Anemia ferropriva e gastrite: o que essas doenças têm em comum?

por Daniela Fernandes Silva

hemácias 3A anemia por deficiência de ferro (anemia ferropriva) é um grave problema
de saúde pública mundial. No Brasil há uma alta prevalência na população, principalmente em crianças menores de cinco anos e mulheres em idade fértil1,2. O ferro é essencial na composição da hemoglobina, responsável pelo transporte de oxigênio do sangue para os tecidos. Baixas concentrações de ferro na corrente sanguínea reduzem os níveis de hemoglobina e dificultam essa função, prejudicando o desenvolvimento físico e mental de crianças e afetando a qualidade de vida e a capacidade de trabalho de adultos3,4.

A anemia ferropriva pode estar relacionada a outros problemas ou doenças ocultas que atrapalhem a absorção do ferro, como a gastrite, e não necessariamente à baixa ingestão desse nutriente. Por isso é fundamental investigar sua causa antes de iniciar qualquer tratamento, evitando o mascaramento de outras doenças e o uso desnecessário de medicamentos5.

Quando relacionada a doenças do trato gastrointestinal, a anemia ferropriva é decorrente de perdas de sangue, má absorção de nutrientes no intestino6 ou de infecções da mucosa estomacal pela bactéria Helicobacter pylori, uma das responsáveis pela ocorrência de gastrite, úlcera e câncer de estômago. Uma das razões para o desenvolvimento da anemia ferropriva em pessoas com infecção ativa pela bactéria é o aumento do metabolismo das células do estômago devido a inflamação da mucosa. Também podem ocorrer a elevação do pH estomacal e a competição  entre o organismo  e a H. pylori pelo ferro7. Por tudo isso, o organismo não consegue manter os níveis normais do nutriente, ocasionando a anemia ferropriva. Ressaltamos que ser portador da bactéria não significa a presença de uma infecção ativa e, portanto, um tratamento com antibiótico pode não ser necessário.

Pacientes infectados pela H. pylori com anemia refratária (anemia grave que não responde à terapia antianêmica comum)* ou que não apresentavam resposta significativa à suplementação de ferro responderam melhor ao tratamento após a erradicação da bactéria7,8,9. Com a suplementação de ferro iniciada após receberem o tratamento para erradicação da H. pylori os níveis de ferro dos pacientes começaram a ser restabelecidos7,8.

Assim, é importante que pacientes diagnosticados com anemia ferropriva tenham uma avaliação adequada para definir a origem dessa anemia, principalmente gestantes e crianças menores de cinco anos, que necessitam de maior quantidade de ferro para garantir o bom desenvolvimento. No caso da associação entre a anemia e H. pylori é de extrema importância que haja adesão não só ao tratamento da anemia, como também da infecção causada pela bactéria.

A fim de auxiliar os grupos mais susceptíveis ao desenvolvimento da anemia ferropriva, o Ministério da Saúde criou o “Programa Nacional de Suplementação do Ferro e ações para prevenir e controlar a deficiência de ferro de gestantes e crianças em desenvolvimento”1,10. Fica o convite para que todos se informem sobre o programa e colaborem para reduzir o número de casos da anemia ferropriva no Brasil**.

*Definição de anemia refratária de acordo com os descritores DeSH e MeSH, visto que os artigos não a definem. Links:

Medical Subject Headings. Anemia, refractory. [acesso em 2015 ago 27]. Disponível em: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/mesh/?term=anemia%2C+refractory

Descritores em Ciências da Saúde. [acesso em 2015 ago 27]. Disponível em: http://decs.bvs.br/cgi-bin/wxis1660.exe/decsserver/

 

**Manual de condutas gerais do Programa Nacional de Suplementação de Ferro:

http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/manual_suplementacao_ferro_condutas_gerais.pdf

 

 

Referências:

1 Brasil, Ministério da Saúde, PNDS. Dimensões do Processo Reprodutivo e da Saúde da Criança. 1ª edição; Brasília; 2009. p. 250-57.

2 WHO. Worldwide prevalence of anaemia 1993–2005. WHO Global Database on Anaemia. Geneva: WHO; 2008. [acesso em 2015 mai 23]. Disponível em: http://whqlibdoc.who.int/publications/2008/9789241596657_eng.pdf?ua=1

3 WHO, Department of Nutrition for Health and Development. Assessing the iron status of populations. 2º edição. Geneva, WHO; 2004. [acesso em 2015 ago 26]. Disponível em: http://www.who.int/nutrition/publications/micronutrients/anaemia_iron_deficiency/9789241596107/en/

4 Brunton LL, Chabner BA, et al. Agentes hematopoiéticos: fatores de crescimento, minerais e vitaminas. In: Kaushansky K, Kipps JT. As bases farmacológicas da terapêutica de Goodman & Gilman. 12ª edição; 2012. p.1080-81.

5 Brasil, Ministério da Saúde, ANVISA. Saúde e Economia. Anemia por deficiência de ferro. Ano 9, edição n° 9. Brasília, 2013 jun. [acesso em 2015 abr 15]. Disponível em: http://s.anvisa.gov.br/wps/s/r/Zbb

6 Polin V, Coriat R, Perkins G, Dhooge M, Abitbol V, Leblanc S, Prat F, Chaussade S. Iron deficiency: From diagnosis to treatment.  Dig Liver Dis. 2013, 45(10):803-9. PubMed; PMID 23582772.

Chaabane NB, Mansour IB, Hellara O, Loghmeri H, Bdioui F, Safer l, Saffar H. [Role of Helicobacter pylori infection in iron deficiency anemia]. Presse Med. 2011, 40(3):239-47. PubMed; PMID 21196096.

8 Duque X, Moran S, Mera R, Medina M, Martinez H, Mendonza ME, Torres J, Correa P. Effect of Eradication of Helicobacter pylori and Iron Supplementation on the Iron Status of Children with Iron Deficiency. Arch Med Res. 2010, 41(1):38-45. PubMed; PMID 20430253.

9 Yan W, Li Yumin, Yang Kehu, Ma Bin, Guan Quanlin, Wang D, Yang L. Iron deficiency anemia in Helicobacter pylori infection: meta-analysis of randomized controlled trials. Scand J Gastroenterol. 2010, 45(6):665-76. PubMed; PMID 20201716.

10 Brasil, Ministério da Saúde, Programa Nacional de Suplementação de Ferro. Manual de Condutas Gerais. 1ª edição; Brasília; 2013.

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