Por que a dipirona é comercializada no Brasil, mas proibida em alguns países?

por Ana Luiza Brandão Neiva da Silva

dipironaA dipirona é um fármaco analgésico e antitérmico que também apresenta efeito espasmolítico (provoca relaxamento da musculatura lisa reduzindo a contração muscular involuntária). Suas propriedades analgésicas resultam da ação dos produtos de seu metabolismo (metabólitos ativos), que inibem a ação de enzimas (COX-1, COX-2 ou ambas) responsáveis pela produção de mediadores químicos inflamatórios (prostaglandinas). Porém, o mecanismo de ação do fármaco não é totalmente conhecido. Propõe-se que o efeito analgésico, além da inibição desses mediadores (preferencialmente no sistema nervoso central), dependa de uma dessensibilização dos nociceptores periféricos (sinalizadores da dor) e da inibição de uma terceira isoforma da ciclooxigenase, a COX-31,2.

Até 2001 a dipirona era o analgésico-antitérmico mais utilizado no Brasil e comercializado em mais de 100 países, entre eles, Alemanha, Itália, França, Holanda, Finlândia, Espanha, Argentina e México3. No entanto, seu uso é marcado por diversos debates quanto aos riscos à saúde.

A agência regulatória americana, Food and Drug Administration (FDA), retirou a dipirona do mercado dos Estados Unidos em 1977, com base nos relatos de vários casos de doenças sanguíneas graves após a administração do medicamento, alguns dos quais resultaram em morte. Na época, a disponibilidade de medicamentos alternativos e eficazes (por exemplo, ácido acetilsalicílico e paracetamol) e a possibilidade do uso de métodos antitérmicos não farmacológicos (banho e compressas mornas)4,5 corroboraram para interrupção de sua comercialização.

dipirona4A dipirona e outros fármacos do mesmo grupo foram usados por muitos anos, mas foram abandonados em vários países pelo risco potencial de causarem agranulocitose irreversível1. A agranulocitose é uma reação adversa imprevisível e potencialmente fatal. Ela não dependente da dose, portanto, acredita-se que seja determinada por mecanismos de hipersensibilidade6. O termo é, frequentemente, utilizado para indicar uma neutropenia grave (redução de células de defesa no sangue – os neutrófilos), sendo este um fator predisponente para infecções7. Ela pode ocorrer tanto após o uso do medicamento em curto prazo ou intermitente, quanto após a administração prolongada6. Os sinais e sintomas dessa reação adversa incluem lesões inflamatórias na mucosa (ex. orofaríngea, anorretal, genital), inflamação na garganta, febre e calafrios2.

A dipirona está disponível em alguns países da Europa, incluindo Alemanha, França(ERRATA) e Espanha, desde que estudos epidemiológicos sugeriram que os riscos de seus efeitos adversos eram similares ao do paracetamol e menores que do ácido acetilsalicílico1,8. Em outros países, tais como os do Reino Unido, ela nunca foi licenciada. Ela ainda é largamente utilizada em muitas partes do mundo, incluindo o Extremo Oriente, África e América Latina. Na Suécia, todos os produtos contendo dipirona foram retirados do mercado em 1974, devido a uma incidência estimada de agranulocitose de 1 em 3.000 pacientes. Em 1995, ela foi reintroduzida com base em uma baixa incidência encontrada em estudo, porém foi novamente suspensa em 1999, devido a outros dados apresentados8.

No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) realizou, em julho de 2001, um “Painel Internacional de Avaliação da Segurança da Dipirona” com objetivo de promover um amplo esclarecimento sobre seus riscos. Nesse painel formou-se um consenso de que a eficácia da dipirona como analgésico e antitérmico é inquestionável, que os riscos atribuídos à sua utilização eram baixos, e que os dados científicos disponíveis apontando a ocorrência desses riscos não eram suficientes para indicar alteração de sua situação regulatória (venda sem prescrição médica). Com os dados apresentados os participantes concluíram que os riscos da dipirona eram similares, ou menores, aos de outros analgésicos-antitérmicos disponíveis no mercado3. Contudo, cabe ressaltar que, embora tenham valor científico, os consensos ou opiniões de especialistas oferecem uma evidência de menor qualidade para a tomada de decisão em saúde quando comparados a outros tipos de estudos, como ensaios clínicos randomizados e revisões sistemáticas, e por esta razão seus resultados devem ser avaliados com cautela.

