Desprescrição em idosos: uma prática a ser valorizada

por Mariana Fontoura L. Nascimento

As melhorias nas condições sanitárias e de moradia, os avanços na medicina e as inovações tecnológicas pressupõem maior qualidade de vida para a população e, consequentemente, um aumento na expectativa de vida. De acordo com o último censo realizado em 2010, os brasileiros com 65 anos ou mais representavam 7,4% da população total, e estimativas apontam que em 2050 esse número pode chegar a 22,71%1,2. Essa tendência de envelhecimento populacional gera uma crescente demanda para os serviços de saúde, uma vez que os idosos necessitam de cuidados especiais, pois possuem maior propensão a desenvolver doenças, sejam crônico-degenerativas, como cardiopatias, diabetes, câncer, ou doenças infecciosas3 como gripes e pneumonia.

O uso de vários medicamentos simultaneamente (polifarmácia) é uma prática comum quando se refere a pacientes idosos. Estes, em geral, consultam diferentes especialidades médicas, agrupando várias classes de medicamentos ao seu histórico farmacológico. Contribui para a polifarmácia o processo de fragmentação da visão do modelo biomédico sobre o homem, de modo que cada especialista assume a responsabilidade sobre o “órgão doente” de sua área de atuação sem considerar o ser humano como um todo, com suas características biológicas, psicológicas e socioambientais4. A associação incorreta de medicamentos pode potencializar o risco de eventos adversos5 e, neste contexto, as prescrições inadequadas são apontadas como a principal causa dos problemas gerados pela polifarmácia6. Segundo revisão sistemática recente, uma em cada cinco prescrições destinadas às pessoas idosas na atenção primária é inapropriada7.

Este panorama nos leva à importante reflexão acerca de uma prática de atenção à saúde denominada desprescrição*. Essa prática consiste em uma rigorosa análise das prescrições, de modo a identificar problemas relacionados aos medicamentos utilizados, contribuindo para maior qualidade da farmacoterapia, melhoras funcionais e redução de gastos com internações decorrentes, por exemplo, de eventos adversos.  Embora a desprescrição possa, em condições muito específicas, ser feita por farmacêuticos, o médico continua sendo o principal ator dessa prática. O apoio de farmacêuticos e enfermeiros, sugerindo condutas terapêuticas, seja por meio de diálogo com o prescritor ou por intermédio do paciente, pode somar esforços a fim de minimizar interações indesejáveis e reações adversas8. As intervenções podem variar desde a modificação das doses, substituição, eliminação ou até mesmo inclusão de fármacos à prescrição médica9.

Fonte: Google Imagens

Fonte: Google Imagens

Desprescrever envolve cinco etapas9:

  • Revisar: listar todos os medicamentos utilizados e avaliar o estado físico e comportamental, bem como o contexto sociofamiliar do paciente.
  • Analisar: avaliar adesão, interações e efeitos adversos. Pontuar metas de atenção e objetivos de tratamento, considerando a relação entre expectativa de vida e o tempo até o benefício.
  • Agir: iniciar a desprescrição, retirando fármacos inapropriados e que causam danos mais graves, ajustando doses ou introduzindo outros fármacos necessários.
  • Ajustar: pactuar expectativas e crenças do paciente dando preferências às reais possibilidades de cumprimento da prescrição.
  • Monitorar: detectar ressurgimento dos sintomas ou agravamento da doença de base, avaliar adesão à desprescrição, destacar conquistas e proporcionar apoio ao paciente.

Como qualquer intervenção em saúde, a desprescrição pode ter implicações negativas, apesar dos benefícios ao paciente. Entre essas, vale citar algumas complicações, como a síndrome de retirada, que está relacionada principalmente aos fármacos que atuam no sistema nervoso central como os benzodiazepínicos, e o efeito rebote, entendido como o reaparecimento dos sintomas após a retirada do medicamento. Por estas razões é importante realizar o processo envolvendo o paciente, seu cuidador e os profissionais responsáveis, ressaltando que nenhuma alteração deve ser vista como irreversível10, 11, e que o sucesso da intervenção depende do acompanhamento constante do paciente pelos profissionais envolvidos em seu caso clínico, incluindo o cuidador, se for o caso.  Desprescrever é uma prática que beneficia não apenas aos idosos, mas também todo paciente que possui uma conduta terapêutica inadequada.

