Recomendação de restrição do uso de domperidona

A Autoridade de Medicamentos da Bélgica, preocupada com os riscos cardíacos da domperidona (Motilium®), solicitou ao Comitê de Farmacovigilância da Agência Europeia de Medicamento (PRAC) uma revisão de segurança sobre esse fármaco. Após concluir a revisão esse Comitê recomendou as seguintes alterações na sua utilização: redução da dose oral para 10 mg até três vezes ao dia (para adultos e adolescentes com 35 kg ou mais)  e a diminuição do tempo de tratamento (até uma semana). Além disso, o uso da domperidona para o tratamento de outros desconfortos gástricos como sensação de aumento da pressão intra-abdominal e azia não será mais autorizado.

O comitê concluiu que o benefício do uso da domperidona no tratamento de náuseas e vômitos ainda é considerado superior ao risco quando o fármaco é administrado em baixas doses e por curto prazo.

 

O artigo pode ser acessado no link:

http://www.ema.europa.eu/ema/index.jsp?curl=pages/news_and_events/news/2014/03/news_detail_002039.jsp&mid=WC0b01ac058004d5c1

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Novas pesquisas para o controle da Doença de Parkinson

por Érika Paz S Santos

 

Fonte: Google Imagens

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Descrita pela primeira vez em 1817 por James Parkinson, a Doença de Parkinson é uma patologia que acarreta principalmente alterações motoras nos indivíduos devido a morte de neurônios dopaminérgicos localizados na substância negra1,2. A deficiência de neurotransmissores, especialmente a dopamina, afeta diversas áreas do sistema nervoso central à medida que a doença progride, prejudicando a capacidade de controle dos movimentos normais no organismo e gerando sinais não motores, como depressão, ansiedade, distúrbios do sono, disfunção cognitiva, hipotensão ortostática, entre outros. As manifestações clínicas mais comuns da Doença de Parkinson são: tremor de repouso, rigidez muscular, lentidão durante os movimentos (bradicinesia) e instabilidade postural (postura encurvada e flexionada para frente)2,3.

O tratamento da Doença de Parkinson visa reduzir a progressão da doença e o controle dos sinais e sintomas. A carbidopa+levodopa (Sinemet®) é considerada o fármaco inicial e mais efetivo para o tratamento sintomático, controlando principalmente a rigidez e a bradicinesia1. Contudo, com a progressão da doença e uso prolongado desse medicamento, há o surgimento de discinesia (tremores repetitivos e involuntários), que acarreta piora funcional aos pacientes1,4,5. Uma alternativa para controlar essas complicações motoras é reduzir a dose de carbidopa+levodopa e associar outros medicamentos ao tratamento, como cloridrato de amantadina (Mantidan®), dicloridrato de pramipexol (Sifrol®) e entacapona (Comtan®), comercializados no Brasil1,6. Porém, a efetividade desses medicamentos em longo prazo é incerta e seus efeitos adversos são significativos (alucinações, confusão mental, anorexia, sonolência diurna excessiva, entre outros), o que leva a interrupção do uso em muitos tratamentos1.

Pesquisas recentes têm buscado estratégias para minimizar os efeitos colaterais do tratamento prolongado com a carbidopa+levodopa. Estudos pré-clínicos sugerem que o controle da discinesia pode ser alcançado com a possível regulação da quantidade de óxido nítrico no cérebro, um neurotransmissor capaz de modular a atividade de outros neurotransmissores, como a dopamina4,7. Duas substâncias são alvo desse estudo: o composto 7-nitro-indazol (7-NI) e o corante azul de metileno, capazes de inibir a produção e a ação do óxido nítrico, respectivamente4. A aplicação do 7-NI em ratos resultou em menor quantidade do óxido nítrico e desaparecimento da discinesia, com recuperação de quase 100% dos movimentos normais4,8. A utilização do azul de metileno também levou a regressão da discinesia, pela possível redução da disponibilidade de óxido nítrico no sistema nervoso4. Apesar dos resultados positivos, essas pesquisas ainda não foram conduzidas em humanos e devem ser analisadas com cautela, pois na discinesia há o envolvimento de vários neurotransmissores e o controle da produção de óxido nítrico se dá por diversos mecanismos fisiológicos, sendo sua ação difusa no organismo4,7.

