Fosfoetanolamina: realidade, promessa ou mais um pesadelo?

Joyce Costa Melgaço de Faria

O Cemed recebeu uma consulta sobre a fosfoetanolamina e por entendermos que se trata de uma dúvida gerada pela forte exposição dessa substância na mídia, julgamos conveniente oferecer alguns esclarecimentos à população.

 Fosfoetanolamina em foco

A fosfoetanolamina sintética está em evidência na mídia por ser uma suposta alternativa inovadora para o tratamento do câncer. Ela chegou a ter sua produção e fornecimento proibidos, porém voltou a ser produzida para atender a uma liminar concedida pelo STF (Supremo Tribunal Federal)1. Mas por que essa decisão é controversa? Quais as razões éticas e legais para impedir as pessoas que sofrem com o câncer de utilizarem uma substância que aparentemente traz resultados benéficos? A resposta para essas perguntas envolve o entendimento de um longo processo de pesquisa, segmentado em várias etapas, que se inicia com a descoberta de uma nova substância e vai até o registro de um medicamento inovador pelas agências de regulação sanitária. Embora a primeira vista possa parecer uma burocracia cruel, na verdade o rigor para a liberação de uma substância no mercado é uma necessidade de controle para proteger a população de um mal maior.

 Fases para o desenvolvimento de um medicamento: o caso da fosfoetanolamina

Figura 1

Fases do desenvolvimento de um novo medicamento (clique para ampliar). Fonte: adaptado de Lombardino e Lowe (2004) (2)

A fase mais avançada nas pesquisas de desenvolvimento de um novo medicamento é denominada fase clínica, quando são feitos testes em seres humanos para comprovar se o medicamento é eficaz e se seus efeitos adversos são toleráveis (ensaios clínicos controlados). Esses ensaios são complexos, e condicionados à existência de uma série de pesquisas prévias sobre o fármaco. Eles demandam tempo, recursos humanos e financeiros, planejamento e um grande número de participantes voluntários. Para saber mais sobre a fase clínica recomendamos a leitura do texto “Como os seres humanos participam da fase clínica das pesquisas sobre medicamentos”, publicado pelo Cemed.

A fosfoetanolamina é apenas mais uma substância candidata a medicamento. As pesquisas com essa substância ainda estão nas fases preliminares do longo processo de desenvolvimento de novos medicamentos. Embora elas ocorram há mais de uma década, somente testes in vitro (cultura de células) e em animais foram realizados até o momento3,4,5,6,7, e esses são insuficientes para comprovar sua eficácia e segurança em seres humanos. Muitas substâncias apresentam resultados satisfatórios nos experimentos in vitro ou em animais, mas não obtêm sucesso quando utilizadas por humanos, podendo causar danos à saúde (não nos esqueçamos da talidomida e do sofrimento que causou)8. Estima-se que apenas nove a cada vinte mil substâncias testadas na fase pré-clínica se tornam medicamento, e apenas uma entre essas nove tem real utilidade no mercado farmacêutico9.

Há relatos de pessoas que utilizaram a fosfoetanolamina e se “curaram” do câncer. No entanto, esses relatos isolados têm pouco ou nenhum valor científico, uma vez que não são bem conhecidas as características dos pacientes e da doença tratada, as condições em que a substância foi usada, qual a dose e frequência de administração e nem se outros medicamentos estavam sendo utilizados concomitantemente. Não podemos nos esquecer de que essas curas não necessariamente se deram por causa da substância. Para se ter certeza sobre isso é preciso que pesquisas científicas sejam realizadas.

A saúde baseada em evidências é requisito para tomada de decisão

A recomendação de uso de substâncias que não têm comprovação de eficácia e segurança por profissionais fere princípios éticos e expõe a população a riscos que ela, diferente desses profissionais, não consegue dimensionar. E, ainda, diverge dos princípios da prática de saúde baseada em evidências. A medicina baseada em evidências (MBE) é o uso consciente, explícito e criterioso das melhores evidências científicas disponíveis para tomar decisões em relação ao manejo de pacientes. A prática da MBE consiste na integração da expertise clínica do profissional com as evidências de maior qualidade provenientes da pesquisa sistemática10.

A Pirâmide da Evidência é uma proposta utilizada na MBE para classificar os estudos científicos de acordo com o nível de evidência, isto é, o poder que cada metodologia de pesquisa tem de responder questões da prática clínica. No topo desta pirâmide estão as revisões sistemáticas, estudos em que os dados de um conjunto de ensaios clínicos são agregados de forma sistemática para garantir maior qualidade à evidência gerada. Embora um ensaio clínico bem elaborado seja suficiente para a aprovação de um novo medicamento, a revisão sistemática é considerada a melhor evidência para tomada de decisões em saúde, pois reúne informações de vários deles11.

