Seria a Atenção Farmacêutica o futuro de nossa profissão?

Por Rafaela Januário Maia de Santana

Vivemos em uma sociedade cada vez mais medicalizada, onde os indivíduos acreditam que existe um medicamento para cada um de seus problemas. Convivemos com profissionais que reforçam essa prática ao prescreverem novidades do mercado farmacêutico, sem considerar a segurança, eficácia e acessibilidade das mesmas. Também lidamos com certa “inércia clínica”, entendida como a falta de atualização dos conhecimentos a respeito do mercado farmacêutico, ou interesses pessoais que levam profissionais a prescreverem sempre os mesmos medicamentos, ainda que não sejam os mais seguros, efetivos ou acessíveis. Evidências nos mostram que prescrição e dispensação não têm sido desenvolvidas de forma adequada para garantir a segurança e efetividade dos tratamentos1. A automedicação irresponsável e o mau uso dos medicamentos de venda livre aumentam o risco da ocorrência de reações adversas a medicamentos e de interações medicamentosas, resultando em um aumento da morbidade e da mortalidade relacionadas a medicamentos2.

Só alcançaremos transformações nas práticas profissionais, responsáveis pelo contexto determinante dessa sociedade medicalizada, após reflexões que gerem um desconforto e o despertar para necessidade de mudanças. Nesse sentido, uma análise da profissão farmacêutica nos mostra que a sua característica híbrida  parece ter gerado ao longo das últimas décadas visões conflituosas sobre a mesma e certa pobreza ideológica sobre a atuação profissional na Farmácia. A falta de formalização e normatização de algumas condutas e responsabilidades do profissional, no que tange à assistência ao paciente, cria inquietações e questionamentos por parte dos farmacêuticos, fazendo-os refletir sobre seu papel social e reconhecendo a sua falta de identidade como profissional da saúde, subutilizado dentro do sistema e invisível socialmente.

A Atenção Farmacêutica pode ser entendida como uma mudança de paradigma consoante às transformações da profissão e às necessidades da sociedade. A Atenção Farmacêutica também pode ser vista como uma filosofia que procura colocar os interesses do paciente acima dos interesses da indústria farmacêutica e garantir maior espaço para os farmacêuticos no mercado de trabalho. Essa prática considera a experiência subjetiva do paciente com o uso de medicamentos, em que o estar doente é entendido como algo além das alterações em padrões bioquímicos e fisiológicos, gerando então uma abordagem holística do indivíduo, na qual o farmacêutico assume a responsabilidade pelo acompanhamento da farmacoterapia do paciente1. O farmacêutico, por meio de uma prática sistematizada, documentada e contínua, busca identificar, prevenir e resolver os problemas relacionados ao uso dos medicamentos, focando sempre em cinco aspectos: necessidade, eficácia, segurança, adesão e acesso ao medicamento. Nesse sentido, apenas a participação do farmacêutico na orientação da equipe multidisciplinar não é suficiente para maximizar a efetividade dos serviços farmacêuticos. Na dispensação, o profissional orienta o paciente sobre seus medicamentos, mas não necessariamente se responsabiliza pelos resultados da farmacoterapia. Adicionalmente, da forma como atualmente é praticada na maioria dos serviços, os atendimentos farmacêuticos durante a dispensação atem-se à compra ou obtenção do produto farmacêutico, sendo então o medicamento o centro do processo. Um novo rumo na profissão farmacêutica visa um reconhecimento da importância do paciente e um maior envolvimento com o mesmo, o que conduz a uma mudança de foco do medicamento para o paciente e suas necessidades. O cuidado farmacêutico deve ser um serviço organizado, documentado, avaliado e pago, como proposto pelo serviço de gerenciamento da terapia medicamentosa (GTM)3. Este serviço é a aplicação prática da atenção farmacêutica e deve ser integrado aos demais serviços de saúde na construção de uma equipe multiprofissional que se esmere em buscar o melhor para seus pacientes3.

A posição atual do farmacêutico no sistema de saúde e os fatores que culminaram no surgimento da Atenção Farmacêutica devem ser discutidos de forma permanente nos cursos de graduação em Farmácia. Atualmente, observa-se uma incongruência entre a formação profissional e a prática da Assistência Farmacêutica, e especialmente da Atenção Farmacêutica; por isso, seria importante mudar o foco curricular da formação tecnicista focada no medicamento para a inclusão de disciplinas de ciências clínicas aplicadas e humanas, desenvolvendo assim novos valores nos futuros profissionais.

Referências
1 Strand LM, Cipolle RJ, Morley PC. Pharmaceutical Care Practice: The patient-centered approach to medication management services. 2 ed. New York: McGraw-Hill; 2004.
 2 Mehta UC. Pharmacovigilance: The devastating consequences of not thinking about 
adverse drug reactions. Pharmacovigilance CME. 2011; 29 (6): 247- 251.
3 Oliveira DR. Atenção Farmacêutica: Da Filosofia ao Gerenciamento da Terapia Medicamentosa. 1ed. São Paulo: RCN; 2011.

 

Dia Internacional do Ensaio Clínico

por Daniela RG Junqueira

“Primum non nocere”

“First, do no harm”

“Primeiro, não causar dano”

O postulado “Primum non nocere”, de autoria de Hipócrates († 370 a.C), consiste de uma reflexão especialmente atual na contemplação da prática em saúde moderna.  Há mais de 2000 anos, Hipócrates observou que o julgamento sobre os benefícios de um tratamento deve se basear nos efeitos causados por esse tratamento em pacientes1, pressuposto que dita o modelo modernamente aceito para guiar decisões em saúde informadas ou baseadas em evidências. Os efeitos dos tratamentos em pacientes podem ser bons ou ruins, observação também contida nos escritos de Hipócrates, e que pode ser rapidamente ilustrada pelo conhecido “desastre da talidomida”, ocorrido na década de 1960. A verdade, de fato, é que, apesar das indústrias produtoras de medicamentos e mesmo dos profissionais de saúde, incluindo médicos e outros, insistirem no contrário, as intervenções em saúde são cada vez mais responsáveis por efeitos indesejáveis: danos aos pacientes e indução de mortes2,3,4.

