Propaganda e uso racional de medicamentos: uma prática possível?

Alba Valéria S M Moraes

Uma das características da sociedade contemporânea é relacionar a sensação de bem-estar, saúde e felicidade ao apelo do consumo de bens e serviços1. O consumo de medicamentos segue esta lógica e para aumentá-lo a indústria farmacêutica, juntamente com as agências de publicidade, utilizam diferentes formas de propaganda para atingir os profissionais de saúde e o público em geral. Para alcançar esse objetivo, as empresas investem até duas vezes mais na promoção dos medicamentos do que em pesquisa e desenvolvimento2, reafirmando assim a importância desta atividade para o sucesso da indústria farmacêutica.

Um novo modelo de negócio veio confirmar a importância da propaganda neste segmento. Optando por “fabricar” propaganda ao invés de fabricar os seus próprios produtos, um laboratório farmacêutico mexicano, que comercializa seus produtos isentos de prescrição no Brasil, terceiriza quase toda a sua produção, mas se responsabiliza diretamente pela propaganda de seus produtos. “A companhia tem produtoras de vídeo próprias e negocia diretamente com os veículos, sem a intermediação de agências de publicidade. Os produtos vendidos no país vêm do México, assim como as campanhas. A exceção são comerciais com celebridades locais”3

Compreende-se que a permanente expansão do mercado farmacêutico traz consigo a necessidade de divulgação e promoção de novos e antigos produtos, seja no país de origem do laboratório ou em outros locais. Entretanto, a conciliação dessa necessidade com os propósitos do uso racional dos medicamentos representa um grande desafio para o marketing que insiste em desconsiderar as características especiais dos medicamentos e os enormes riscos que oferecem quando utilizados de maneira inadequada.

Pode-se afirmar que o equilíbrio entre as práticas promocionais e o uso racional de medicamentos está longe de ser alcançado. O marketing de medicamentos sempre se valeu da ideia simbólica da possibilidade de vender saúde e sempre existiu uma forte demanda para a superação das doenças. A percepção do medicamento como um simples produto de consumo capaz de gerar lucros e retorno financeiro foi predominante na história da indústria farmacêutica e influenciou de maneira significativa as suas práticas de promoção.

Fonte: Anvisa

Fonte: Anvisa

Dessa forma, tornou-se previsível o surgimento de incorreções e abusos nessas práticas, com o consequente risco à saúde da população. Daí a necessidade da intervenção de órgãos reguladores como a ANVISA que, dentre outras atribuições, tem como função a regulamentação e fiscalização das propagandas de medicamentos no Brasil. Ao publicar a RDC nº. 96, de 17 de dezembro de 2008 que dispõe sobre a propaganda, publicidade, informação e outras práticas cujo objetivo seja a divulgação ou promoção comercial de medicamentos4, a Anvisa deu um importante passo para melhorar a qualidade das propagandas veiculadas na mídia brasileira.

Entretanto, observa-se que as regras desta Resolução ainda não são totalmente aplicadas, principalmente para as propagandas de medicamentos isentos de prescrição veiculadas em rádio ou televisão. A propaganda recente de um medicamento desta classe é um pequeno exemplo que ilustra esta situação. Na televisão uma atriz informa que não interrompe a sua rotina por causa de uma gripe. Na cena final da propaganda aparece uma imagem de um comprimido com três camadas e as seguintes informações: tira a dor, desentope e revigora. Após a finalização do vídeo aparecem duas mensagens lidas rapidamente por um locutor: “Se persistirem os sintomas o médico deverá ser consultado” e “Este medicamento é contraindicado em caso de suspeita de dengue”5.

