Enxaqueca: que dor é essa e quais as opções de tratamento?

por Daniela Fernandes Silva e Gean Lucas de Araújo Alves

A enxaqueca é um tipo de cefaleia primária (dor de cabeça não decorrente de outra enfermidade) com sintomas que afetam a execução de atividades cotidianas. É o terceiro distúrbio mais prevalente e o sétimo mais incapacitante1, afetando cerca de 10% a 15% da população mundial2. Caracteriza-se por crises recorrentes de dor pulsátil em somente um lado da cabeça.  A dor possui intensidade variável e pode ser acompanhada de vômitos, náuseas, sensibilidade à luz e sons. A enxaqueca é dividida em dois subtipos: enxaqueca sem aura e com aura3,4.

O diagnóstico é baseado nos critérios da International Headache Society, referência mundial em cefaleias. Para a enxaqueca sem aura, leva-se em consideração fatores como episódios de dor com duração de quatro a 72 horas (não tratada ou tratada sem sucesso), localização e intensidade da dor, se essa dor é pulsátil ou não, se os sintomas são agravados por atividade física rotineira, entre outros. Já na enxaqueca com aura, outros critérios são avaliados devido às manifestações neurológicas momentâneas como dormências no corpo, distúrbios visuais, distúrbios sensitivos e dificuldades na fala5, o que torna o diagnóstico mais complexo.

O tratamento da enxaqueca pode ser sintomático, com o objetivo de reduzir ou cessar os sintomas durante as crises, ou preventivo, para reduzir a frequência das crises. A escolha do tratamento dependerá do tipo de enxaqueca e da periodicidade dos ataques. Em casos de crises frequentes e graves pode ser necessária a associação desses dois esquemas de tratamento6. Para o tratamento sintomático das crises de enxaqueca podem ser usados analgésicos (ex.: ácido acetilsalicílico, paracetamol e dipirona), anti-inflamatórios (ex.: ibuprofeno), ergóticos (ex.: ergotamina) e triptanos (ex.: naratriptana), os quais podem estar em associação com metoclopramida ou cafeína6,7.  No tratamento preventivo são utilizados betabloqueadores adrenérgicos, antidepressivos tricíclicos e anticonvulsivantes (Figura 1)6,8.

Figura - EnxaquecaOs medicamentos associados à metoclopramida são indicados em quadros em que ocorrem náuseas e vômitos. Já a cafeína está presente nas associações com alguns analgésicos e anti-inflamatórios para promover um início mais rápido de seus efeitos8. O tratamento sintomático deve ser realizado com cautela, pois o uso desses medicamentos, em excesso, pode causar cefaleia de rebote, isto é, aumentar a frequência de dores de cabeça e facilitar a progressão da doença6,7.

A redução dos sintomas durante as crises também pode ser obtida com a adição de medidas não farmacológicas que fazem parte do tratamento preventivo9:

  • Regularização do padrão alimentar e do sono;
  • Evitar a ingestão de alimentos desencadeadores como vinho tinto, cafeína, chocolate, queijo e embutidos;
  • Acupuntura;
  • Técnicas de relaxamento;
  • Abordagens psicológicas.

A associação dessas medidas com a terapia farmacológica pode reduzir não apenas os sintomas, mas também a frequência das crises, melhorando a qualidade de vida dos pacientes7,10.

Outra estratégia importante para o acompanhamento e tratamento da enxaqueca é a adoção e manutenção de um diário da enxaqueca para identificar os possíveis fatores desencadeantes, que variam de um paciente para outro, e para monitorar a efetividade do tratamento empregado. Além disso, o diário auxilia no acompanhamento da evolução da doença. Esse diário consiste em um caderno de anotações em que o paciente registra as informações sobre as suas crises como data, horário inicial e final, sintomas e medicamentos utilizados para o alívio da dor e outros sintomas apresentados9. Também existem aplicativos que funcionam como um diário, disponíveis para smartphone e tablet, em que é possível adicionar essas informações.

Como os fatores desencadeantes das crises de enxaqueca são variados e individuais, é muito importante o acompanhamento terapêutico com um profissional de saúde capacitado para orientar as escolhas de tratamento e favorecer o alcance dos resultados clínicos desejados.  Obter o tratamento adequado é um desafio e depende da participação ativa do paciente, que deve estar atento para reconhecer as medidas que lhe trazem os melhores benefícios.