Pirâmide da evidência 2pptx

Pirâmide da evidência. Fonte: adaptado de Chiappelli et al (2010) (11)

Observa-se que os ensaios clínicos estão próximos ao topo da pirâmide, ao passo que os estudos in vitro, os estudos com animais e os relatos de caso encontram-se na base. Portanto, as pesquisas que até então foram realizadas com a fosfoetanolamina estão muito aquém do necessário para sustentar sua utilização como medicamento. A ilustração da pirâmide demonstra a lacuna existente entre os resultados de pesquisa que podem ser imediatamente aplicados na prática clínica e os que não podem. Os estudos de coorte e os de caso-controle não tem aplicabilidade direta na aprovação de um novo medicamento, mas podem ser úteis na identificação de reações adversas de medicamentos já comercializados e serem determinantes na retirada de um medicamento do mercado.

Fosfoetanolamina: longa trajetória até tornar-se um medicamento para tratar o câncer

Muitas pessoas aguardam ansiosas por novos tratamentos para o câncer e várias outras doenças. Entretanto, não é coerente a utilização de substâncias cujos efeitos em humanos ainda não são bem conhecidos, uma vez que o risco do uso pode superar os benefícios. Além disso, a própria USP (Universidade de São Paulo) admite que seus padrões de produção da fosfoetanolamina são artesanais e não atendem aos requisitos exigidos para a produção de um medicamento. As agências reguladoras sanitárias devem zelar pela segurança da população, garantindo que estejam disponíveis no mercado apenas medicamentos cuja eficácia, segurança e qualidade já foram comprovadas. As exigências da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) não são mera burocracia associada a interesses econômicos. São medidas importantes para evitar que a saúde das pessoas seja prejudicada com o uso de substâncias de procedência, qualidade e utilidade duvidosas. O Poder Judiciário deve levar isso em consideração ao julgar o direito legítimo das pessoas à vida e ao tratamento de seus males.

Referências:
1 Supremo Tribunal Federal. Liminar garante a uma paciente fornecimento de substância pela USP-São Carlos [Internet]. Brasília; 2015 out 8. [acesso em 2015 out 21]. Disponível em: http://www.stf.jus.br/portal/cms/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=301441
2 Lombardino JG, Lowe JA. The role of the medicinal chemist in drug discovery — Then and now. Nat Rev Drug Discov. 2004 out; 3(10):853-62.
3 Ferreira AK, Santana-Lemos BAA , Rego EM, Filho OMR , Chierice GO, Maria DA. Synthetic phosphoethanolamine has in vitro and in vivo anti-leukemia effects. Br J Cancer. 2013 nov 7. 109(11):2819-28.
4 Ferreira AK, Meneguelo R, Pereira A, Filho, OMR, Chierice GO, Maria, DA. Synthetic phosphoethanolamine induces cell cycle arrest and apoptosis in human breast cancer MCF-7 cells through the mitochondrial pathway. Biomed Pharmacother. 2013 jul. 67(6):481-7.
5 Ferreira AK, Freitas VM, Levy D, Ruiz JL, Bydlowski SP, Rici RE, Filho OM, Chierice GO, Maria DA. Anti-angiogenic and anti-metastatic activity of synthetic phosphoethanolamine. PLoS One. 2013 mar; 8(3):e57937.
6 Ferreira AK, Meneguelo R, Pereira A, Filho, OMR, Chierice GO, Maria, DA. Anticancer Effects of Synthetic Phosphoethanolamine on Ehrlich Ascites Tumor: An Experimental Study. Anticancer Res. 2012; 32(1): 95-104.
7 Ferreira AK, Meneguelo R, Marques FL, Radin A, Filho OM, Neto SC, Chierice GO, Maria DA. Synthetic Phosphoethanolamine a precursor of membrane phospholipids reduce tumor growth in mice bearing melanoma B16-F10 and in vitro induce apoptosis and arrest in G2/M phase. Biomed Pharmacother. 2012; 66(7):541-8.
8 Fuchs FD, Wannmacher L. Farmacologia Clínica. Fundamentos da Terapêutica Racional. 4 ed. Rio de Janeiro: Editora Guanabara Koogan; 2010. Capítulo 1.
9 Calixto JB, Siqueira Jr JM. Desenvolvimento de Medicamentos no Brasil: Desafios. Gaz. Méd. Bahia. 2008; 78(Suplemento 1):98-106.
10 Sackett DL, Rosenberg WM, Gray JA, Haynes RB, Richardson WS. Evidence based medicine: what it is and what it isn’t. BMJ. 1996 jan 13; 312(7023):71-2.
11 Chiappelli F; Brant XMC; Negoita N; Oluwadara OO; Ramchandani MH, editores. Evidence-Based Practice: Toward Optimizing Clinical Outcomes. Berlin: Springer; 2010
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30 pensamentos sobre “Fosfoetanolamina: realidade, promessa ou mais um pesadelo?

