Drogas, farmacêuticos e avestruzes

Editorial

por Edson Perini

Há poucos dias li sobre o crescimento vertiginoso das apreensões de uma nova droga em nosso Estado, conhecida como 251-NBOMe, ou 251 para os íntimos. Três coisas me chamaram a atenção: primeiro, não ter ouvido falar de uma droga tão presente e crescente em nosso ambiente; segundo, o alerta (jornalístico, é bem verdade) de sua semelhança com o LSD, ainda mais potente e com maior capacidade de desencadear surto psicótico; e terceiro, a recordação que me trouxe de uma entrevista no saudoso ‘O Pasquim’.

A entrevista foi realizada com um delegado famoso na época da ditadura militar. Dizia ele algo próximo ao que vou tentar traduzir, com base em minhas desgastadas lembranças – o viciado não tem jeito, a gente apreende a maconha, ele descobre a cocaína; a gente apreende a cocaína e ele descobre um cogumelo que dá no ‘cocô’ da vaca… Vaticínio cruel. Depois dessa profecia já vivi o bastante para ver nas manchetes policiais o ecstasy, o crack, solventes, diferentes tipos de cannabis, e sei lá mais quantas drogas. O atual 251 não passa de mais um capítulo dessa novela, na qual continuamos como meros telespectadores.

Parece não ter fim a busca por novas drogas para o uso recreativo. Um caso muito humano impossível de precisar na história o seu começo. Sequer me parece possível, hoje, compreender claramente como e porque começamos a criminalizar o uso. Já ouvi ou li as mais diversas, às vezes estapafúrdias versões: disputa de mercado entre plantadores de algodão do sul dos EUA com a fibra do cânhamo, racismo contra os negros e mexicanos dessa região, que utilizavam drogas em diversas ocasiões de suas vidas, ritos religiosos inaceitáveis aos pudores anglicanos, maluquices de um agente federal norte-americano, conclusões científicas ou pseudocientíficas de malefícios de alta periculosidade para o indivíduo e a sociedade. Enfim, razões políticas, econômicas, científicas e antropológicas não faltaram para criminalizar de forma cada vez mais dura o uso de drogas a partir do início do século passado, e hoje não faltam razões para a defesa da descriminalização.

Mas o que pensar sobre isso em nosso ambiente social brasileiro, e em nosso âmbito profissional farmacêutico. Tenho muita dificuldade para expressar o que acredito ser o melhor para todos, indivíduos e sociedade. Minha única certeza é sobre a necessidade de nos envolver no assunto e buscar compreender qual o caminho mais adequado – deixar como está, descriminalizar, reduzir danos, liberalizar, legalizar?

O assunto traz muita dificuldade dada sua complexidade científica, social, jurídica, econômica e cultural. No meio dessa barafunda tenho uma convicção formada: um século de criminalização e duro combate policial ao uso não resolveu o problema das drogas e aguçou outro, colateral, muito pior – a organização criminosa, a violência e o sofrimento. Isso acontece sempre que tais soluções são tentadas para resolver questões tão profundamente ligadas ao foro íntimo das decisões e consequências das mesmas. O adultério, o homossexualismo e o jogo podem ser exemplos menos dramáticos.

Ao ver dados estarrecedores nos jornais, como chacinas de estudantes no México, superlotação de presídios no Brasil, que se transformam em escolas para o crime, áreas em nossas metrópoles onde o estado não detém o comando de questões básicas da vida social, bandidos exibindo poder bélico na televisão, e uma sociedade amedrontada, pode parecer estranho ao leitor pensar nas drogas como uma questão de foro íntimo. Mas eu não posso deixar de pensar que esses problemas sociais estão mais para consequências da criminalização do que para o uso. Minhas dificuldades com o tema têm origem em questões complexas: estamos tornando criminosas pessoas que decidem fazer algo com seus corpos e mentes ao mesmo tempo em que toleramos o mesmo poder de decisão com o cigarro e o álcool? Estamos evitando o fato de que ao fazermos isso alimentamos esse poder de decisão do indivíduo com a organização do crime para sustentar as atitudes que serão tomadas de qualquer jeito, sejam elas proibidas ou não? Descriminalizar incentivará de fato o consumo em níveis inimagináveis e crescentes no longo tempo, incentivando o risco individual com o uso? Se a liberdade do indivíduo for incluída na equação, seria de fato minimizado o problema social? Ou, afinal, criminalizamos para proteger o indivíduo ou a sociedade?