Enxaqueca

Referências:

  1. Horton R. GBD 2010: understanding disease, injury, and risk. Lancet. 2012;380(9859):2053-2054. PubMed; PMID: 23245595.
  2. Bashir A, Lipton RB, Ashina S, Ashina M. Migraine and structural changes in the brain: a systematic review and meta-analysis. Neurology. 2013;81(14):1260-8. PubMed; PMID: 23986301.
  3. Descritores em Ciências da Saúde. 2016. Enxaqueca; p. 2-4.
  4. Headache Classification Committee of the International Headache Society. Classification and diagnostic criteria for headache disorders, cranial neuralgias and facial pain. Cephalalgia. 1988;8 Suppl 7:1-96.
  5. International Classification of Headache Disorders. Classificação Internacional de Cefaleias: Cephalgia; 2014. Disponível em: <http://www.ihs-classification.org/_downloads/mixed/International-Headache-Classification-III-ICHD-III-2013-Beta.pdf&gt;
  6. Brasil. Ministério da Saúde. Formulário terapêutico nacional 2010: RENAME 2010. Brasília; 2010; p. 86-88.
  7. May A, Schulte LH. Chronic migraine: risk factors, mechanisms and treatment. Nat Rev Neurol. 2016;12(8):455-64. PubMed; PMID: 27389092.
  8. Wannmacher L. Temas de enxaqueca – Escolhas racionais. 2010. In: Uso racional de medicamentos: temas relacionados [Internet]. Brasília.
  9. NHS choices. Migraine [Internet]. Reino Unido; 2016 [26 mai 2016; acesso em 26 mar 2017]. Disponível em: <http://www.nhs.uk/Conditions/Migraine/Pages/Prevention.aspx&gt;
  10. Kaczynski KJ, Claar RL, Lebel AA. Relations between pain characteristics, child and parent variables, and school functioning in adolescents with chronic headache: a comparison of tension-type headache and migraine. J Pediatr Psychol. 2013;38(4):351-64. PubMed; PMID: 23248346.
  11. American Migraine Foundation. Preventive Treatments [Internet]. 2016 [acesso em 28 mar 2017]. Disponível em: <https://americanmigrainefoundation.org/understanding-migraine/preventive-treatments/&gt;

 

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Mudanças no estilo de vida para a prevenção e controle de diabetes

por Weverton S Teixeira

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O diabetes mellitus é um conjunto de distúrbios metabólicos caracterizado pelo aumento da quantidade de glicose no sangue (hiperglicemia)1,2. Atualmente, cerca de 420 milhões de adultos no mundo são portadores de diabetes, número quatro vezes maior que o da década de 19802. No Brasil, 8% da população é diabética – são mais de 16 milhões de pessoas2. O diabetes mellitus pode ser classificado em tipo 1, tipo 2, gestacional e outros2,3. O diabetes mellitus tipo 1 é autoimune, pois as células de defesa do organismo destroem as células do pâncreas que produzem e secretam insulina e, por isso, o paciente diabético necessita de doses diárias desse hormônio2,3. No diabetes mellitus tipo 2, a insulina secretada é insuficiente ou não consegue promover a entrada de glicose nas células, caracterizando resistência à insulina3. Já o diabetes gestacional acontece porque a gestante apresenta alterações hormonais que podem levar à resistência à insulina e, se não tratada, pode causar problemas para a mãe e o bebê, como crescimento excessivo (macrossomia fetal), parto traumático e hipoglicemia neonatal3,4. Os principais sintomas de diabetes são: sede excessiva; grande volume de urina, com aumento na frequência urinária; perda de peso; fraqueza; sonolência; dormência e formigamento nas mãos e nos pés2,3.

