O que reverteria o encurtamento dos telômeros?

Editorial

Daniela Junqueira

– Hein? Han?? question mark

Se esse foi seu pensamento ao ler o título desse texto, fique tranquilo caro leitor. Compartilho do seu estranhamento e surpresa, e não pretendo nesse texto explicar-lhe a resposta para tal pergunta. Ao contrário, meu objetivo é mostrar porque você não deve se preocupar com isso e por qual razão você deve desconfiar de promessas de tais complicados e semelhantes milagres.

Na evolução do conhecimento sobre as doenças, diversas visões e modos de tratamentos foram desenvolvidos. Na atualidade, temos distintos modelos de práticas e formas de tratamentos disponíveis, todos com o objetivo de aliviar a dor e recuperar a saúde. Os diferentes modelos de práticas trabalham com filosofias diferentes:

  •  A medicina convencional se destaca por ser baseada em um modelo intervencionista de saúde com forte utilização de medicamentos produzidos sinteticamente (intervenções farmacológicas). Medicamentos são os produtos farmacêuticos convencionais, e também os fitoterápicos e homeopáticos.
  •  A medicina considerada alternativa e complementar tende a buscar modos de cura holística e terapias baseadas em formas de remédios diferentes das intervenções farmacológicas, como os tratamentos baseados na acupuntura, nos óleos essenciais (aromaterapia), e na musicoterapia.

 Segundo essas filosofias, o modelo de tratamento convencional é drasticamente diferente do modelo de tratamento alternativo. No entanto, essas diferenças podem estar restritas mais à teoria do que à prática.

 O fato de um medicamento ou outro tipo de remédio ser composto por produtos de origem natural não deixa de caracterizá-lo como uma intervenção. Sim, tudo o que utilizamos para prevenir ou tratar doenças é uma intervenção em nosso organismo. E mesmo uma intervenção alternativa e não farmacológica, pode causar danos. Mas a principal questão não é o tipo de tratamento utilizado, é o modelo, a filosofia que guia o tratamento. O que caracteriza filosoficamente as práticas alternativas e complementares é a sua natureza holística e integrativa, a proposta de tratar o indivíduo no âmbito de suas disfunções físicas, mas também psíquicas e emocionais. Quando a medicina alternativa passa a sistematicamente recomendar intervenções generalistas, na forma de tratamentos preventivos e curativos para todos os males, o modelo deixa de ser holístico e integrativo, e não se diferencia mais da medicina convencional, tão criticada pelos adeptos das terapias “naturais”.

 Prevenir o envelhecimento, emagrecer, melhorar o desempenho cognitivo e a disposição, evitar doenças cardiovasculares e cânceres, são promessas consideradas típicas da indústria farmacêutica, produtora de medicamentos sintéticos. Mas se repararmos um pouco mais, essas são as mesmas promessas milagrosas de muitos adeptos dos medicamentos ou remédios popularmente considerados “naturais”. Disfarçada pelo mito do produto natural, a medicina alternativa e complementar passa a se igualar à medicina convencional, intervencionista e medicalizadora. Homeopatia, vitaminas, óleos essenciais, dietas e afins são hoje recomendados por terapeutas “naturais e holísticos” na lógica intervencionista, com promessas de prevenirem indiscriminadamente câncer, morte e cansaço, promover emagrecimento, reduzir gorduras, rejuvenescer, e, claro, reverter o encurtamento dos telômeros. A lógica deveria ser trabalhar integralmente as intervenções não farmacológicas disponíveis de acordo com a necessidade do individuo no seu contexto biopsicológico, e não generalizar recomendações para todos os males.

 E por que, afinal, o modelo intervencionista, seja ele convencional ou alternativo, não é a solução?

 Primeiro, porque toda intervenção em nosso organismo tem o potencial de causar danos, não somente benefícios. Sim, mesmo o chazinho das nossas avós pode queimar gravemente a mucosa bucal de uma criança ou de um adulto fragilizado se não houver atenção à temperatura da água. Portanto, apesar dos potenciais benefícios, fitoterápicos, acupuntura e óleos essenciais também podem causar danos, intoxicações e até mesmo óbitos1, 2, 3, 4. E em segundo lugar, porque as atuais pesquisas aplicadas à saúde humana têm demonstrado cada vez mais que as intervenções em saúde tem nos causado muito mais danos do que benefícios. Nunca na história da sociedade humana utilizamos tantos medicamentos – tradicionais e também alternativos5, 6, 7 –, e nunca fomos tão doentes. Nunca fizemos tantos check-ups, e mesmo assim continuamos sendo uma sociedade medicalizada e doente. Soma-se a isso o fato de que pesquisas robustas aplicadas à saúde humana têm demonstrado que, em geral, é a combinação de atividade física, alimentação equilibrada, eliminação do tabagismo e controle do consumo de álcool, o caminho para a boa saúde e a prevenção de doenças crônicas8, 9, 10, 11.

