuais do Ministério da Saúde mostram que em 2012 ocorreu um aumento de 272% em relação ao ano de 2010, sendo realizada mais de 850 mil sessões de acupuntura7.

Portanto, a acupuntura tornou-se uma opção a ser considerada no tratamento da dor. Sem restrições, pode ser empregada em pacientes que não desejam utilizar a terapia medicamentosa, ou que já utilizam vários outros medicamentos, ou ainda quando as terapias ocidentais tradicionais para tratamento da dor não têm sido bem sucedidas.

Referências:
1 Yamamura Y. Acupuntura Tradicional: A Arte de Inserir. 1 ed. São Paulo: Roca; 1995.
2 Bensky D, O’Connor J. Shanghai College of Traditional Medicine. Acupuntura: um texto compreensível. 1 ed. São Paulo: Roca; 1996.
3 Eshkevari L, Heath J. Use of acupuncture for chronic pain: optimizing clinical practice. Holist Nurs Pract. 2005 Sep-Oct;19(5):217-21.
4Da Silva AV, Nakamura MU, da Silva JB. ‘Forbidden points’ in pregnancy: do they exist? Acupunct Med 2011; 29:135–136.
5Vickers AJ, Cronin AM, Maschino AC, Lewith G, MacPherson H, Foster NE, Sherman KJ, Witt CM, Linde K. Acupuncture for Chronic Pain: Individual Patient Data Meta-analysis.Arch Intern Med. 2012 Oct; 172(19):1444-1453.
5 Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no SUS – PNPIC-SUS. 2006.
6Santos FAS, Gouveia GC, Martelli PJL, Vasconcelos EMR. Acupuntura no sistema único de saúde e a inserção de profissionais não-médicos. Rev Bras Fisioter, São Carlos, v. 13, n. 4, p. 330-4, jul./ago. 2009.
7Brasil. Ministério da Saúde. Procura por tratamento que utilizam acupuntura aumenta 272% na rede de saúde. Portal Brasil, 2013 [2013 nov; acessado em 2013 nov 03]. Disponível em: http://www.brasil.gov.br/saude/2013/05/procura-por-acupuntura-ofertada-pelo-sus-aumenta-272.