  1. Parabéns, ótimo texto, muito esclarecedor!
    Acho que todos os farmacêuticos foram questionados sobre a fosfoetanolamina no decorrer deste mês!

    • Oi, Rafa!
      Agradecemos pelo seu comentário e pela contribuição! O texto de sua autoria, citado nessa publicação, é uma leitura complementar importante para entendimento do assunto.
      Ao oferecer essas informações esperamos estar cumprindo o nosso dever como farmacêuticos!

      Continue conosco!

      Abraços.

      Equipe Cemed

    • Olá, Aline!
      Ficamos felizes com o seu comentário, obrigado!
      Continue acompanhando nossas publicações.
      Atenciosamente,
      Equipe Cemed

  2. O grupo de pesquisa da USP através dos resultados experimentais da fase pré-clínica, considera em mais de um momento que a substância apresentou elevada eficácia no combate à determinadas células tumorais. Porém, até o momento não há oficialmente uma nota ou informação do grupo expondo quais os motivos das pesquisas permanecerem paralisadas na fase pré-clínica. Parece haver um silêncio. Deixa-se assim, um espaço aberto para veiculação de suposições nos diversos meios. Neste contexto, uma das versões mais fortes e comuns nas redes é a ideia de que não há interesse por parte do Estado e da iniciativa privada em dar sequência às pesquisas porque a substância não teria potencial lucrativo, apresentado assim os pesquisadores como que impossibilitados de dar sequências às pesquisas e cumprir com o “juramento” devido ao fato da burocracia regulamentadora está muito mais alinhada ao interesse econômico de que á promoção à saúde.

  3. Gostei muito do texto, só que ainda não intendi por que a Anvisa e os demais órgão não liberaram os teste clínico???? Por que não deixaram o estudo de 2 décadas passar para este patama???? Qual são os critérios da Anvisa para não autoriza, os teste clínicos???

  4. Muito obrigada, pela materia, muito esclarecedora! Faço quimioterapia, e qdo soube desta medicação fiquei curiosa, mas tb não acreditei muito. Vcs ajudaram muito!

  5. Muito bom o texto! Estas informações realmente precisam ser mais divulgadas e esclarecidas à população. Apesar de compartilhar da mesma opinião de vocês, alguns argumentos contrários que ouvi/li são interessantes também:
    -“sabemos que a indústria farmacêutica possui uma reputação de corrupção, será que já não existe a cura do câncer, diabetes, aids, mas que não são vantajosas para o lucro de empresas que ganham com os tratamentos destas doenças?”.
    -“No meu trabalho eu vejo a podre e corrutível situação da Anvisa. Tem 2 tintas Norte Americanas que foram testadas na Suíça, Alemanha,Austria e EUA para então se tornarem as tintas mais vendida de tatuagem do mundo. No Brasil não entrou porque não se enquadra nas normas Brasileiras. Aqui tem uma marca bacana (Electric Ink) que é proibida em 11 países e só aqui ela é comercializada.Tendo em mente que o produtor e dono das tintas (empresa) é o único do Brasil. É estranho como os produtos dele, aceitos pela anvisa não são aceitos em 11 países e por aqui 2 das tintas mais seguras do mundo não podem…”

    Será que não existe um lado negro da força?

  6. Toinho Dutra.Quem tá no estágio final,tudo vale.Porque não seleciona várias pessoas nesse estágio e faz um tipo teste da droga?Eu tenho metástase de melanoma de pele não estou num estagio avançado ainda,penso eu,já tomei 12 quimioterapias não diminuiu nada,claro que foi benéfico para alguma coisa,mas não é um medicamento garantido por todas pesquisas? Deveria regredir e não progredir.Desculpe,mas a gente fica com a cabeça toda confusa.

  7. Toinho Dutra.Quem tá no estágio final,tudo vale.Porque não seleciona várias pessoas nesse estágio e faz um tipo teste da droga?Eu tenho metástase de melanoma de pele não estou num estagio avançado ainda,penso eu,já tomei 12 quimioterapias não diminuiu nada,claro que foi benéfico para alguma coisa,mas não é um medicamento garantido por todas pesquisas? Deveria regredir e não progredir.Desculpe,mas a gente fica com a cabeça toda confusa.Fico na torcida e disposto a qualquer teste.Meu endereço,R Hipólito Cassiano 273,àu dos Ferros,R.N.

