Outubro rosa, novembro azul… qual é a cor do cuidado à saúde?

Por Cristiane Menezes de Pádua

Em 2015 foram divulgados no Blog do Cemed artigos sobre doenças para as quais diagnóstico e tratamento encontram-se relativamente bem estabelecidos como hipertensão arterial e anemia. Falamos também sobre perspectivas polêmicas de tratamento, como a fosfoetanolamina para o câncer e os canabinoides para a epilepsia refratária. Esses dois últimos temas promoveram amplo debate – virtual e presencial por meio do Blog e Seminário do Cemed – entre leitores e nossa equipe, o que muito nos gratificou.

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Fonte: Google imagens

No calor dessas discussões chegamos ao fim do ano atravessando os meses do “Outubro Rosa”, “Novembro Azul” e “Dezembro Vermelho”. Os dois primeiros fazem referência aos cânceres de mama e próstata e o último alerta sobre a prevenção do HIV/aids, celebrando no dia 1°, o “Dia Mundial da Luta contra a Aids”. Apesar de já estarmos em dezembro próximo às comemorações natalinas, o Novembro Azul será retomado como foco deste editorial.

Na nossa missão de “informar sobre” e “formar para” o uso correto do medicamento, nós do Cemed nos pautamos na saúde baseada em evidências. Cabe-nos também, nas diversas situações e discussões que giram em torno da saúde das populações, analisar criticamente a utilização de outras tecnologias médicas – por exemplo, os testes diagnósticos. Estabelecer um diagnóstico para uma dada doença é um processo imperfeito e resulta em probabilidade (e não certeza) de se estar correto. E isso depende das características do teste disponível e da doença que se deseja detectar (e tratar). Neste contexto, o rastreamento populacional[1] para a detecção precoce do câncer de próstata, incentivado pela campanha do Novembro Azul, tem sido alvo de controvérsias entre as sociedades científicas.

O câncer de próstata é um sério problema de saúde pública. É o segundo câncer de maior incidência entre os homens no mundo e o primeiro no Brasil 2,3e a segunda causa de morte por neoplasias nos homens1. Apesar de ser uma doença grave, o rastreamento populacional não é recomendado pelo Ministério da Saúde e pelo Instituto Nacional do Câncer (INCA)2. Até o momento, os estudos mostraram que os riscos superam os benefícios alcançados pelo rastreamento4. O câncer de próstata tem crescimento lento e ocorre raramente antes dos 50 anos de idade (85% dos casos são diagnosticados após 65 anos de idade). Sua história natural ainda é pouco conhecida – em alguns pacientes o tumor evolui lentamente, podendo não apresentar sinais durante a vida e não ameaçar a saúde, enquanto em outros ele atinge rapidamente os estágios avançados da doença, não permitindo uma intervenção oportuna e efetiva3.

O teste do Antígeno Prostático Específico (PSA) e o toque retal são utilizados na triagem do câncer de próstata antes de ser realizada a biópsia, que é o diagnóstico padrão-ouro. A biópsia é um procedimento invasivo e, portanto, deve se limitar à confirmação dos casos. Ambos os testes têm limitações importantes, produzindo elevada proporção de resultados falso-positivos (quando se tem um resultado positivo no teste de triagem, porém não se tem a doença) e falso-negativos (resultados negativos dos testes de triagem de pessoas doentes). O PSA não é um marcador biológico específico para o câncer da próstata. Como consequência, a detecção de níveis elevados dessa glicoproteína no sangue pode ser indicador de outras doenças benignas, levando à realização de biópsias desnecessárias. No exame do toque retal é avaliada a presença de nódulos, o que depende mormente do treinamento e experiência do examinador. Estima-se que 40% a 50% dos tumores permanecem indetectáveis. Além disso, há grande resistência e rejeição dos homens à sua realização3.

A julgar pelas características da doença e dos testes disponíveis para sua detecção[2], o rastreamento populacional não diminui a mortalidade global ou por câncer de próstata de forma significativa. As consequências da detecção precoce incluem i) os malefícios psicológicos pela geração de resultados falso-positivos e de falso-negativos que acarretará no adiamento da procura dos serviços médicos; ii) o sobrediagnóstico que consiste na detecção precoce de um câncer que não evoluiria clinicamente e iii) sobretratamento – decorrente do sobrediagnóstico expondo homens sadios aos riscos de um tratamento desnecessário, que pode levar à disfunção sexual erétil, problemas gastrintestinais, incontinência urinária, riscos de morte e complicações cirúrgicas5.

Nesse momento os leitores devem estar se perguntando: o que devem fazer então os homens que queiram ou julguem necessário fazer o teste? Discutimos sobre triagem do câncer de próstata no nível da COLETIVIDADE. Portanto, isso não diminui a importância da busca regular do homem (indivíduo) pelos serviços médicos. Ele pode decidir junto ao seu médico se deve ou não se submeter aos exames. Essa avaliação é INDIVIDUAL (rastreamento oportunístico ou por livre demanda) e deve ser acompanhada do esclarecimento sobre os riscos e benefícios do rastreamento para uma decisão informada2,5.

