O que você sabe sobre o tratamento dos pacientes asmáticos?

por Érika Paz S Santos

A asma é uma doença inflamatória crônica das vias respiratórias inferiores que não tem cura, sendo caracterizada por episódios súbitos e recorrentes de falta de ar, sibilo (chiado) e opressão torácica. Não se sabe ao certo quais são as causas dessa inflamação, mas entre os fatores que tradicionalmente levam à dificuldade respiratória em pacientes asmáticos se destacam diversos alérgenos, como ácaros da poeira doméstica, pelos de animais, fungos (mofo), fumaça de cigarro e poluição1.

Grande parte dos sinais e sintomas da asma é provocada pela contração do músculo liso das vias aéreas após a liberação de vários mediadores inflamatórios e neurotransmissores autonômicos. Assim, o uso de medicamentos broncodilatadores se faz necessário porque esses promovem o relaxamento do músculo liso e, consequentemente, o alívio da dificuldade respiratória, embora não apresentem significativa atividade sobre a inflamação2,3. Na Lista dos Medicamentos Essenciais (LME) da Organização Mundial de Saúde (OMS), dentre os fármacos com ação broncodilatadora são encontrados a epinefrina, o salbutamol e o brometo de ipratrópio, sendo esse contra indicado para crianças1,4,5.

 À medida que a doença se agrava (asma persistente), é necessário o uso dos anti-inflamatórios esteroides (AIEs) inalatórios e não apenas dos broncodilatadores. Os AIEs inalatórios são de grande importância para o tratamento dos pacientes asmáticos, pois melhoram a função pulmonar, reduzem a inflamação, bem como a frequência e a gravidade da dificuldade respiratória e, por fim, a mortalidade1,3. O único AIE inalatório presente na LME é a beclometasona, indicada para o tratamento de adultos e crianças4,5. Embora exista um receio quanto ao uso sistêmico (oral) de AIEs, devido ao risco da ocorrência de reações adversas conhecidas (aumento de massa corporal, acúmulo de gordura, redução da tolerância a carboidratos, fragilidade vascular, maior suscetibilidade à infecções, entre outras), esse temor não se justifica quando essa classe de fármacos é usada por pacientes asmáticos. Isso porque os AIEs mais usados por esses pacientes (beclometasona, fluticasona e budesonida) são utilizados por via inalatória, sendo pequena a quantidade de fármaco que atinge a circulação sistêmica, de forma que as reações adversas associadas são mínimas2. Quando os AIEs não são introduzidos na farmacoterapia dos pacientes asmáticos, há um risco elevado de ocorrência de mudanças anatômicas progressivas das vias respiratórias (acúmulo de líquido nos bronquíolos, produção excessiva de muco e contração da musculatura lisa), levando à manutenção da obstrução do fluxo aéreo e, consequentemente, dos sinais e sintomas da doença2,3.

Fonte: Google imagens

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Para que a farmacoterapia antiasmática seja efetiva, é importante que o médico e farmacêutico orientem o paciente a usar corretamente o aerossol dosimetrado (“bombinha”)6. O uso incorreto da “bombinha” pode resultar em deposição dos fármacos (broncodilatadores ou AIEs) na orofaringe (região entre a boca e a garganta), o que contribui para que uma menor quantidade do fármaco alcance os pulmões e, assim, ocorra maior absorção sistêmica. Consequentemente surgem problemas como a rouquidão e a fraqueza da voz (disfonia), relatada em até 40% dos pacientes, e a candidíase, em aproximadamente 5% deles.  Além das orientações corretas, para evitar que esses problemas ocorram é indicado o uso da “bombinha” acoplada ao espaçador, o que facilita a técnica de inalação e aumenta o acesso do fármaco às vias aéreas inferiores, principalmente em crianças2. Vale ressaltar que os broncodilatadores e AIEs não devem ser usados de forma ininterrupta como em outras doenças crônicas, apesar da asma apresentar essa característica e não ter cura. A utilização desses medicamentos deve ser feita apenas quando ocorre um agravamento da doença, com aumento da dificuldade respiratória, ou no período prescrito pelo médico, evitando, assim, o uso irracional.

Fonte: Google imagens

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Embora a farmacoterapia seja eficaz para controlar os sinais e sintomas da asma e melhorar a qualidade de vida dos pacientes, é importante que medidas preventivas não farmacológicas também sejam adotadas para melhorar os resultados do tratamento e impedir o agravamento da doença. Essas medidas envolvem as mudanças de hábitos e estilo de vida, além da limpeza do ambiente (residência, local de trabalho, escola, entre outros) para reduzir o nível de alérgenos que levam à dificuldade respiratória. Assim, deve-se educar o paciente e seus familiares sobre o uso correto dos medicamentos antiasmáticos e sobre medidas para evitar ou reduzir a exposição aos fatores de risco.

 

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Colaboração:
Prof. Márcio de Matos Coelho – professor das disciplinas de Farmacologia I, Farmacologia II e Farmacologia Clínica e Terapêutica na Faculdade de Farmácia/UFMG.
 
 
Referências
1 Canadá. Global Initiative for Asthma. Global Strategy for Asthma Management and Prevention 2012 (update). Vancouver, 2012. p. 1-9; 29-43.
2 Barnes PJ. Farmacologia pulmonar. As bases farmacológicas da terapêutica de Goodman & Gilman. 12 ed. AMGH. Porto Alegre; 2012. p. 1031-1065.
3 Brasil. Ministério da Saúde. Formulário terapêutico nacional 2010: RENAME 2010. 2 ed. Brasília; 2011. Parte II, Seção B; p. 283-292.
4 Suíça. World Health Organization. WHO Model List of Essential Medicines. 18 ed. Genebra; 2013. p. 1-45.
5 Suíça. World Health Organization. WHO Model List of Essential Medicines for children. 4 ed. Genebra; 2013. p. 1-35.
6 Brasil. Ministério da Saúde. Cadernos de atenção básica – doenças respiratórias crônicas. Série A. Normas e Manuais Técnicos ISBN 978-85-334-1699-4. 1 ed. Brasília; 2010. p. 105-109.
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3 pensamentos sobre “O que você sabe sobre o tratamento dos pacientes asmáticos?

  1. Portanto, educação é a base para a aderência ao tratamento e para o sucesso do controle da asma, deve ser realizada de maneira assistida e continuada, envolvendo inteiramente toda a equipe multiprofissional, capaz de garantir um impacto positivo frente à doença. Neste meio, está o fundamento da participação do farmacêutico no controle da asma, já que este é capaz de prestar a atenção farmacêutica diretamente ao paciente, de forma contínua, somando atitudes, responsabilidades e habilidades na aplicação da farmacoterapia, usufruindo de conhecimento técnico e científico, a fim de buscar resultados terapêuticos definidos na evolução da qualidade de vida do paciente (HEPLER; STRAND, 1990 apud PRAXEDES et al., 2008).

    • Olá Cristiane! Agradecemos sua visita e comentário. Concordamos com os autores citados quando destacam a participação do farmacêutico nas equipes multiprofissionais, pois esta é realmente de grande importância na promoção, prevenção e recuperação da saúde, visto que esse é um profissional capaz de atuar, por exemplo, levando orientações seguras quanto ao uso correto dos medicamentos. E com relação ao tratamento dos pacientes asmáticos percebe-se como a atuação do farmacêutico é crucial para que os usuários façam o manuseio correto dos dispositivos de inalação dos medicamentos e, assim, a farmacoterapia seja efetiva. Att., Érika Paz S Santos

  2. Pingback: Como utilizar corretamente os inaladores empregados no tratamento da asma? | Blog do CEMED

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