  8. Eu acho muito fácil falar de um assunto, sem estar vivendo o momento. Eu não iria pensar duas vezes antes de experimentar o medicamento! Aprovado ou não, é melhor uma esperança do que a certeza que da morte lenta e dolorida dos tratamentos atuais.

  9. parabéns excelente texto, abordou o assunto respaldado na literatura no que se refere aos valores éticos, técnico e legal !

  10. Amiguinhos, não interessa e pouco me importa a tal “legislação” e as regulamentações. O cidadão é AUTÔNOMO pra buscar alternativas de tratamento, pois a sobrevivência dele está em primeiro lugar. O que está em jogo, na verdade, nesse discursso bom-mocista são apenas interesses comerciais. Todos lembramos como se deram os testes para coquetéis anti-HIV, como se dão os testes para vacinas pediátricas (que agora contém restos de fetos mortos), etc.

    Sabemos que medicamentos que realmente curem e cuja patente não vá para os laboratórios jamais serão aprovados. A burolatria da Farmácia estatal não é mais importante que a autonomia do cidadão de buscar a sobrevivência.

    Realmente, quero que essa burocracia que defende interesses comerciais à base das cobaias humanas vá se f….

  11. Muito importante o enfoque que o texto dá a segurança da população quando relacionada aos medicamentos.
    Excelente leitura!

  12. Difícil acreditar nesse ou naquele hoje em dia. Ainda mais com essa indústria farmacêutica gananciosa. Como já perdi alguém para o câncer sei como uma esperança faz diferença! As mentiras tem controlada o mundo. Veja o caso da Volkisvagen… Mentira sobre mentira…..

  13. Eu penso que se há uma melhora na vida de quem está com câncer. É importante que se toma esse remedio.
    perdi minha mãe e meu pai com câncer.
    E os tratamentos que existem , mata mais que cura. Eu vi isso nos meus pais.
    portanto sou a favor desse medicamento.
    Esse papo que a anvisa e vigilancia sanitaria nao libera é só uma questao de grana.
    os laboratórios e governo são maleficos para o povo. Só querem tirar proveito.
    E esse remédio é gratuito por isso são contra.

  14. Não entendo por que falam que o Chierice inventou a fosfoetanolamina sintética se a primeira síntese aconteceu em 1938 e os testes anti tumor foram feitos na década de 60, agora pq será que os EUA não levaram para testes clínicos? Essa deveria ser a pergunta.

  15. Que as pesquisas tem regras e normas, maioria da populacao ja sabe. O que de fato os maiores interessados desejam saber é pq o grupo nao consegue dar sequencia aos testes? #Triste.

    • Prezado Renan,

      Agradecemos por sua participação. Não podemos dizer com segurança o porquê da não continuidade dos testes. As informações que temos acesso são os artigos científicos do grupo de pesquisa do professor Chierice (referenciados no texto) e as informações divulgadas pela mídia, Anvisa, Fiocruz e pela própria USP.

      Com base nas palavras do farmacêutico Adilson Kleber Ferreira, primeiro autor dos artigos publicados sobre a fosfoetanolamina, podemos dizer que talvez os testes clínicos ainda não tenham sido realizados porque o grupo de pesquisa da USP não conseguiu formar as parcerias necessárias para sua organização e porque os dados pré-clínicos ainda não estão suficientemente maduros para ir adiante (http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2015/10/1696939-dados-de-remedio-anticancer-criado-na-usp-ainda-nao-estao-maduros.shtml).

      Sabemos também que as pesquisas só acontecem quando os pesquisadores têm interesse em fazê-las e protocolos são elaborados adequadamente. Porém, a Anvisa afirma não ter recebido nenhum protocolo de pesquisa clínica com a fosfoetanolamina, o que contradiz o discurso do Professor Chierice, que afirma não ter obtido resposta da agência reguladora. Resta saber se ele enviou algum projeto para alguma agência, por exemplo, Fapesp, CNPq… E é difícil entender porque uma promessa dessas, tão eficaz, não receberia um apoio, por exemplo, do INCA para realização de testes clínicos. Não haveria, supomos, objeções do INCA para uma solução barata e tão eficiente; e certamente ao governo interessaria produzir na rede oficial de laboratórios. Pode ser que a indústria tente bloquear, isso é crível. Mas sinceramente achamos meio paranoia pensar que ela teria esse poder junto ao governo. Meio Ubaldo, o paranoico! Lembra-se? Sabemos muito bem das artimanhas do mercado, mas os tempos são outros e ao governo pode interessar muito essa substância, pois é quem paga a conta. E é alta, muito alta.