Em 1962, com o objetivo de reforçar as provas acerca dos efeitos das intervenções em saúde, em especial as farmacológicas (medicamentos), e aumentar a segurança da população de usuários, foram estruturadas etapas padronizadas para o estudo de um novo medicamento antes de sua comercialização. Essas etapas se constituem, em resumo, de uma extensa fase pré-clínica (estudos in vitro e in vivo -em animais- antes dos testes em humanos) e quatro fases distintas de testes em seres humanos (fase clínica). Os testes em seres humanos foram, adicionalmente, normatizados de forma a oferecerem evidência substancial de eficácia, e devem assim ser realizados por meio de um tipo de estudo: o Ensaio Clínico Controlado e Randomizado.

Apesar de considerados padrão-ouro da pesquisa sobre intervenções em saúde, a realização e a publicação dos ensaios clínicos apresentam hoje uma série de problemas. Planejamentos de estudo tendenciosos, estratégias que favorecem observações dos resultados positivos da intervenção farmacológica em teste, não publicação de resultados ou publicação de dados parciais, não investigação e omissão de dados sobre efeitos adversos, republicação e duplicação de resultados; esses são alguns dos problemas que impedem decisões em saúde informadas e seguras.

A não publicação de resultados de ensaios clínicos, ou a publicação de dados parciais, é um problema que tem impedido a avaliação adequada e completa dos novos medicamentos que terminam por serem comercializados, e ditarem políticas de saúde, de forma incorreta e com elevado desperdício de recursos financeiros5. Por isso, em 2013, iniciou-se um movimento intitulado “AllTrials” (http://www.alltrials.net/) com o objetivo de alterar essa realidade. A exigência do AllTrials é de que todos os ensaios clínicos sejam registrados antes de seu início, e de que todos os dados coletados sejam tornados públicos; “isso evitaria más decisões clínicas e o desperdício da boa prática clínica”6.

all trials

Desde o início dessa campanha, uma nova lei que privilegia a transparência científica foi proposta e em breve será votada na Europa, e alguns laboratórios farmacêuticos iniciaram o registro de ensaios clínicos antigos7. Apesar desses desfechos promissores, resultantes da pressão realizada pela campanha, ainda temos um grande problema: muitos dos tratamentos atualmente disponíveis têm suas evidências rotineiramente e legalmente ocultadas8.

Assine a petição abaixo e ajude esse movimento essencial para a promoção de um ambiente seguro e confiável a todos os profissionais de saúde e usuários de medicamentos.

http://www.alltrials.net/home/portuguese-translation/

Glossário:

Ensaio Clínico Controlado e Randomizado (ou aleatorizado): é um tipo de estudo realizado para comparar diretamente dois ou mais tratamentos em humanos de forma a neutralizar nos resultados a influência das preferências dos profissionais ou dos pacientes por uma ou outra intervenção.

Para saber mais:

Teixeira WT. Medicamentos na gravidez: cautela é o melhor remédio. Blog do Cemed. Disponível: https://cemedmg.wordpress.com/2014/03/25/medicamentos-na-gravidez-cautela-e-o-melhor-remedio/

Santana RJM. Como os seres humanos participam da fase clínica das pesquisas de medicamentos?. Blog do Cemed. Disponível: https://cemedmg.wordpress.com/2014/02/21/como-os-seres-humanos-participam-da-fase-clinica-das-pesquisas-de-medicamentos/

Junqueira, DRG. Petição para o registro e publicação dos resultados de todos os ensaios clínicos. Blog do Cemed. Disponível: https://cemedmg.wordpress.com/2013/02/08/peticao-para-o-registro-e-publicacao-dos-resultados-de-todos-os-ensaios-clinicos/

Referências:

1 Greenberg RS, Daniels SR, Flanders W, Eley J, Boring JR (eds). Medical Epidemiology. 4ª ed. New York: McGraw-Hill, 2005.

2 Mehta UC. Pharmacovigilance: The devastating consequences of not thinking about adverse drug reactions. Pharmacovigilance CME. 2011; 29 (6): 247- 251.

3 Pirmohamed M, Park BK. Adverse drug reactions: back to the future. J Clin Pharmacol 2013, 55, 486–492.

4 Moynihan R, Doust J, Henry. Preventing overdiagnosis: how to stop harming the healthy. BMJ 2012;344:e3502. doi: 10.1136/bmj.e3502

5 Junqueira, DRG. Políticas e práticas de saúde que ignoram a ciência: o caso da gripe e do Tamiflu® no Brasil. Disponível: https://cemedmg.wordpress.com/tag/tamiflu/. Acesso em 19 Maio 2014.

6 All Trials. All Trials Registered | All Results Reported. Disponível: http://www.alltrials.net/.  Acesso em 19 Maio 2014.

7 AllTrials. Europe votes for clinical trial transparency. Disponível: http://www.alltrials.net/2014/europe-votes-for-clinical-trial-transparency/. Acesso em 19 Maio 2014.

8 AllTrials. Europe votes for clinical trial transparency. Disponível: http://www.alltrials.net/2014/europe-votes-for-clinical-trial-transparency/. Acesso em 19 de Maio de 2014, apub Goldacre B. Bad Pharma : How Drug Companies Mislead Doctors and Harm Patients. .1ª ed. Noa York: Faber & Faber, 2013.