Isotretinoína: tratamento e regulamentação

por  Gustavo Sidrim

acne1

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A acne é definida como uma doença inflamatória crônica da pele que atinge o folículo piloso e a glândula sebácea (a chamada unidade polissebácea)¹. Caracteriza-se pelo aparecimento de comedões (cravos), pápulas, pústulas e, nas formas mais graves, por abscessos, cistos e cicatrizes em graus variáveis². Embora não seja reconhecida como uma doença de alta gravidade, por atingir principalmente adolescentes e adultos jovens ela tem sido tratada com maior atenção, pois a não aceitação estética pode levar a consequências emocionais no longo prazo3.

Um dos tratamentos disponíveis é a isotretinoína, substância derivada do retinol (vitamina A), aprovada no Brasil em 1982 para o tratamento de acne4. A isotretinoína de uso oral representou um avanço na terapêutica dermatológica, uma vez que atua sobre os quatro fatores etiopatogênicos da acne: reduz o tamanho e a secreção das glândulas sebáceas, levando a redução do fluxo de sebo; normaliza a queratinização folicular; inibe o crescimento da bactéria Propionibacterium acnes e exerce atividade anti-inflamatória5.

O tratamento de pacientes com acne comum é realizado com doses de 0,5 a 1 mg/kg/dia durante 16 a 35 semanas. Pacientes com acne grave e resistente a terapias convencionais necessitam de doses diárias maiores, de até 2 mg/kg/dia por 16 a 24 semanas, sendo que a quantidade ingerida durante todo o tratamento deverá estar entre 120 mg/kg a 150 mg/kg4

Pelo alto risco de causar malformação do feto, esse medicamento não deve ser prescrito quando há possibilidade de gravidez, sendo seu uso em gestantes uma contraindicação absoluta. Mulheres em idade fértil devem realizar exames antes, durante e um mês após o tratamento com isotretinoína para descartar a suspeita de gravidez, e devem utilizar dois métodos anticoncepcionais durante esse período 6 . Dados atuais demonstram que os níveis de exposição da gestante ao sêmen de usuários de isotretinoína, não são suficientes para representar risco ao feto7 . Outros efeitos adversos são relatados na tabela 1.

Devido ao conjunto de riscos associados ao uso da isotretinoína, ela integra a lista C2 (retinóides de uso sistêmico) da Portaria n.º 344, de 12 de maio de 1998, que aprova o Regulamento Técnico sobre substâncias e medicamentos sujeitos a controle especial no Brasil. Para que ocorra a dispensação dessa substância para uso oral, o médico deve fornecer, além da receita, um termo referente ao “Consentimento de Risco” e “Consentimento Pós-Informação”, alertando o paciente das reações e restrições de uso e de que o medicamento é pessoal e não deve ser cedido a terceiros8

Cabe aos médicos e farmacêuticos orientarem os pacientes sobre os riscos, informar sobre a importância dos dados contidos nos documentos que acompanham a prescrição e encontrar qual o melhor tipo de tratamento para cada caso, analisando os riscos e benefícios. E cabe aos pacientes procurar o auxílio de um profissional da saúde para se orientar acerca de quais os possíveis sintomas, as contraindicações e a maneira correta de usar os medicamentos para minimizar os efeitos indesejados.

Tabela

 

Referências:

1 Cerqueira AMM, Azevedo JOC. Acne Vulgar. In: Kede MPV, Sabatovich O. Dermatologia Estética. 2ª edição. São Paulo: Atheneu; 2009. p.165.

2 Minelli L, Neme LC. Acne Vulgar – Como diagnosticar e tratar. Edição Especial. Rev Bras Med; 1997; 54.

3 Fried RG, Wechsler A. Psychological problems in the acne patient. Dermatol Ther. 2006; 19(4): 237-40.

4 Kede MPV. Tratamento Sistêmico com Isotretinoína Oral. In: Kede MPV, Sabatovich O. Dermatologia Estética. 2ª edição. São Paulo: Atheneu; 2009. p.180.

5 Habif TP. Dermatologia Clínica: guia colorido para diagnóstico e tratamento. 4.ed. Porto Alegre: Artmed, 2005. p.182-3.