      Renan, é real a dificuldade dos grupos em obter apoio para pesquisa nesse país. Mas não vamos nos iludir e principalmente ficar iludindo as pessoas com soluções miraculosas, promessas que não sabemos se podemos cumprir. Até hoje não conhecemos nenhuma solução desse tipo vinda da química. Tudo bem, podemos invocar a penicilina e toda a história dos antibióticos que ela inaugurou – mas as infecções ainda estão aí. Não há milagre na ciência. Pode haver esperança, mas ainda assim deve ser olhada com cautela.

      Por fim, o Ministério da Saúde criou um grupo de trabalho para apoiar os estudos com a fosfoetanolamina e finalmente dar sequência as pesquisas. Essa iniciativa demonstra a força da pressão popular e põe em xeque os argumentos de que a burocracia regulamentadora está muito mais alinhada ao interesse econômico do que à promoção da saúde. Vamos aguardar os próximos capítulos… torcemos para um final feliz e nos alinhamos à pressão, mas precisamos ser convencidos pelas evidências, e não por promessas vazias divulgadas pela mídia. Sabemos muito bem como funciona o processo de interesses também na mídia, e mantemos sempre um pé atrás, em terreno mais sólido.

      • Eu particularmente agradeço ao grupo Cemed por ter desde o inicio recebido minha consulta com toda atenção. Considero após este ultimo comentario do grupo, que minhas perguntas iniciais obtiveram respostas. Fico feliz. Foi ótimo contar com a participação de outros colegas e de pessoas interessadas no tema durante a discussão. Que todos nós possamos seguir acompanhando o desenrolar dos fatos sem medir esforços para que nesse e em outros casos a ciência trabalhe sempre para gerar igualdade, oportunidade, acesso, liberdade e vida.

      • Renan, nós é que agradecemos por você ter sugerido um tema tão interessante para publicarmos no blog. Ficamos felizes em ter conseguido esclarecer suas dúvidas e, ao mesmo tempo, estimular o debate. Seguimos acreditando que os produtos da ciência trarão benefícios adicionais para a população apesar de todas as mazelas do mercado, e no que for possível, faremos nossa parte para que isso aconteça.
        Continue acompanhando nossas publicações!
        Atenciosamente,
        Equipe Cemed

