Que farmacêutico devemos formar para o Brasil?

Editorial

Por Edson Perini

Nos dias 10 a 12 de junho acontecerá em Salvador o Congresso Brasileiro de Educação Farmacêutica (Cobef). Um importante e inadiável evento – um momento crucial. Aparentemente a pergunta que está calada em nossos corações é a mesma que estamos fazendo aqui em nossa escola: que farmacêutico queremos formar? Mas eu colocaria essa pergunta em uma nova formulação: qual farmacêutico a sociedade brasileira necessita para um futuro em que o uso de medicamentos se dê de forma mais segura, efetiva e eficiente?

Estranha pergunta para um profissional de história milenar! Mas a razão para isso é clara em minha cabeça: nós perdemos uma forte identidade com nosso produto, o medicamento, no processo de industrialização do setor por um fato simples – não dispúnhamos de um discurso elaborado sobre ele que extrapolasse suas dimensões tecnológicas e comerciais. Quando a indústria mudou essas dimensões nós nos perdemos. Não elaboramos ao longo de nossa longa história um discurso clínico do uso, de seus efeitos, de sua efetividade e riscos. Ficamos séculos presos ao produto, e hoje precisamos descobrir seu usuário. Nossos antepassados, como meu avô e meu tio, foram grandes personagens dessa história. Dia ou noite, sol, lua ou chuva, lá ia meu avô e depois meu tio no lombo do cavalo atender a um parto, ou a alguém em um piripaque qualquer. Ia e geralmente resolvia. E todos os amavam por isso.

Mas meu avô e meu tio não tinham o discurso clínico do medicamento – eles faziam tudo isso porque substituíam os médicos, inexistentes, caros, indisponíveis, seja lá por que. O discurso deles era o mesmo do médico – atenção ao paciente que sofre, à pessoa que adoece. Não havia até então um discurso clínico sobre o medicamento, uma atenção ao paciente em farmacoterapia, à pessoa que toma medicamentos, e que embora eficazes, não necessariamente se mostram efetivos ou eficientes. E não estou falando isso hoje – há muito já percebia que carecemos desse discurso. Nosso problema não é o ‘remédio’, mas o discurso sobre ele, como alertava em uma publicação de 19971.

Precisamos de um discurso que garanta uma formação profissional específica, um farmacêutico generalista capaz de desenvolver ações no contexto da evolução farmacoterapêutica estabelecida ao paciente, em seus benefícios e seus malefícios. Por que estes últimos, sabemos que ocorrem, e os primeiros, sabemos que não são automáticos. Um farmacêutico que diagnostique, prescreva e acompanhe soluções para os problemas que lhe são trazidos pelo uso do medicamento. A realidade de meu avô e de meu tio já não mais existe. E o farmacêutico de hoje, e do futuro, tem que ser outro, de outra realidade social, tecnológica, e filosófica por consequência.

Nós evoluímos na última Diretriz Curricular de 2002. Não tenho dúvidas sobre isso. E essa evolução provocou uma grande melhoria no currículo de nossa escola, a Faculdade de Farmácia da UFMG. Somos hoje uma escola muito melhor. Hoje pensamos sobre a ideia de um farmacêutico generalista – o problema é que não sabemos muito bem o que é isso. E somos uma escola melhor, mas mantemos um currículo no qual o aluno tem sete opções de percursos formativos. Ainda temos uma formação confusa: afinal, o que somos – farmacêuticos, analistas clínicos, tecnólogos do alimento? Difícil garantir ao aluno uma base curricular generalista com tanta opção. Falei nisso em um seminário que ocorreu na Faculdade há poucos dias. Interessante que um professor lembrou-se de um evento ocorrido há 30 anos, quando era aluno, cuja pergunta central era a mesma deste seminário: que farmacêutico queremos formar? Parece que não evoluímos para uma resposta satisfatória.