Outros estudos avaliam a utilização da terapia genética para a redução dos tremores dos pacientes com Doença de Parkinson avançada, nos quais o tratamento habitual com fármacos precursores da dopamina já não produz resultados significativos. Trata-se da inserção de genes funcionais em células com defeitos genéticos, podendo aumentar ou reduzir a expressão deles. Esse procedimento é realizado por vetores virais cujos genes essenciais para a replicação do seu genoma foram removidos, permitindo que eles transfiram seu material genético para o núcleo das células hospedeiras sem a capacidade de se replicar nelas, não apresentando patogenicidade. A técnica utilizada na Doença de Parkinson consiste na injeção cirúrgica de genes nas células da região neuronal envolvida na síntese da dopamina, de forma a induzir sua produção. Os resultados desses estudos em animais mostraram redução da discinesia quando comparado ao tratamento convencional com carbidopa+levodopa e os ensaios clínicos de fase I e II estão em avaliação, pois, embora benéficas, as melhorias funcionais ainda são modestas quando comparadas ao efeito de placebo9,10. O que torna a Doença de Parkinson um alvo para a terapia genética é sua causa definida e sua característica neurodegenerativa progressiva, não tratada adequadamente com as intervenções farmacológicas disponíveis.

Fonte: Google imagens

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O desenvolvimento de pesquisas alternativas como essas é de grande importância para o controle dos sintomas da Doença de Parkinson. Problema de saúde pública preocupante, a doença acomete principalmente pessoas a partir dos 60 anos de idade, parcela crescente da população, e é uma das principais causas de incapacidade motora nessas pessoas2,3. A redução da qualidade de vida provocada causa graves problemas sociais, como: elevado risco de quedas devido as alterações posturais, acarretando em maior número de fraturas e intervenções de saúde; redução das atividades diárias exercidas dos pacientes, levando a diminuição da mobilidade e aumento da limitação física; depressão e isolamento social11. A doença acomete mais de quatro milhões de pessoas em todo o mundo12, ocasionando impacto financeiro elevado. O custo mundial com medicamentos antiparkinsonianos por ano ultrapassa os 11 bilhões de dólares, sendo o tratamento de pacientes na fase avançada da doença cerca de 3 a 4 vezes mais caro1.

Referências
1 Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas – Doença de Parkinson. Portaria Nº 228, de 10 de maio de 2010. Brasília; 2010. p. 1-19.
2 Standaert DG, Roberson ED. Tratamento dos distúrbios degenerativos do sistema nervoso central. As bases farmacológicas da terapêutica de Goodman & Gilman. 12 ed. AMGH. Porto Alegre; 2012. p. 610-619.
3 Wirdefeldt K; et al. Epidemiology and etiology of Parkinson’s disease: a review of the evidence. Eur J Epidemiol. 2011;26:S1–S58. DOI 10.1007/s10654-011-9581-6
4Bicudo F. Movimentos sob controle – Compostos parecem reduzir um grave efeito colateral do tratamento do Parkinson. FAPESP [internet]. 2013 [acesso em 2014 jan 6]; 214: 50-53. Disponível em: http://revistapesquisa.fapesp.br/2013/12/18/movimentos-sob-controle/
5 Niccolini F, Loane C, Politis M. Dyskinesias in Parkinson’s disease: views from positron emission tomography studies. European Journal of Neurology. 2014; 1-11. DOI: 10.1111/ene.12362
6 Brasil. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).Medicamentos Genéricos Registrados. Brasília, 2014 mar. 6. [acesso em 2014 março 21]. Disponível em: http://s.anvisa.gov.br/wps/s/r/cR7o
7 Lorenc-Koci E, Czarnecka A. Role of nitric oxide in the regulation of motor function. Pharmacological Reports. 2013; 65: 1043-1055. ISSN 1734-1140
8 Del-Bel E; et al. Counteraction by Nitric Oxide Synthase Inhibitor of Neurochemical Alterations of Dopaminergic System in 6-OHDA-Lesioned Rats Under L-DOPA Treatment. Neurotox Res. 2013; 25: 33-44. DOI 10.1007/s12640-013-9406-3
9 Palfi S; et al. Long-term safety and tolerability of ProSavin, a lentiviral vector-based gene therapy for Parkinson’s disease: a dose escalation, open-label, phase 1/2 trial. The Lancet. França, 2014; 1-9.
10 Coune PG, et al. Parkinson’s disease: gene therapies. Cold Spring Harb Perspect Med. Apr 2012; 2(4): a009431. DOI 10.1101/cshperspect.a009431.
11 Camargos, ACR, et al. O impacto da Doença de Parkinson na qualidade de vida: uma revisão de literatura. Rev. Bras. Fisioter. 2004; 8: 267-272. ISSN 1413-3555
12 Dorsey ER, et al. Projected number of people with Parkinson disease in the most populous nations, 2005 through 2030. Neurology. 2007;68: 384– 386. DOI 10.1212/01.wnl.0000247740.47667.