Embora o uso da dipirona não esteja associado a reações adversas gástricas ou renais, quedas abruptas de pressão arterial foram relatadas, especialmente em administração intravenosa rápida. Seu uso pode estar associado ainda a alguns tipos de anemias, anafilaxia (reação alérgica sistêmica grave), reações cutâneas graves, broncoespasmo, náusea, vômito, sonolência, cefaleia e diaforese (transpiração excessiva)6. A maior preocupação é a ocorrência de agranulocitose, uma reação rara, mas que pode ser grave e até mesmo fatal. Assim, caso seja identificada alguma das reações citadas durante seu uso, é importante que o tratamento seja interrompido e o médico consultado imediatamente.  Apesar da dipirona ser autorizada no Brasil e de se tratar de um medicamento de venda sem prescrição médica, deve-se evitar seu uso sem orientação profissional. Por isso, antes de utilizar qualquer medicamento consulte um médico ou farmacêutico.

Agradecimento:

Dr. Márcio de Matos Coelho – Professor do Departamento de Produtos Farmacêuticos na Faculdade de Farmácia da UFMG.

ERRATA: De acordo com informações do site da agência reguladora francesa ANSM (Agence nationale de sécurité du médicament et des produits de santé), a comercialização da dipirona no país foi descontinuada em 2006.

Referências
1 Grosser T, Smyth E, FitzGerald AG. Agentes anti-inflamatórios, antipiréticos e analgésicos; farmacoterapia da gota. As bases farmacológicas da terapêutica de Goodman & Gilman. 12ª edição. Porto Alegre: AMGH; 2012. p.990.
2 Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Bulário Eletrônico. DIPIRONA. Bula do profissional. Disponível em: http://www.anvisa.gov.br/datavisa/fila_bula/frmVisualizarBula.asp?pNuTransacao=22112622016&pIdAnexo=3835724
3 Anvisa: Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Painel internacional de avaliação da segurança da dipirona. Brasília, julho de 2001. Disponível em: http://www.anvisa.gov.br/divulga/informes/relatoriodipirona2.pdf 
4 US Food and Drug Administration.Center for Drug Evaluation and Research 2003.EUA; 2003. Disponível em: http://www.fda.gov/iceci/enforcementactions/enforcementstory/enforcementstoryarchive/ucm095793.htm
5 US Food and Drug Administration. Rx Drug Study Bulletin #231: Drug Products Containing Dipyrone. EUA; 1977. Disponível em:http://www.fda.gov/ohrms/dockets/ac/00/backgrd/3634b1a_tab2b.pdf
6 Fuchs FD, Wannmacher L. Farmacologia Clínica: fundamentos da terapêutica racional. 4ª edição. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2014.
7 Dale DC. Williams Hematology. 8ª edição.New York: McGraw-Hill; 2010.
8 Hedenmalm K, Spigset O. Agranulocytosis and other blood dyscrasias associated with dipyrone (metamizole). Eur J Clin Pharmacol. 2002;58(4):265-74.

17 pensamentos sobre “Por que a dipirona é comercializada no Brasil, mas proibida em alguns países?

  1. Bom texto. Mas existe uma outra explicação pra justificar a retirada do mercado da dipirona nos EUA e em alguns países. Não foi por conta dos dados, pois são fracos pra isso. Houve um grande embate comercial entre as fabricantes da dipirona e o paracetamol. Infelizmente quem fabrica o paracetamol é uma indústria americana e suas relações políticas principalmente dentro do FDA favoreceram a retirada da dipirona do mercado do tio Sam.

    • Prezado(a),

      Agradecemos o elogio e sua participação.
      Rumores sobre um potencial conflito de interesse na proibição americana da dipirona de fato existem considerando que o fármaco foi desenvolvido na Alemanha, enquanto que o paracetamol é marcado como um dos analgésicos mais vendidos no mundo e representa grande lucro para indústria americana. No entanto, apesar de não se poder eliminar essa possibilidade, não há evidência inequívoca do conflito político, o que leva a nos mantermos atentos às questões de base científica.

      Atenciosamente,
      Equipe Cemed.

      • A coisa mais comum nos EUA é proibir produtos não americanos, que fazem concorrência forte com os produtos lá criados.