Disse na oportunidade que precisamos nos desapegar de nossas formações para pensar nisso. Fui e tenho sido entendido de forma pouco amistosa. Eu sou Farmacêutico Bioquímico em meu diploma, sei bem que em determinado momento da história recente de nossa profissão, no Brasil, as Análises Clínicas foram responsáveis por manter a profissão. Sem elas o Farmacêutico talvez nem existisse. Mas em minha época de estudante quatro anos eram suficientes para estudar tudo e sobrava tempo. Hoje cada área é um mundo a parte de conhecimentos e habilidades a serem desenvolvidas pelo aluno. E talvez tenha chegado a hora de cada uma seguir seu próprio caminho – e eu serei apenas uma lembrança histórica dessa profissão – um diploma amarelado na parede, um farmacêutico adjetivado de bioquímico, que salvou a profissão e depois buscou outros caminhos. Como serão lembranças também meus colegas que seguiram a tecnologia do alimento e criaram uma nova realidade no mundo. Muitos me odeiam por isso – sei bem – mas falo de coração (e cérebro). Aqui em nossa Faculdade poderíamos ter três cursos de graduação: um de Farmácia, formando profissionais para pesquisar e desenvolver novos fármacos, produzir e controlar a qualidade de fármacos e medicamentos, e gerir sua existência e utilização nos sistemas de saúde; um analista clínico, no caso já existente com o Biomédico; e um Tecnólogo do Alimento, a ser criado.ilustração

Importante frisar que ao falar em desapego não quero desmerecer ninguém, apenas chamar a atenção de todos que precisamos nos livrar de amarras históricas para avançar. Não podemos decidir o futuro presos a um passado de glórias. O novo sempre vem, como diria a canção!

Isso é o que penso, ou um pouco do que penso. Espero que o Cobef consiga me desmentir, colocando em pauta algo que me convença do contrário. Ou que reforce o que penso. Mas para um lado ou para o outro, espero sair dessa situação para um patamar melhor de entendimento de qual caminho seguir para formar nossos alunos. Afinal, serão eles que irão nos garantir, na velhice, uma sociedade na qual o medicamento será muito mais um benefício do que um risco. E certamente eu precisarei disso.

1Perini, E. A questão do farmacêutico: remédio ou discurso? In: José Ruben de Alcântara Bonfim; Vera Lúcia Mercucci. (Org.). A construção da política de medicamentos.São Paulo: Hucitec / Sobravime, 1997.p. 323-334.
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Precisamos falar sobre HIV/aids

por Weverton S Teixeira

A aids (síndrome da imunodeficiência adquirida) é uma doença sexualmente transmissível de grande impacto na saúde pública. No Brasil, entre 2009 e 2013, a ocorrência de novos casos foi de quase 40 mil por ano1. São mais de 100 diagnósticos por dia. Por isso, a aids é uma epidemia preocupante: desde a década de 1980 notificou-se mais de 757 mil casos da doença e até 2013 foram documentados mais de 278 mil óbitos1.

O HIV (vírus da imunodeficiência humana), causador da aids, é transmitido durante o ato sexual sem preservativo ou durante a gestação, o parto ou a amamentação, caso a mãe esteja infectada (transmissão vertical). Também pode ser transmitido pelo compartilhamento de objetos perfurocortantes (agulhas ou aparelho de barbear, por exemplo) com sangue contaminado pelo vírus2. A transmissão por transfusão sanguínea é menos provável na atualidade devido à realização de testes laboratoriais no sangue doado, mas não deve ser descartada2. Embora as populações mais vulneráveis ao contágio pelo HIV sejam homens homossexuais, usuários de drogas injetáveis e mulheres profissionais do sexo, qualquer pessoa independentemente do seu comportamento sexual pode contaminar-se com o vírus1,2.

fonte: Google imagens

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O HIV infecta e destrói células de defesa do sistema imunológico, principalmente os linfócitos T CD4+, deixando o organismo mais susceptível a infecções3,4. O surto de replicação (multiplicação do vírus), denominado síndrome retroviral aguda, acontece entre 2 e 4 semanas4 após a infecção. Nesse estágio o paciente pode sentir febre, cefaleia, dor ocular, sudorese, náuseas, vômitos, diarreia, perda de peso, entre outras manifestações que geralmente desaparecem espontaneamente3,4. A detecção da carga viral pelo teste de diagnóstico laboratorial é inexpressiva nesse período.

Desde a síndrome retroviral aguda os pacientes podem apresentar anemia, leucopenia leve e linfadenopatia (aumento dos linfonodos), mas é na fase de latência clínica, entre 8 e 10 anos após a infecção4 que essas manifestações intensificam-se. Infecções bacterianas (respiratórias e pulmonares) e respostas tardias a terapias com antibióticos são frequentes em pacientes que apresentam contagem de linfócitos T CD4+ acima de 350 por mm3 de sangue. Quando a contagem de linfócitos atinge valores entre 200 e 300 por mm3 de sangue, as infecções oportunistas tornam-se constantes e o paciente é então considerado portador da aids3,4. Nesse estágio podem ocorrer infecções oportunistas (tuberculose pulmonar atípica ou disseminada, por exemplo), tumores e condições de manejo complexo que podem levar o paciente a óbito. Além disso, os pacientes podem apresentar, em qualquer fase da evolução da infecção pelo HIV, manifestações não infecciosas, como miocardiopatia, nefropatia e neuropatias3,4.