  16. O movimento de acessos e comentários ao texto sobre a Fosfoetanolamina não deixa dúvidas da polêmica que se criou em torno do assunto, e da delicadeza dele. Agradecemos a todos pela participação. Favoráveis ou não, o debate sempre nos anima a seguir adiante e talvez a palavra mais forte que podemos retirar desse debate é ‘respeito’. E por respeito a todos que nos acessaram e doaram um pouco do seu tempo ao debate, e por respeito aos que sofrem e se apegam às esperanças que lhes chegam, sejam elas mínimas, tentaremos responder, ou comentar todas as posições em uma resposta apenas, já que são muitas e distintas. Esperamos não deixar nenhuma de fora. Incentivamos o debate, gostamos do debate, e pedimos o devido respeito à delicadeza do assunto, à situação dos que buscam esperança e mesmo o respeito ao ambiente de discussão criado por este blog evitando o uso de termos de calão. A nós não assusta a terminologia inadequada. Este é um local de formação de profissionais da informação sobre medicamentos, e devemos estar preparados para não perder a razão científica que nos guia por provocações desviantes. Sabemos bem que o uso de termos ofensivos só ocorre quando essa razão se perde. Mas esse é um espaço aberto, e muitas pessoas podem sentir-se desrespeitadas. Precisamos aprender a construir um país onde o respeito às pessoas esteja acima de tudo, não apenas nas grandes decisões políticas, mas sobretudo nas nossas atitudes do dia a dia. Acreditamos que se não formos capazes de ser respeitosos nessas pequenas ações nunca teremos um país melhor, e tampouco moral suficiente para cobrar dos políticos aquilo que não somos capazes de fazer.
    Podemos afirmar, com a garantia da experiência de quase quatro anos desse blog, que falar daquilo que não estamos vivendo na pele não é fácil, como sugerido. Realmente, nenhum de nós, em nossa equipe, sofre o problema na carne. Mas isso não significa que este, ou outros problemas de saúde não nos rondam em pessoas próximas, e que não nos fazem sofrer. Como nos faz sofrer o fato de vivermos em nosso dia a dia profissional as mazelas de um mercado de força desproporcional à fragilidade dos que sofrem. A consciência ética é como a do bem e do mal – faz parte do livre arbítrio, e está na ação de cada um a cada instante. E os estatutos legais que os regem estão ai para serem burlados por quem tem em sua consciência a ética e o bem e o mal que melhor lhe cabe, no bolso ou no ego. Por isso afirmamos a vocês que é tão difícil escrever sobre o que nos aflige diretamente como sobre o que nos aflige proximamente ou mesmo aquilo que nos é distante, porque sabemos que aflige alguém e é por todos que escrevemos. Somos profissionais e pessoas em formação profissional, não somos cubos de gelo.
    Mas é preciso entender que somos uma perna do estado, uma universidade gerida pelo dinheiro do cidadão e, portanto, não podemos nos guiar pela corrupção às regras, pois nesse caso seremos iguais aos corruptos. Se existe quem não quer seguir regras criadas para proteger pessoas, esse não deve servir de exemplo para nós. Como dissemos no texto: não se esqueçam da talidomida. E poderíamos aqui desfiar uma relação de ‘talidomidas’ (etilenoglicol, rofecoxib), muitas produzidas já na era dos ensaios clínicos, umas mais graves, outras menos, mas para quem sofreu com elas, e para quem perdeu um ente querido por causa delas não há comparação de gravidade ou percentuais que justificam a classificação. E por falar nisso, não nos esqueçamos de que a nossa AUTONOMIA esbarra no risco que provocamos aos outros. Arriscar meu corpo e minha alma é uma coisa; colocar com isso outras pessoas em risco é outra. Não é questão de ser bom-mocinho. É questão de ser honesto. E isso é respeitar os outros. A começar por aqueles que aqui estão se formando para serem profissionais do medicamento.
    Somos conscientes dos interesses comerciais e devemos alertar que se a fosfoetanolamina demonstrar potencial de eficácia e segurança, certamente existirá interesse de indústrias farmacêuticas em produzi-la. Alertamos para que não se esqueçam de que há também os interesses do ego daqueles que podem ‘lucrar’ com a publicidade do nome. Cientistas costumam ser sensíveis a isso, e precisamos estar alertas para esse risco também. Não sabemos se por traz da fosfoetanolamina há este interesse, mas somos profissionais e devemos estar cientes desse risco. Não nos levamos pela paranoia dos interesses comerciais assim como dos pessoais – e nem pela crítica que ignora nossas posições. Procuramos esclarecer o que acreditamos ter sido o melhor no desenvolvimento da legislação em cerca de 70 anos de experiências com os riscos do desenvolvimento do medicamento moderno. E não recomendamos a ninguém experimentar uma droga sem a devida garantia de que ela não é mais que uma ilusão que interessa a uns que lucram em detrimento de outros que sofrem, e por isso vivem momentos de fragilidade, de vulnerabilidade.
    Sabemos, não no corpo, mas por entes próximos e distantes, conhecidos ou não, que não é fácil ter a vida marcada pela incerteza do tempo e pelas dores da carne e da alma. Mas devemos alertar que a ciência tem procurado vender a ilusão da vida sem riscos, da vida sem sofrimento e da solução possível para todos nossos males. E sabemos que isso não corresponde à real fragilidade e limitação de nossas vidas. Temos enorme dificuldade de lidarmos com nossos limites e nossas fragilidades, e isso é compreensível. E quanto mais frágeis e vulneráveis nos encontramos, maior é nossa busca pelo apoio na tecnologia, e assim mais vulneráveis ficamos frente aos que dela se locupletam. E nessa hora não podemos nos tornar cegos à realidade dessa fragilidade e pensar que podemos tudo em nome de nossa vida, sem pensarmos que ao desafiarmos certas regras abrimos as portas para novas talidomidas e novos sofrimentos. Porque isso, em nosso entendimento, coloca o egoísmo acima de tudo.
    Infelizmente temos que admitir que não é fácil fazer ciência. Principalmente em um país em que as pessoas estão mais preocupadas com seus carros novos do que com a educação adequada de seus filhos, com o financiamento dos lanches de seus políticos do que a educação e a pesquisa científica, ou mesmo de cientistas mais preocupados com seus currículos do que com aqueles que se beneficiam realmente de seu trabalho. Não é tão simples testar uma nova droga. Não podemos simplesmente testar novas drogas em pacientes terminais sem os devidos cuidados. Nossa história nos diz que assim procedendo voltaríamos a situações constrangedoras, que não valem a pena! Se a Fosfoetanolamina nos convencer que merece, seremos os primeiros a defender, como se faz no caso das vacinas, ou como se fez com medicamentos contra a infecção pelo HIV, que se apressem as pesquisas agilizando protocolos diferenciados para sua rápida inserção no mercado. Antes disso recomendamos cautela.