 Por isso, caro leitor, desconfie um pouco de terapias e terapeutas alternativos que oferecem tratamentos “naturais” e milagrosos. Essas condutas são, na verdade, igualmente ou mais intervencionistas do que às práticas da medicina convencional, com o agravante de que, em sua maioria, carecem de bases mínimas de racionalidade.

 E por fim, ah sim os telômeros! Não se preocupe com eles, poupe-se de mais um estresse, mais uma promessa “natural” e milagrosa, e tenha mais saúde.

 

Declaração de Conflito de Interesses

A autora declara não possuir conflitos de interesses que possam ter influenciado as conclusões desse trabalho.

Declaração de Filosofia de Prática

A autora declara que tem formação farmacêutica e é especialista em metodologia de pesquisa em saúde e no estudo dos potenciais benefícios e danos associados ao uso de medicamentos, mas prefere a abordagem não intervencionista quando se trata e cuidar da sua saúde e da saúde daqueles que ama. Declara ainda que acredita que existem muitas maneiras de ajudar os pacientes, convencionais e alternativas – farmacológicas ou não-, desde que os potenciais benefícios e danos sejam avaliados em pesquisas científicas e de qualidade.

Um pouco mais de informação:

– Telômeros:

Telômeros são pequenas estruturas proteicas localizadas na ponta de nossos cromossomos e que têm a função de proteger o DNA durante a divisão celular12. A cada divisão celular, os telômeros diminuem de tamanho mas o processo tende a ser revertido pela ação da enzima telomerase12, 13.

O tamanho dos telômeros varia consideravelmente entre os indivíduos, mas sua redução foi proposta como marcador do processo de envelhecimento12, 14. Por causa do seu presumido papel no envelhecimento biológico, o comprimento dos telômeros tem sido proposto como um fator geral de risco para doenças relacionadas ao envelhecimento como câncer, diabetes tipo 2 e doença cardiovascular15. No entanto, telômeros longos semelhantes aos de indivíduos saudáveis também tem sido considerados fator de risco para alguns cânceres, como melanoma e câncer da mama16.

As pesquisas na área são ainda conflitantes e tem buscado compreender quais seriam as apresentações clínicas do encurtamento dos telômeros, que podem ser muito variadas16. No entanto, apesar de haver empresas oferecendo serviços para mensuração do tamanho dos telômetros17 e eventuais fitoterápicos que preveniriam seu encurtamento, segundo o conhecimento científico atual, não parece haver experiência científica sólida que demonstre qual seria a utilidade clínica desses achados e como eles poderiam contribuir para o desenvolvimento de medicamentos12, 15, 16, 17.

A lição aprendida aqui é que os avanços científicos não resultam em imediatos avanços na compreensão da saúde e de sua manutenção ou tratamento. É necessário cautela e uma boa dose de julgamento científico para compreender a diferença entre pesquisa básica (aquela que busca entender como o mundo é e como o corpo humano funciona) e aquela que pode e deve ser aplicada à saúde humana. Ambas são importantes para o avanço científico, mas cada uma tem implicações clínicas diferentes18.

Glossário:

– Doenças crônicas:

Doenças e condições crônicas – como doenças cardíacas, acidente vascular cerebral (derrame), câncer, diabetes, obesidade e artrite crônica – estão entre as mais comuns, financeiramente custosas, e evitáveis causas de todos os problemas de saúde CDC 2014.