O teste para o diagnóstico da infecção pelo HIV é produzido pela Fundação Oswaldo Cruz e disponibilizado gratuitamente nos Centros de Testagem e Aconselhamento. A confirmação do diagnóstico acontece em duas etapas: primeiro são realizados ensaios de triagem, desenvolvidos para detectar indivíduos infectados pelo vírus, e posteriormente são realizados ensaios confirmatórios com objetivo de descartar resultados falso-positivo2. No caso de um resultado positivo para HIV, o médico solicita exames clínicos e laboratoriais para avaliação do estado de saúde do paciente: hemograma, contagem de linfócitos T CD4+ e carga viral (quantificação do HIV), exames parasitológicos, dosagem de lipídeos, glicemia, testes para hepatites virais, entre outros. Todos os pacientes que vivem com HIV/aids devem ser estimulados a iniciar a terapia antirretroviral imediatamente, principalmente  grávidas, pacientes sintomáticos ou assintomáticos com contagem de T CD4+ inferior a 500 células por mm3 de sangue2,3.

A terapia antirretroviral tem o objetivo de reduzir a morbimortalidade de pacientes diagnosticados com HIV e aids. O tratamento impede a replicação do HIV e consiste na combinação de pelo menos três medicamentos antirretrovirais com mecanismos de ação diferentes, o que melhora a efetividade do tratamento3,4. A redução da carga viral no organismo do infectado induzida pela terapia, além de minimizar as manifestações da doença, pode diminuir a transmissão do vírus. Evidências recentes apontam que o tratamento precoce tem sido considerado benéfico, pois eleva os números de linfócitos T CD4+, restabelecendo o sistema imunológico de forma semelhante ao de pessoas não infectadas pelo HIV2,4,5.

Nos Centros de Testagem e Aconselhamento ou em Serviços de Atenção Especializada em HIV/aids,   vítimas de violência sexual, casais sorodiscordantes (quando um dos parceiros é portador do HIV e outro não) ou pessoas que tiveram relações sexuais casuais sem proteção podem solicitar a Profilaxia Pós Exposição (PEP sexual). A PEP é um tratamento antirretroviral de prevenção, com duração de 28 dias e deve ser iniciado até 72 horas após a exposição ao risco de contaminação por HIV7. Atenção: o tratamento com antirretrovirais causa reações adversas e pode ser danoso. Por isso, a PEP não deve ser usada como substituta do preservativo.

Políticas públicas de diagnóstico e tratamento precoces, aliadas a informações claras das formas de transmissão do HIV, são importantes para conscientizar a população, minimizar as consequências da aids e garantir uma melhor qualidade de vida para os pacientes.

Centros de Testagem e Aconselhamento: clique e conheça os locais

Assista o vídeo ‘’A Aids não tem cara e não tem cura – Use camisinha’’ 

Referências:

1 Brasil. Ministério da Saúde. Boletim Epidemiológico HIV aids. Brasília; 2014.
2 Brasil. Ministério da Saúde, Departamento de DST, aids, e hepatites virais. Acesso em 2015 Maio.16. Disponivel em: http://www.aids.gov.br/aids
3 Brasil. Ministério da Saúde.Protocolo clínico e diretrizes terapêuticas para manejo da infecção pelo HIV em adultos. Brasília; 2013.
4 Mihic SJ, Harris RA. Agentes antirretrovirais e tratamento da infecção pelo HIV. In: Flexner C. As bases farmacológicas da terapêutica de Goodman & Gilman. 12ª edição; 2012. p. 1623-63.
5 Anglemyer A, Rutherford GW, et al. Early initiation of antiretroviral therapy in HIV-infected adults and adolescents: a systematic review. Aids. 2014; 28(2): 105-108.
6 Cohen MS, Cen YQ, et al. Prevention of HIV-1 Infection with Early Antiretroviral Therapy. The New England Journal Of  Medicine. 2011; Aug 11; 365(6): 493-505
 7 Brasil. Ministério da Saúde, Departamento de DST, aids, e hepatites virais. O que é PEP-sexual?
Acesso em 2015 Maio.16. Disponivel em: http://www.aids.gov.br/pagina/2013/54942