    • Amigo, sinceramente, com relação à Fosfoetanolamina, essa sua resposta parece não encontrar-se com a realidade. Como já foi dito, vários testes e trabalhos científicos no Mundo, no exterior, que já duram décadas, já demonstraram a total ausência de efeitos colaterais, boa tolerância e eficiência NÃO APENAS em ratos, mas em seres humanos.

      A fosfoetanolamina é conhecida desde 1936, sintetizada pela primeira vez em 1938, há anos sendo administrada em hospitais conveniados a pacientes com câncer sem nenhuma ocorrência toxicológica. O que querem mais? O engraçado é que a vacina para a H1N1 não passou por tantos trâmites… e por que? H1N1: um alarme falso de pandemia, uma vacina nova com contratos gordos, inoculação em massa. Para que?

      A alegada falta de provas, documentos, testes, no fm das contas, é desculpa esfarrapada, sim, ranço de uma burro-cracia estúpida! Vários e vários históricos, anamneses, exames, relatos, prognósticos positivos, sendo colocados em dúvida por simples respeito excessivo às “regras”. As regras não podem ser burladas, mas devem ser adaptadas. AInda mais quando se trata de saúde e doenças. O Tempo não para, mas parece que a estupidez estéril das autoridades mercenárias não tem fim!

      • Prezado Júlio,
        Agradecemos sua participação e as informações oferecidas. E principalmente agradecemos ter evitado o uso de termos inadequados ao ambiente. Assim como você, e parece que 99,99% das pessoas envolvidas, estamos ainda na fase de ouvir e ler notícias. Nós não nos debruçamos sobre toda essa gama de evidências científicas que dizem existir. Tampouco fizemos uma revisão sistemática dessa literatura, simplesmente por não nos caber essa função nesse momento, dado que não temos o devido tempo para isso. Somos funcionários públicos, como você, e estudantes, e trabalhamos muito em nossas funções embora poucos acreditem nisso. Alenta-nos saber que você se posicione tão consciente tanto contra o setor privado da produção e suas mazelas econômicas sem ética, próprias do capitalismo, como contra uma burocracia pesada e inoperante própria tanto do capitalismo e do comunismo que conhecemos. Nenhuma delas nos agrada. Falando em H1N1 podemos também lembrar, junto à vacina, dos milhões de toneladas e dólares destinados ao Tamiflu, em estoques desnecessários apregoados por esse setor privado que sempre e sempre nos leva a isso corrompendo essa burocracia, que não é burra, como você quer colocar, mas inteligente em seus interesses, como foi veiculado nesse caso sobre a burocracia da OMS. Mas também devemos nos lembrar de que essa mesma burocracia da OMS, caso explodisse uma epidemia devastadora pelo mundo, seria crucificada por não ter se precavido. Veja, Júlio: as coisas têm complexidades que muitas vezes nos é difícil abarcar em nossas análises.

        Se essa documentação científica realmente existe e foi construída sobre bases metodológicas que nos garantem evidências críveis (isso é importante saber, para quem não é da área – nem tudo que sai da ciência é crível, seja pelos interesses envolvidos da indústria de tecnologia, seja do ego de cientistas sensíveis aos seus currículos dourados), cabe a quem a conhece torna-la pública para que esse debate saia do ‘ouvir dizer’ e caminhe para a ‘análise das evidências’. A oportunidade está colocada: o Ministério da Saúde criou um grupo de experts para estudar o fato e, se for o caso, o INCA dará a base para os estudos clínicos. Certamente não faltará dinheiro para isso – viva a pressão popular!!!

        Sugerimos que você encaminhe a esse grupo as informações de que dispõe, e alertamos que dê publicidade a essas informações para que a pressão se faça cada vez mais forte. De nossa parte, e dentro de nossas limitações em termos de áreas de estudo, estamos dispostos a nos juntar a essa pressão se e quando as evidências nos convencerem. Antes disso mantemos a recomendação de cautela, pois de vacinas contra H1N1, de Tamiflus, de rofecocixibes e de talidomidas já estamos cheios. Todas de responsabilidade dessa iniciativa privada que se diz a solução do mundo.