                                                                                                                                                                                              

REFERÊNCIAS:

  1. BalibinoEE, Dias MF. Farmacovigilância: um passo em direção ao uso racional de plantas medicinais e fitoterápicos. Rev. bras. Farmacogn. 2010, 20 (6): 992-1000.
  2. Adams D, Dagenais S, Clifford T, et al. “Complementary and Alternative Medicine use by Pediatric Specialty Outpatients.” Pediatrics, 2013. 131 (2): 225-232.
  3. Posadzki P, Alotaibi A, Ernst E. Adverse effects of aromatherapy: a systematic review of case reports and case series. Int J Risk Saf Med. 2012 Jan 1;24(3):147-61.
  4. Tisserand, Robert and Rodney Young. 2013. Essential Oil Safety: A Guide for Health Care Professionals. 2nd ed. Edinburgh : Churchill Livingstone: Elsevier Health Sciences.
  5. Barnes PM, Bloom B, Nahin RL. Complementary and alternative medicine use among adults and children: United States, 2007. Natl Health Stat Rep 2008; 12:1–23.
  6. Posadzki P, Watson LK, Alotaibi A, Ernst E. Prevalence of use of complementary and alternative medicine (CAM) by patients/consumers in the UK: systematic review of surveys. Clin Med 2013; 13: 126–31.
  7. Ipsos Reid. Natural Health Product Tracking Survey – 2010 [survey report]. Ottawa, ON: Health Canada, 2011. <http://epe.lac-bac.gc.ca/100/200/301/pwgsctpsgc/por-ef/health/2011/135-09/report.pdf&gt;, accessed December 2, 2014.
  8. CDC 2015. Division of Nutrition, Physical Activity, and Obesity. Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Última atualização: 06 Março 2015. Acesso: 13 Março 2015. Disponível: http://www.cdc.gov/nccdphp/dnpao/index.html
  9. CDC 2014: Chronic Disease Prevention and Health Promotion. Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Última atualização: 09 Maio 2014. Acesso: 13 Março 2015. Disponível: http://www.cdc.gov/chronicdisease/overview/index.htm
  10. WHO 2015. Physical activity. World Health Organization (WHO). Acesso 13 Março 2015. Disponível: http://www.who.int/topics/physical_activity/en/
  11. CDC 2011. Physical Activity and health. Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Última atualização: 16 Fevereiro 2011. Acesso: 13 Março 2015. Disponível: http://www.cdc.gov/physicalactivity/everyone/health/index.html?s_cid=cs_284
  12. Lackie, JM. The Dictionary of Cell and Molecular Biology. 2a ed. 2013:651-651.
  13. Evans SK. Telomeres. Current Biology. 2001;11:R418-R418.
  14. Haycock PC, Heydon EE, Kaptoge S, Butterworth AS, Thompson A, Willeit P. Leucocyte telomere length and risk of cardiovascular disease: systematic review and meta-analysis. BMJ. 2014;349:g4227-g4227.
  15. Sanders JL, Newman AB. Telomere length in epidemiology: a biomarker of aging, age-related disease, both, or neither? Epidemiol Rev 2013;35:112-31.
  16. Robles-Espinoza C, Velasco-Herrena M, Hayward N, Adams D. Telomere-Regulating Genes and the Telomere Interactome in Familial Cancers. Mol Cancer Res, 2015; 13(2).
  17. McCartney M. Would you like your telomeres tested? BMJ 2012;344:e681.
  18. Vohra S, Boon H. Advancing knowledge requires both clinical and basic research. Focus on Alternative and Complementary Therapies, 2015; 20(1): 32–33.


PARA SABER MAIS E VERIFICAR REFERÊNCIAS SOBRE OS ASSUNTOS COMENTADOS NO TEXTO:

  •  Pesquisa científica aplicada à saúde humana

 – Paracetamol e o risco de alterações hepáticas: uma dose a mais de informação

  •  Modelos de prática e o sofrimento humano

 – Série: A dor dos outros, a farmácia e a escola – Parte 1 / Parte 2 / Parte 3

  • Plantas medicinais, fitoterápicos e vitaminas

 – O que vem da natureza não faz mal?

 – Será que tudo o que dizem sobre a Vitamina C pode ser levado a sério?

 – Desafios da produção nacional de fitoterápicos

 – Falta de exposição solar: a principal vilã na deficiência da Vitamina D

  • Intervenções excessivas e danos

Desprescrição em idosos: uma prática a ser valorizada

Cesárea planejada ou parto normal – benefícios e danos

Controle da dor para mulheres em trabalho de parto

Uso irracional de antibióticos: bom apenas para as bactérias

Insônia – Farmacoterapia

  • Excesso de diagnósticos

Série: Mamografia, benefício ou risco? – Parte 1 / Parte 2 / Parte 3 / Parte 4


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