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Fonte: SBD, 2015-2016 (4)

O diagnóstico de diabetes é realizado por exames que medem a glicemia (concentração de glicose no sangue).  Atualmente, o critério preferencial para o diagnóstico é o exame da hemoglobina glicada. Ele avalia a quantidade de glicose ligada às hemácias por aproximadamente três meses antes do exame, sendo por isso, mais confiável. Outros exames também são aceitos para diagnóstico de diabetes, como o teste de tolerância a glicose (glicemia pós-prandial – medição da glicemia duas horas após a ingestão de 75 gramas de glicose), glicemia casual e glicemia de jejum4. Assim, caso haja alteração na quantidade de glicose no sangue do paciente, ele pode ser classificado como pré-diabético ou diabético. O paciente é considerado pré-diabético quando a glicemia em jejum está entre 100 e 125 mg/dL ou entre 140 e 199 mg/dL no teste de tolerância2,4. Para esse paciente não é necessário iniciar tratamento medicamentoso, pois dieta e exercícios físicos podem ser suficientes para diminuir a glicemia3,4,5. Ao reduzir o consumo de carboidratos e lipídios, diminui-se a quantidade de glicose no sangue e os exercícios físicos aumentam a captação de glicose pelos músculos, diminuindo a resistência à insulina3,4. Quando a glicemia de jejum é maior ou igual a 126 mg/dL ou o teste de tolerância à glicose é superior a 200 mg/dL, o paciente é classificado como diabético4. Nesse caso pode ser necessário tratamento medicamentoso, além da alimentação saudável e prática de exercícios físicos, que devem ser recomendadas por profissionais de saúde4.

Em um estudo com duração de quatro anos, mais de três mil pessoas com índices glicêmicos entre 95 e 125 mg/dL em jejum, e 140 a 199 mg/dL após o teste de tolerância à glicose foram acompanhadas para avaliar a incidência (ocorrência de novos casos) de diabetes. Todos os participantes foram aconselhados sobre hábitos alimentares saudáveis e prática regular de exercícios físicos. Apesar da metformina não ser a primeira opção de tratamento para pacientes pré-diabéticos*, o estudo propõe comparar os benefícios do uso do medicamento e mudanças no estilo de vida na prevenção do diabetes. Os pacientes foram divididos em três grupos: 1) tratado com metformina (medicamento antidiabético); 2) tratado com placebo (comprimido sem a substância ativa); e 3) tratado com mudança intensa no estilo de vida, com prática de atividade física por pelo menos 150 minutos por semana e uma dieta com baixo índice calórico.

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Fonte: Knowler, et al, 2002 (5)

 O grupo que mudou o estilo de vida apresentou menor incidência de diabetes (4,8 casos a cada 100 pessoas/ano), seguido pelo grupo tratado com metformina (7,8 casos a cada 100 pessoas/ano)5. Por último, o grupo tratado com placebo apresentou incidência de 11 casos a cada 100 pessoas/ano. Dessa forma, melhorando os hábitos alimentares e praticando atividade física regular, é possível prevenir ou retardar o aparecimento do diabetes e, provavelmente, minimizar os riscos das complicações. Além de apresentar o melhor controle da glicemia, os participantes do grupo que mudaram o estilo de vida tiveram maior perda de peso corporal5.

Incluir hábitos saudáveis e controlar o peso corporal são medidas importantes para prevenir o diabetes.  Caso sinta algum sintoma, procure a Unidade Básica de Saúde (UBS) mais próxima para avaliação. Relate ao médico informações importantes, como sintomas e histórico familiar de diabetes. Se a glicemia estiver acima dos níveis normais, procure informações com profissionais de saúde sobre os hábitos alimentares que podem auxiliar no controle da glicemia e a possibilidade de praticar exercícios físicos. Cuide da sua saúde e faça exames laboratoriais periodicamente, caso já tenha apresentando alguma alteração da glicemia.

* em pacientes pré-diabéticos com sobrepeso ou obesidade, a metformina pode ser usada como tratamento inicial.

Referências:

1 Powers AC, D’Alessio D. Pãncreas endócrino e farmacoterapia do diabetes melito e da hipoglicemia. As bases farmacológicas da terapêutica de Goodman & Gilman. 12ª edição; 2012. p. 1237-1273.

2 World Health Organization (WHO). Genebra. Diabetes. Acesso em 2017 jan 26. Disponível em: http://www.who.int/diabetes

3 Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Estados Unidos. Acesso em 2017 jan 26. Disponível em: http://www.cdc.gov/diabetes/home/index.html

4 Sociedade Brasileira de Diabetes. Diretrizes da Sociedade Brasileira de Diabetes. 2015-2016.

5 Knowler WC et al. Reduction in the incidence of type 2 diabetes with lifestyle intervention or metformin. N Engl J Med. 2002 fev; 346 (6): 393-403.