6 Fox LP, Merk HF, Bickers DR. Farmacologia dermatológica. In: Goodman & Gilman. As bases farmacológicas da terapêutica. 12ª edição. Rio de Janeiro: Mcgraw-Hill Interamericana; 2007. p.1803-32.

7 Isotretinoína: cápsula. Responsável técnico: Dra. Maria Betânia Pereira. São Paulo: Legrand Pharma, 2014. Bula de remédio.

8 Agência nacional de vigilância sanitária. Da atualização do parecer no tocante aos medicamentos retinóides. Parecer técnico, de 26 de fevereiro de 2003. Relatores: Lynn Silver e Maria de Lourdes Viegas.

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Dengue, Zika e Chikungunya: quais medicamentos evitar?

por Daniela Fernandes Silva

Hoje, dia 05 de maio, é o Dia Nacional pelo Uso Racional de Medicamentos e os conselhos de farmácia promovem campanha para alertar a população da importância do uso correto dos medicamentos e conscientizar sobre os riscos da automedicação.  Esse ano  a campanha  também tem como objetivo  reforçar as orientações e cuidados em casos de dengue, zika e chikungunya.

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De janeiro a início de abril foram registrados no Brasil 802.429 casos prováveis de dengue, 38.332 casos de febre chikungunya e 91.387 de zika1. Esse cenário gera grande preocupação e alerta para a necessidade de combater o mosquito transmissor (Aedes aegypti).

As três doenças apresentam sintomas semelhantes (figura 1), tornando difícil seu diagnóstico diferencial. Assim, casos suspeitos de Zika e Chikungunya devem ser tratados como dengue, pois dentre as três é a mais comum3. Como não há tratamento específico para elas, tratam-se os sintomas utilizando analgésicos e antitérmicos, como paracetamol e dipirona2, e em casos de urticária (placas avermelhadas na pele que causam coceira e inchaço) pode-se utilizar antialérgicos, como a dexclorferinamina3. Medicamentos que contêm ácido acetilsalicílico (AAS), ibuprofeno e outros anti-inflamatórios não esteroidais (AINE) devem ser evitados, pois inibem elementos essenciais para a coagulação sanguínea, que já é prejudicada pela redução de plaquetas causada por esses vírus(ERRATA), favorecendo e agravando a ocorrência de hemorragias 4.

Procure o auxílio de um profissional da saúde para se orientar acerca de quais medicamentos e a maneira correta de usá-los para o alívio dos sintomas. Também é recomendado ingerir bastante líquido e repousar para auxiliar na recuperação.  Vale ressaltar que mesmo os medicamentos de venda livre, como o paracetamol e a dipirona, requerem cuidados no seu uso. O paracetamol, por exemplo, pode levar a alterações no fígado, principalmente, quando ultrapassada a dose máxima diária recomendada. (Leia mais sobre o paracetamol)

tabela dengue

ERRATA: a redução de plaquetas causada pelo vírus da dengue é bem estabelecida na literatura científica. Para os vírus da zika e chikungunya existem estudos isolados que apontam uma redução, mas ainda não é bem estabelecida, necessitando de mais evidências sobre o assunto.

Referências:

1 Brasil, Ministério da Saúde. Boletim Epidemiológico.  Monitoramento dos casos de dengue, febre de chikungunya e febre pelo vírus Zika até a Semana Epidemiológica 13, 2016; 47(18). [Acesso em 2016 mai 03]. Disponível em: http://portalsaude.saude.gov.br/images/pdf/2016/abril/26/2016-014—Dengue-SE13-prelo.pdf

2 Brasil, Ministério da Saúde. Dengue aspectos epidemiológicos, diagnóstico e tratamento. 2002, p.13. [acesso em 2016 abr 05] Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/dengue_aspecto_epidemiologicos_diagnostico_tratamento.pdf

3 Brasil, Ministério da Saúde. Prevenção e combate Dengue, Chikungunya e Zika. [acesso em 2016 abr 05]. Disponível em: http://combateaedes.saude.gov.br/tira-duvidas

4 Grosser T, Smyth E, FitzGerald AG. Agentes anti-inflamatórios, antipiréticos e analgésicos; farmacoterapia da gota. In: Kaushansky K, Kipps JT. As bases farmacológicas da terapêutica de Goodman & Gilman. 12ª edição; 2012. p.962-64.