Não tenho respostas, mas penso que a criminalização, pelo menos do modo que fazemos, tem como consequência um verdadeiro e grande problema social, muito maior e de mais difícil solução que os problemas e danos individuais do uso. Talvez soe difícil pensar que estamos diante de uma questão em que a dimensão das decisões pessoais deva ser colocada na equação de forma mais visível, mais tangível, mas como cidadão não posso fugir a essa hipótese.

Nessa hora, entra necessariamente o compromisso dos profissionais  farmacêuticos em ajudar o cidadão e a sociedade a elevar seu nível de compreensão em relação ao problema. Não acredito que avançaremos no debate sem conhecermos melhor o real problema das drogas desde seu ponto de vista científico, médico e farmacêutico. Todas as drogas são potencialmente maléficas, mas nem todas são iguais. Não podemos deixar impune um discurso cientificamente vazio sobre o caráter inofensivo de algumas, como a maconha, descaracterizando seus malefícios por razões de uma posição política liberalizante, pois sabemos bem que não existe droga inofensiva, legal ou ilegal. Mas também não podemos impunemente sair por ai demonizando todas igualmente e rotulando seus usuários como criminosos. Afinal, como farmacêuticos estamos acostumados com esse problema também dentro do universo das substâncias legais.

E assim, perguntas e mais perguntas vão surgindo: se fomentamos o crime organizado e estimulamos a violência em nossas sociedades, se estigmatizamos o usuário, se criamos redes de corrupção e intangíveis sofrimentos individuais e familiares, então porque não damos importância equivalente ao acolhimento do problema e de seu tratamento como questão de saúde? O que mais esperamos conseguir com a criminalização do uso de drogas tal qual a exercemos depois de um século de insucessos para coibir seu uso e sem o devido tratamento do usuário? Quais foram as reais conquistas positivas em termo de proteção da sociedade e do individuo com essa política?

Com tais questões em pauta parece-me inevitável a constatação de que nós, da área farmacêutica, temos grande responsabilidade na compreensão das dimensões científica e social do problema e no esclarecimento necessário para a tomada de decisão nas diferentes instâncias da sociedade, e na construção de uma nova era na nossa difícil lida com essa questão. Não necessitamos, e talvez não nos caiba, profissionais ou corporação, emitir opiniões ou posições que temos como cidadãos, mas não podemos nos portar como um avestruz, enfiando a cabeça no buraco e fazendo de conta que o problema não é nosso.

Com essa provocação, terminamos nossas atividades de 2014 no Blog do Cemed. Esperamos ter merecido os mais de 113 mil acessos, 57 mil só neste ano. Agradecemos o acesso vindo de 94 países, ainda que muitos, seguramente, na busca de um texto em língua mais acessível. Agradecemos àqueles que nesses três anos estiveram conosco de forma mais amiúde, e nos brindaram com seus comentários, compartilhamentos, divulgação ou estiveram presentes em nossos seminários. Estamos felizes de participar de suas vidas e cônscios de nossa responsabilidade de informar. Hoje temos a humildade de reconhecer que necessitamos ir além, melhorar, nos reinventar. E também a liberdade de lermos nas estatísticas a validade do trabalho desenvolvido, dos temas, tomando-as como sinal de que vale a pena continuar.

Desejamos um feliz natal para todos vocês, e um ano de 2015 de saúde e alegria e de muito sucesso, como diria nosso sempre querido Professor Antônio Basílio, a quem dedico esse editorial por sua importância para esta escola. Agora chegou a hora de nosso descanso anual, mas em fevereiro, quando completarmos nosso terceiro aniversário, estaremos de volta, mais relaxados e morenos por causa desse belo sol que nos espera. Enquanto isso, as informações continuam ao dispor.