      • Olá Rodrigo,

        agradecemos pela sua participação!
        Continue acompanhando nossas publicações!

        Atenciosamente,

        Equipe Cemed

  2. Posso relatar que, há cerca de 5 anos, por ocasião de uma crise, inicialmente diagnosticada como cólicas renais, fiz uso de Dipirona por via intravenosa rápida e fui acometido de uma queda abrupta da pressão arterial seguida de taquicardia séria e vertigem. Entendo, sim, que esse medicamento apresenta riscos e deveria, se não ser banido, ao menos ser usado sob estrita prescrição médica. Países sérios como Suécia e Reino Unido devem ter razões sólidas para barrar a comercialização desse produto em seus territórios, portanto a afirmação de que ele foi banido dos EUA por influência do concorrente na FDA carece de fundamento.

    • Prezado João Francisco,

      Agradecemos sua participação. Conforme citado no texto, relatos de quedas abruptas de pressão arterial após o uso de dipirona são encontrados na literatura, especialmente em administração intravenosa rápida, como no seu caso. Além do risco de causar agranulocitose, outras reações (citadas no texto) podem ter contribuído para proibição do medicamento em determinados países, sendo comprovado que ele apresenta, sim, certos riscos. Como respondemos no comentário anterior, sobre um potencial conflito de interesse na proibição americana da dipirona encontramos apenas rumores, o que nos leva a dar crédito apenas as questões com base científica.

      Atenciosamente,

      Equipe Cemed.

    • Obrigada por sua participação, Manoel. Ficamos felizes em contribuir para uma utilização mais segura dos medicamentos. Conhecer as contraindicações, efeitos colaterais e demais informações sobre um medicamento é tão importante quanto saber quando, como e para quê utilizá-lo.

      Atenciosamente,
      Equipe Cemed.

  3. Moro na França e aqui não se comercializa dipirona, perguntei sobre isso à farmacêuticos e médicos e eles nem conhecem a dipirona, mas eu particularmente trago sempre comigo a dipirona em gotas.

    • Prezada, Lira.

      Agradecemos imensamente pela participação e por ter nos alertado quanto à informação equivocada repassada no texto, verificamos que a comercialização da dipirona na França foi interrompida em 2006. Pedimos desculpas pelo equívoco e informamos que já fizemos a retificação.

      A utilização de medicamentos isentos de prescrição por conta própria é parte do autocuidado e geralmente é efetiva, principalmente quando se utiliza medicamentos cujo efeito em seu organismo já é conhecido. Entretanto, é importante que essa automedicação seja responsável e que você esteja atenta a forma correta de utilização (dose e intervalos mínimos entre as administrações do medicamento) e as possíveis reações adversas. Deve-se lembrar também que esses medicamentos não devem ser utilizados de maneira crônica e que, em caso de dúvidas, um médico ou farmacêutico deverá ser consultado.
      Informamos que metamizol é o INN (International Nonproprietary Name) da dipirona, ou seja, essa é a denominação mais comum, como ela é conhecida internacionalmente. Assim, ainda que os profissionais franceses não conheçam o medicamento, se você informar esse nome, é possível que eles consigam ter acesso a informações que possam ajuda-la. Por fim, apesar da dipirona não ser um fármaco psicotrópico e não ter potencial de abuso, é importante estar atenta e se informar sobre a regulamentação do uso de medicamentos cuja comercialização não é autorizada no país.

      Atenciosamente,
      Equipe Cemed.

  4. Sempre uso em gotas e parece que fomos feitos um para o outro. Paracetamol ou AAS nem me fazem cócegas, mas a rapidez do sumiço da dor de cabeça com a dipirona é impressionante. Mas a recomendação médica é importante, principalmente para quem tem pressão baixa. Mas tb acho que há interesses comerciais por trás disso, assim como há falso moralismo por trás do uso da cannabis para enjoos: sua eficácia é impressionante, e não precisa fumar um charutão, pois quando o 1o trago ainda está no pulmão, o enjoo já passou, seja de qual for a origem!

    • Olá Luisa,

      agradecemos pela sua participação!
      Continue acompanhando nossas publicações!