Observa-se, entretanto, que as substâncias responsáveis pelas ações de tirar a dor, desentupir e revigorar não são informadas pela atriz e duas delas (ácido acetilsalicílico→ tira a dor e cloridrato de fenilefrina → desentope) fazem parte do Anexo lll da RDC nº 96 que determina a divulgação dos seguintes alertas para estes princípios ativos respectivamente: “Não use este medicamento em caso de gravidez, gastrite ou úlcera de estômago e suspeita de dengue ou catapora”4 e “Não use este medicamento em caso de doenças do coração, pressão alta ou glaucoma”4. Além destas duas substâncias o medicamento contém o anti-histamínico maleato de dexclorfeniramina que, de acordo com a bula do produto registrada na ANVISA, pode causar sedação6. Para substâncias que causam este efeito a RDC nº 96 prevê a seguinte advertência: “Durante seu uso, não dirija veículos ou opere máquinas, pois sua agilidade e atenção podem estar prejudicadas”4. Porém, como o medicamento em questão é uma associação de princípios ativos e a RDC nº 96 não prevê no seu Anexo lll alerta para as associações a advertência padrão prevista neste caso é: “(nome comercial do medicamento ou, no caso de medicamentos genéricos, a substância ativa) É UM MEDICAMENTO. SEU USO PODE TRAZER RISCOS. PROCURE UM MÉDICO E O FARMACÊUTICO. LEIA A BULA”4. Desta forma, causa estranheza observar que a propaganda priorizou apenas uma parte de um alerta específico (“Este medicamento é contraindicado em caso de suspeita de dengue”5) não enfatizando os outros alertas ou a informação de que o  uso do medicamento pode trazer riscos.

Além disto, o art. 24 dessa Resolução informa que essas advertências devem ser contextualizadas na peça publicitária, de maneira que sejam pronunciadas pelo personagem principal, quando veiculada na televisão; proferida pelo mesmo locutor, quando veiculada em rádio. A locução das advertências deve ser cadenciada, pausada e perfeitamente audível4. Entretanto, observa-se que para a propaganda citada, tanto na TV quanto no rádio, as recomendações acima não foram observadas.

Outro fato que merece atenção é a participação de uma atriz conhecida como protagonista desta propaganda, contrariando o inciso III do artigo 26 da RDC nº 96  que veda a participação de “pessoa leiga em medicina ou farmácia, cujas  características sejam facilmente reconhecidas pelo público em razão de sua celebridade, afirmando  ou sugerindo que utiliza o medicamento ou recomendando o seu uso”4

Considerando que a promoção comercial de medicamentos será sempre utilizada como ferramenta para alavancar as vendas, é necessário o monitoramento regular da aplicação das regras que disciplinam este setor. É necessário também que se invista na educação dos consumidores para que os mesmos percebam as limitações desta prática como fonte confiável de informação sobre medicamentos. É verdade que muito já se avançou, mas há ainda um longo caminho a ser percorrido para garantir o uso racional dos medicamentos isentos de prescrição e de todos os outros comercializados no país.

Referências
1 Nascimento AC. Ao persistirem os sintomas o médico deverá ser consultado: isso é regulação? São Paulo: Sobravime; 2005.
2 Ministério da Saúde (Brasil). Agência Nacional de Vigilância Sanitária, Gerência de Monitoramento e Fiscalização de Propaganda, Publicidade, Promoção e Informação de Produtos Sujeitos à Vigilância Sanitária. Estudo comparadoregulamentação da propaganda de medicamentos. Brasília: Ministério da Saúde; 2005. [acesso em 2014 jun. 16].  Disponível em: http://www.anvisa.gov.br/propaganda/estudo_comparado.pdf
3 Barbosa M. Farmacêutica mexicana Genomma Lab é fábrica de propaganda. Folha de São Paulo. 2014 jun. 8 [acesso em 2014 jul. 2]. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2014/06/1466851-farmaceutica-mexicana-genomma-lab-e-fabrica-de-propaganda.shtml
4 Brasil. Agência Nacional de Vigilância Sanitária.  Resolução- RDC nº 96, de 17 de dezembro de 2008 Dispõe sobre a propaganda, publicidade, informação e outras práticas cujo objetivo seja a divulgação ou promoção comercial de medicamentos. 2008 dez 17. [acesso em 2014 jun. 17].  Disponível em:  http://www.anvisa.gov.br/propaganda/rdc/rdc_96_2008_consolidada.pdf
5 Cuida de você [vídeo] ComunicaFilmes; 2014 abr 3.son,color. [acesso em 2014 jun. 16].  Disponível em: www.youtube.com/watch?v=-TeFysc0QOc
6 Brasil. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Bulário eletrônico. [acesso em 2014 jul. 17]. Disponível em: http://www.anvisa.gov.br/datavisa/fila_bula/frmVisualizarBula.asp?pNuTransacao=5268502014&pIdAnexo=2106543
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O sol, os cremes e a história não contada de nossa prática científica e de saúde

por Edson Perini

“Casi todos los casos de “cáncer de piel” son en realidad benignos, no invaden y no matan. Las estadísticas de cancer de piel están siendo usadas para asustar, no para educar.” Sam Shuster, Profesor Emérito de dermatología de la Universidad de Newcastle”.