  17. acho que guardar por 20 anos algo que talvez possa curar ou tirar um pouco de sofrimento de um canceroso é a maior das injustiças, por favor , pelo amor de Deus diminua-se o salararios destes políticos e gaste-se o dinheiro nesta pesquisa que pode dar vida do povo.

  18. Burocracia complica tudo! Há comprovações de pessoas com exames antes e depois do uso das cápsulas, que se curaram. Realmente, só quem vive na pele uma doença como esta é quem sabe se deseja ou não correr o risco do tratamento.

  19. O texto é bom, cientificamente falando. Mas quando se trata de uma doença tão devastadora quanto o câncer, não é só a ciência que conta. Sou farmacêutica, concordo que há necessidade de sérios critérios de pesquisa para que um fármaco seja liberado para uso. Contudo convém lembrar que muitos fármacos considerados seguros só demonstraram seus efeitos mais nocivos quando já estavam em uso no mercado. Também há que se perceber que a grande maioria dos quimioterápicos têm efeitos colaterais graves, incluindo o óbito, mas são utilizados porque, em se tratando de câncer, às vezes não há escolha. Estou com câncer, não utilizaria de modo algum a fosfo nesse momento porque tenho opções mais confiáveis. Porém, se meus recursos “seguros” se esgotarem quero ter o direito de lutar pela minha vida do jeito que eu quiser, inclusive fazendo parte de um grupo que usa uma substância experimental como a fosfo. Nós, pacientes oncológicos, precisamos de apoio dos médicos, dos centros de pesquisa, dos órgãos fiscalizadores, não precisamos de burocracia e blá blá blá. Infelizmente, não creio que a fosfo seja a cura, mas creio que pode ser um caminho e que a pesquisa no Brasil precisa de mais atenção e investimento.

    • Prezada Márcia,

      Óbvio que a situação sua, e de milhares de outras pessoas, nos sensibiliza e nos leva ao sentimento de solidariedade. A opção pelos mais diversos tipos de tratamento é um direito da pessoa, como é direito de um detento querer fugir em busca de sua liberdade. Saúde, liberdade, vida, prazer fazem parte daquelas coisas que cada um tem o direito de lutar por obter.

      Mas isso não autoriza um professor universitário a distribuir uma droga sem que haja um protocolo de pesquisa que informe adequadamente às pessoas o processo a que estão se submetendo, benefícios e riscos. Se defendermos isso estaremos defendendo a volta à barbárie. Sabemos que há trabalhos que mostram potencial da substância nessa terapêutica, mas não acreditamos em milagres, pelo menos os químicos. Assumir e propagandear uma substância como tábua de salvação é no mínimo uma irresponsabilidade. Sempre há limites e por isso as pesquisas são necessárias. A questão que está em jogo é – para isso se faz necessário um projeto, sério e metodologicamente estruturado e aprovado em um Conselho de Ética. Isso não é burocracia e blá blá blá; é ser sério com as pessoas que necessitam. Tratar pessoas que estão sem esperança de forma diferente é um desrespeito. Pelo que sabemos, e podemos estar desinformados (esperamos ainda que isso seja desmentido) esse tratamento ético não existiu. O professor disse que procurou a Anvisa – ora, a Anvisa não trata disso dessa forma e não pode fazê-lo. Ele precisa fazer a pesquisa dentro das regras.

      Sabemos que há drogas que se mostram seguras nos ensaios e depois devem ser retiradas do mercado, e sabemos das artimanhas de pesquisadores em defesa de interesses comerciais das grandes indústrias para forçar resultados. Mas um mal não justifica outro. E é simples – faz-se o protocolo de pesquisa e não faltarão voluntários. Mas fora isso é abrir precedentes perigosos demais. O direito à vida de uns não pode colocar em risco valores morais e éticos conquistados pela humanidade porque isso é mais perigoso do que podemos imaginar. Cada um, individualmente, pode lutar por ter a droga. Não julgamos esse direito. Mas os órgãos que representam os avanços nos direitos da coletividade, no caso um deles é a Anvisa, não podem defender isso. Eles têm por papel defender esse avanço que as sociedades contemporâneas conquistaram de respeito a preceitos éticos no desenvolvimento da ciência. Não nos esqueçamos que não foi sempre assim. Não nos esqueçamos que muito recentemente, na história, tivemos mostra do que homens são capazes de fazer em nome da ciência e do desenvolvimento tecnológico. Não nos esqueçamos que isso é realmente perigoso para muitas pessoas, que podem sofrer com isso – e que sabemos muito que sofrem. O sentimento solidário é comum a cientistas e não cientistas. A diferença é que o cientista tem por obrigação moral saber o momento que ser solidário pode também ser perigoso.

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