      Atenciosamente,

      Equipe Cemed

  5. Minha esposa (79 anos) sofre de polimialgia reumática. Tem dores musculares e é medicada com metotrexato. Como analgésico, foi-lhe receitada dipirona, que ela toma diariamente há cerca de dolis anos. Verifiquei agora que na bula da dipirona consta: ” ADMINISTRAÇÃO DE DIPIRONA COM METOTREXATO PODE AUMENTAR A TOXICIDADE SANGUÍNEA DO METOTREXATO PARTICULARMENTE EM PACIENTES IDOSOS, PORTANTO, ESTA COMBINAÇÃO DEVE SER EVITADA.” Pergunto: trata-se de evidência robusta ou apenas cautela dos fabricantes?

    • Prezado,
      Agradecemos pelo contato e pedimos desculpas pela demora no retorno.
      O uso concomitante de metotrexato e dipirona pode resultar em toxicidade por metotrexato (1,2), podendo ocorrer leucopenia (diminuição de células de defesa do organismo), trombocitopenia (diminuição de plaquetas), anemia, toxicidade renal e ulcerações nas mucosas (1).
      Em um estudo em que foram avaliadas as notificações de reações adversas relacionadas à dipirona, observou-se que o uso concomitante de dipirona e metotrexato parece ser um fator associado à morte por reações adversas sanguíneas. Embora a conclusão desse estudo tenha sido baseada em um pequeno número de casos, esta é uma evidência a ser considerada, dada a gravidade dos desfechos (3).
      Portanto, a recomendação da bula de evitar o uso dos dois medicamentos simultaneamente não se trata de mera cautela dos fabricantes. Pessoas com problemas renais ou que fizerem uso de metotrexato em altas doses (maiores do que 15 mg por semana) devem ter ainda mais cuidado, pois estes são fatores que aumentam o risco de apresentar as reações descritas acima (1).
      Por fim, ressaltamos que é importante que sua esposa consulte ao profissional que a acompanha antes de tomar qualquer decisão sobre o tratamento, pois nossas orientações não substituem uma recomendação que foi feita para a paciente de maneira individualizada. Somente o profissional que tem conhecimento amplo sobre o quadro clínico dela é que tem propriedade para fazer os devidos ajustes no tratamento.

      (1) Nikolova I, Tencheva J, Voinikov J, Petkova V, Benbasat N, Danchev N. Metamizole: A Review Profile of a Well-Known “Forgotten” Drug. Part I: Pharmaceutical and Nonclinical Profile. Biotechnology & Biotechnological Equipment, 2012; 26:6, 3329-3337, DOI: 10.5504/BBEQ.2012.0089

      (2) IBM Micromedex® Drug Interaction Checking:
      IBM Micromedex® Drug Interaction Checking (electronic version). Truven Health Analytics, Greenwood Village, Colorado, USA. Disponível em: http://www-micromedexsolutions-com.ez27.periodicos.capes.gov.br/ (acesso em: 10/04/2018).

      (3) Blaser LS, Tramonti A, Egger P, Haschke M, Krähenbühl S, Rätz Bravo AE. Hematological safety of metamizole: retrospective analysis of WHO and Swiss spontaneous safety reports. Eur J Clin Pharmacol. 2015 Feb;71(2):209-17. doi: 0.1007/s00228-014-1781-z.

  6. HAVEMOS DE CONVIR QUE É UMA DROGA , COMO TODAS INDICAÇÃO , CONTRA , EFEITOS COLATERAIS ……. RISCO/BENEFICIO …….
    PROBLEMA : AUTOMEDICAÇÃO ?????
    NÃO DEFENDO NENHUM LABORATORIO OU ACUSO

    • Olá Reginaldo,
      Agradecemos o contato!

      Não sabemos ao certo se compreendemos qual é a sua dúvida/questionamento, mas você tem razão ao afirmar que todo medicamento possui indicações, contraindicações e pode apresentar efeitos adversos. Por esse motivo, eles não ser usados sem a orientação de um profissional habilitado, capaz de avaliar corretamente os riscos e benefícios do tratamento, pois o uso indiscriminado de qualquer medicamento pode gerar sérias complicações. A automedicação faz parte do autocuidado de cada indivíduo, contudo para que seja feita de forma segura precisamos avançar na educação em saúde. Por isso, é muito importante orientar a população sobre os riscos de se automedicar e sugerir que procurem um profissional capacitado, como o farmacêutico, antes de fazer uso de qualquer medicamento.

      Atenciosamente,
      Equipe Cemed.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.