Após breve introdução sobre a história do conhecimento da relação entre o sol e nossa saúde, essa frase nos leva a um passeio por um edificante texto sobre a biomedicina moderna. O texto fala do câncer de pele. Mas o raciocínio desenvolvido serve para muitas outras áreas de nossa prática de saúde. Talvez todas…

Fonte: Google Imagens

  Fonte: Google Imagens 

O texto não é um artigo científico revisado por pares; é uma postagem de um blog. Precisamos ter cuidado? Claro. Assim como precisamos ter muito cuidado com tudo que está sendo publicado nas revistas científicas, com revisão por pares. Mas aqui a questão principal não é essa, como também não é o tema central do texto: o câncer de pele. A questão principal colocada no texto é como construímos a ciência na área da saúde e a atenção à  saúde nos nossos tempos. E como educamos as pessoas e influenciamos o comportamento  das massas com nossas posturas, nossa ciência e por vezes, porque não dizer, nossos  interesses e arrogância. Se o conteúdo científico do texto merece o cuidado normal que devemos ter com tudo que se publica, muito mais cuidado merece o que ele nos transmite.

“Si un médico deja un melanoma sin diagnosticar, va a tener problemas. Ningún médico quiere que le suceda esto, ni por supuesto, ningún paciente. Esto conduce a la medicina defensiva. Ante la más mínima duda cualquier alteración se diagnosticará y tratará por exceso.”

Também é interessante como o texto nos leva a entender o quanto podemos nos enganar (ou sermos enganados) com as promessas milagrosas das tecnologias que inventamos e, sem conhecer direito, propagandeamos com alarde. Lembro-me agora da Teriaga, produto galênico que no império romano prometia resolver uma infinidade de problemas. Sua constituição variava conforme a época e a riqueza do império. E provavelmente suas indicações. Guardadas as devidas diferenças de época, do conhecimento científico, da legislação de controle, e outros quesitos, às vezes me parece que na essência nossa busca e de nossos enganos não mudam tanto na história.

“El sol irradia fotones de radiación electromagnética de distintas longitudes de onda. La más pequeña corresponde a ultravioleta (UVA, UBV y UVC). Toda la UVC es absorbida por la capa de ozono, los UVA y gran parte de UVB alcanzan nuestra piel. No conocemos exactamente como se ve afectada la fisiología, y no está aclarado definitivamente el papel de cada uno”.(…)

  • Los UVA penetran de forma más profunda en la piel llegando hasta los melanocitos y afectando al sistema inmune. Contribuyen al melanoma.
  • Los UVB son los responsables del enrojecimiento de la piel con la exposición al sol y contribuyen en mayor grado al cancer de piel no melanoma y quizás al melanoma.

(…) uno de los problemas es que muchas cremas se formularon para bloquear los UVB y no los UVA. Esto quiere decir que la persona deja de sentir la quemazón producida por los UVB, y eso le ha permitido seguir expuesta a los UVA durante horas y horas…”

Pois seja para analisar o problema específico do câncer de pele, que resta à indústria e aos cientistas desmentir o que foi dito no texto, ou seja para nos conscientizarmos e compreendermos melhor nossa prática científica e profissional, ou mesmo nossa postura cidadã, fica um incisivo convite à leitura do texto publicado no blog Muscleblog (http://www.muscleblog.es/).

La historia no contada del cáncer I. El sol, las cremas y la epidemia de melanomas.

http://www.muscleblog.es/2014/06/la-historia-no-contada-del-cancer-i-el-sol-las-cremas-y-la-epidemia-de-melanomas/