A alteração da conduta terapêutica de um paciente assume obstáculos não apenas por parte do indivíduo, que pode se sentir inseguro com a prática, mas também por fatores externos como o sistema de saúde vigente, os profissionais responsáveis e a relação profissional-paciente9. Assim, se faz necessário que a população e os profissionais de saúde busquem informações sobre o processo de desprescrição para que essa prática seja mais valorizada e incorporada, de fato, à rotina terapêutica. É importante ressaltar que a interação entre os profissionais que acompanham o paciente é o principal facilitador para o sucesso da prática, sendo por isso indispensável a troca de informações e conhecimentos entre os mesmos visando à qualidade de vida do indivíduo.

* A prática da desprescrição possui características similares à conciliação de medicamentos, porém a conciliação é mais comum no âmbito hospitalar. Neste caso é feita uma comparação entre as prescrições médicas realizadas anteriormente à internação, durante e após a alta hospitalar, com a finalidade de identificar variações e corrigir possíveis erros de medicação12.

Referências:
1. IBGE, Censo Demográfico de 2010, Proporção da população residente de 0 a 14 anos, de 15 a 64 anos e de 65 anos ou mais na população total, por situação do domicílio – Brasil – 1960/2010, p.59, 2010
2. IBGE, Projeção da população do Brasil por sexo e idade 1980-1950, p.51.  Rio de Janeiro, 2008.
3. Penteado, P.T.P. et. al. O uso de medicamentos por idosos. Visão acadêmica, Curitiba, v.3, n.1, p. 35-42, Jan./Jun 2002.
4. Sanvito WL, Rassalan Z. Os Paradoxos da Medicina Contemporânea. Revista da Associação Médica Brasileira, São Paulo, 2012 
5. Williams CM. Using medications appropriately in older adults. Am Fam Physican. 2002;66;1917-24.
6. Gavillán-Moral, Suarez Varela MT, Hoyos Esteban JA, Pérez Suanez AM. Polimedicación y prescripción de fármacos inadecuados em pacientes ancianos inmovilizados que viven em la comunidad. Atencion Primaria. v.38, n.9, pp. 476-480, 2006
7. Opondo D, Eslami S, Visscher S, de Rooij SE, VerheijR, Korevaar JC, et al. Inappropriateness of medication prescriptions to elderly patients in the primary care setting: a systematic review. PloS one. 2012;7(8):e43617.Disponível em: http://www.plosone.org/article/info%3A doi%2F10.1371%2Fjournal.pone.0043617
8. Gusso, Gustavo; Lopes, José Mauro Ceratti. Tratado de Medicina de Família e Comunidade. Ed. Artmed, v.1, p. 833, 2012.que 64 anos e de
vxternos (geriatras e farmac
9. Gavillán-Moral, Villafaina-Barroso A, Jiménez-de Garcia L, Gómez Santana C. Ancianos frágiles polimedicados: ¿es la deprescripción de medicamentos una salida? Rev Esp Geriatr Gerontol [Internet]. 2012. Disponível em: http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0211139X12000601
10. Infac. Información Farmacoterapéutica de la Comarca [editorial]. V.20, n.8, 2012. Disponível em: http://www.osakidetza.euskadi.net/contenidos/informacion/cevime_infac/es_cevime/adjuntos/INFAC_vol_20_n_8.pdf.
11. Gnjidic D, Le Couteur DG, Kouladjian L, Hilmer SN. Deprescribing trials: methods to reduce polypharmacy and the impact on prescribing and clinical outcomes. Clin Geriatr Med. 2012; 28(2):237-53. Disponível em: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22500541
12. Neiva, H. M. Aula sobre conciliação de medicamentos. Amfar. Disponível em: http://www.amfar.com.br/apresenta/AulaConciliacaoModif_301108.pdf.

2 pensamentos sobre “Desprescrição em idosos: uma prática a ser valorizada

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