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OMS alerta sobre a proximidade de uma era pós-antimicrobianos

Por Mariana Colen

A Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou um relatório com foco em um tema de grande importância: a resistência aos antimicrobianos*1. Apesar do assunto ser discutido há décadas, o Relatório Global de Vigilância em Resistência Antimicrobiana, publicado em 2014, evidencia a possibilidade de nos depararmos brevemente com uma era pós-antimicrobianos. Nesse contexto, infecções comuns e pequenas lesões poderiam levar indivíduos a óbito, pois não seria possível eliminar os microrganismos antes susceptíveis aos medicamentos, sobretudo as bactérias. Esse cenário era, até então, considerado somente uma possibilidade. No entanto, a “era pós-antibiótico”, como denominada pela OMS, pode estar mais perto do que pensávamos2.

A resistência aos antimicrobianos surge devido a mutações que ocorrem nos microrganismos e pela pressão seletiva induzida pelo uso excessivo desses medicamentos, entre outros mecanismos3. Nesse contexto, os microrganismos mutantes adquirem certa vantagem em relação aos demais. O uso de antimicrobianos em doses subterapêuticas também contribui para a pressão seletiva4. Como resultado, há redução da eficácia de fármacos antibacterianos, antiparasitários, antivirais e antifúngicos, o que pode tornar o tratamento muito complexo.

Fonte: Cemed UFMG

Fonte: Cemed UFMG

O impacto desse fenômeno em indivíduos com a saúde vulnerável é evidente, resultando no prolongamento da doença e aumento de mortalidade2. Infecções por microrganismos resistentes aos antimicrobianos representam maior custo em relação às infecções por organismos susceptíveis, já que fármacos mais efetivos contra determinados microrganismos e que foram desenvolvidos recentemente são em geral mais caros que os tradicionais. O aumento do custo também se relaciona com a necessidade de maior tempo de hospitalização por pacientes infectados por microrganismos resistentes3.

Estima-se que cerca de 25 mil pessoas vão a óbito a cada ano na Europa devido a infecções por bactérias resistentes a antibióticos. Um estudo realizado entre 1991 e 2012 no Reino Unido evidenciou falha terapêutica em pelo menos um em dez tratamentos iniciais com antimicrobianos em infecções comuns5. Já nos Estados Unidos, infecções por bactérias do tipo invasivas classificadas como “Staphylococcus aureus resistente à meticilina” (MRSA) levaram a 94 mil hospitalizações e foram associadas a 19 mil mortes em 20054.

A revisão regular dos protocolos de tratamento nas unidades de saúde, a implementação de rotinas básicas de higiene nos hospitais, o diagnóstico rápido de patógenos em infecções e sua susceptibilidade aos antibióticos são medidas essenciais e urgentes a serem tomadas para mudar esse contexto. Além disso, para reduzir a demanda por antibióticos, campanhas educacionais para conscientização tanto de profissionais de saúde como da população em geral devem ser realizadas. Todos os esforços devem ser direcionados para que seja vencido o desafio da iminente era pós-antimicrobianos4.

*Nota: Os antimicrobianos são substâncias naturais (antibióticos) ou sintéticas (quimioterápicos) que agem sobre microrganismos, inibindo seu crescimento ou causando sua destruição1.

 

REFERÊNCIAS
1 Mota, L.M. et al. Uso racional de antimicrobianos. Medicina (Ribeirão Preto). 2010; 43(2): 164-72. Acesso em 14 de Novembro de 2014. Disponível em http://revista.fmrp.usp.br/2010/vol43n2/Simp8_Uso%20racional%20de%20antimicrobianos.pdf.
2 Antimicrobial Resistance. Global Report on surveillance. World Health Organization. Acesso em 17 de Junho de 2014. Disponível em http://www.who.int/drugresistance/documents/surveillancereport/en/.
3 Corrêa, L.; Silva, E.U. Uso racional de antimicrobianos e a resistência microbiana. Acesso em 31 de Outubro de 2014. Disponível em http://www.anvisa.gov.br/servicosaude/controle/rede_rm/cursos/atm_racional/modulo1/objetivos.htm.
4 Laxminarayan, R.; Duse, A. et al. Antibiotic resistance – the need for global solutions. Lancet Infect Dis. 2013; 13:1057-98.
5 Currie, C.J. et al. Antibiotic treatment failure in four common infections in UK primary care 1991-2012: longitudinal analysis. BMJ. 2014; 349: 1-13.