Campanhas de saúde alertam sobre a importância da prevenção de doenças prevalentes nas populações. O “Novembro Azul” dedica-se ao câncer de próstata, mas também a outras doenças que afetam a saúde do homem. O cuidado com a saúde não deve ser pontual, motivado por campanhas apenas; deve ser regular e contínuo, especialmente entre os homens que tendem a procurar os serviços de saúde com menor frequência quando comparado às mulheres. E esse cuidado, independentemente de sua cor, deve ser baseado nas melhores evidências disponíveis para a avaliação das tecnologias médicas.

Com essa discussão terminamos mais um semestre intenso de atividades. Agradecemos aos leitores pelo acompanhamento do Cemed e esperamos contar com a mesma audiência no próximo semestre. A equipe do Cemed deseja a todos um Feliz Natal e um Ano Novo mais sereno, livre das turbulências que inquietam o cenário político brasileiro.

[1] Rastreamento em saúde pública é um exame realizado em grande escala em indivíduos assintomáticos com o objetivo de identificar a doença em estágio pré-clínico (assintomático) e, por meio do tratamento precoce, reduzir a mortalidade ou outros danos que a doença possa causar1.
[2] O rastreamento populacional de uma doença se justifica quando: i) a doença alvo é bem definida, tem história natural conhecida – período longo entre os primeiros sinais da doença até o aparecimento de seus sintomas (graves) característicos e prevalência (frequência de ocorrência) conhecida; ii) o teste diagnóstico disponível é simples, seguro, confiável (elevada acurácia – sensibilidade e especificidade) e tem boa relação custo-efetividade; iii) o tratamento para a doença alvo está disponível, é efetivo e seguro1.
Referências:
  1. Beaglehole R, Bonita R, Kjellström T. Epidemiologia e prevenção: doenças crônicas não transmissíveis. In: Beaglehole R, Bonita R, Kjellström T. Epidemiologia Básica. 2.ed. São Paulo: Ed. Santos, 2010. Cap. 6,pp.99-115.
  2. Ministério da Saúde. Instituto Nacional de Câncer. Nota Técnica Conjunta 001/2015. Posicionamento do Ministério da Saúde acerca da integralidade da saúde dos homens no contexto do Novembro Azul. [acesso em 2015 dez 02]. Disponível em: http://www2.inca.gov.br/wps/wcm/connect/9e6e07004a50eca8968bd6504e7bf539/Nota+T%C3%A9cnica+CAP+finalizada.pdf?MOD=AJPERES&CACHEID=9e6e07004a50eca8968bd6504e7bf539
  3. Amorim VM, Barros MB, Cesar CL, Goldbaum M, Carandina L, Alves MC. Fatores associados a realização dos exames de rastreamento para o câncer de próstata: um estudo de base populacional. Cad Saude Publica 2011, 27(2):347-356).
  4. Ilic D, Neuberger MM, Djulbegovic M, Dahm P. ScreeningforprostateCochrane Database Syst Rev. 2013, 1:CD004720. [acesso em 2015 dez 03]. Disponível em: http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/14651858.CD004720.pub3/epdf
  5. Instituto Nacional de Câncer. Informativo Detecção Precoce. Boletim ano 5 n.2 maio/agosto 2014). [acesso em 2015 dez 02]. Disponível em: http://www1.inca.gov.br/inca/Arquivos/Informativo_Deteccao_Precoce_2_agosto_2014.pdf

Aplicativo ajuda descobrir quais medicamentos causam alergia

por Daniela Fernandes Silva

“Alergia a medicamentos” é um aplicativo gratuito disponível para Android e iOS que auxilia os usuários a descobrirem se um determinado medicamento pode causar alergia. É uma ferramenta simples que serve para consultas rápidas antes de utilizar um medicamento.  Foi desenvolvido pelo médico alergista e professor Fábio Morato Castro da Universidade de São Paulo (USP) com consultoria de outros médicos especialistas em imunologia e alergias.

Para utilizar o aplicativo o usuário deve fazer um cadastro informando dados pessoais, contato do seu médico e todos os medicamentos ou substâncias que já lhe causaram reações alérgicas. Após esse cadastro pode-se consultar se algum medicamento tem em sua fórmula um componente que causará alergia. É possível que essa consulta também seja realizada sem o cadastro, porém seu histórico de medicamentos ou substâncias alergênicas não ficará salvo.

No Brasil muitos medicamentos com nomes comerciais diferentes, contendo o mesmo princípio ativo, estão disponíveis para venda. Por isso, muitas pessoas acabam manifestando reações alérgicas porque ingeriram o medicamento desconhecendo que ele continha a substância que lhe provoca alergia. E é justamente isso que o aplicativo visa evitar. Entretanto é importante ressaltar que esse recurso não substitui o aconselhamento de um profissional de saúde.

Fonte: Jornal Hoje.