Como utilizar corretamente os inaladores empregados no tratamento da asma?

por Alícia Amanda Moreira Costa

A asma é uma doença crônica que afeta as vias aéreas e o pulmão, acometendo cerca de 334 milhões de pessoas no mundo1. Tem como principais sintomas a dificuldade respiratória, tosse seca, chiado ou ruído no peito e ansiedade (provocada pela respiração dificultada). Isso ocorre porque os brônquios do paciente com asma são mais sensíveis e tendem a reagir de forma mais intensa quando há exposição aos diferentes fatores desencadeadores da doença como frio, mudança climática, infecção viral, fumaça, ácaros ou fungos, pólen, pelo de animais e odores fortes2,3 (Leia mais sobre a asma).

O tratamento da asma, se realizado corretamente, ameniza os sintomas e proporciona o controle da doença a fim de que ela não prejudique a qualidade de vida do paciente4. O tratamento medicamentoso é baseado na terapia em longo prazo com fármacos anti-inflamatórios esteroides (corticoides) e também no uso de medicamentos broncodilatadores5. Os anti-inflamatórios esteroides atuam controlando o processo inflamatório desencadeado pela doença e os broncodilatadores provocam relaxamento do músculo liso das vias aéreas, resultando em um bom controle dos sintomas6.

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A via inalatória é a preferencial para a administração dos medicamentos antiasmáticos7. Contudo, estima-se que 70% a 90% dos pacientes não utilizam corretamente os medicamentos inalatórios e isso pode fazer com que o usuário não receba a dose adequada para que o tratamento seja efetivo8,9. Os erros mais comuns no uso de inaladores (“bombinhas”) estão associados ao posicionamento do inalador, força ou velocidade de inspiração insuficiente para inalar o medicamento, falha na remoção da tampa e comprometimento da dosagem após o inalador ter sido agitado ou derrubado9. Dessa forma, é importante que o paciente receba orientação profissional adequada, cabendo ao farmacêutico, por exemplo, instruir e demonstrar aos pacientes a técnica correta do uso do inalador. Pedir ao paciente que ele demonstre como ele compreendeu as orientações pode ser útil para identificar e corrigir possíveis falhas na compreensão das instruções dadas no momento da dispensação do medicamento.

Elaboramos um passo a passo para a utilização adequada de alguns modelos de inaladores (Figura 1 e 2). No entanto, isso não dispensa a orientação de um profissional de saúde. Além disso, o uso de espaçadores pode ser recomendado para garantir a administração correta do medicamento. Se esse for o seu caso, peça orientações ao farmacêutico ou ao médico sobre como usar corretamente esse dispositivo. Fique atento!

Figuras 1 e 2 – Técnicas de inalação para cada tipo de inalador 10.

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Além de utilizar corretamente os inaladores, alguns cuidados básicos devem ser tomados para evitar o contato com fatores desencadeadores das crises e, assim, contribuir para o sucesso do tratamento (Figura 3).

Figura 3 – Cuidados com a casa para evitar desencadeamento de crises de asma 11.

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Referências:

1 The Global Asthma Report 2014. Disponível em: http://www.globalasthmareport.org/burden/burden.php

2 Ministério da Saúde. Asma atinge 6,4 milhões de brasileiros. Brasília; 2015. Acesso em 15 de maio de 2017. Disponível em: http://www.blog.saude.gov.br/35040-asma-atinge-6-4-milhoes-de-brasileiros.html

3 Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Básica. Norma técnica do caderno de atenção básica, n.25. Brasília; 2010. Acesso em 15 de maio de 2017. Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/doencas_respiratorias_cronicas.pdf

4 Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia. Asma. Brasília. Acesso em 15 de maio de 2017. Disponível em: https://sbpt.org.br/espaco-saude-respiratoria-asma/.

5 Ministério da Saúde. Formulário terapêutico nacional 2010: RENAME 2010. 2 ed. Brasília; 2011. Parte II, Seção B; p. 283-292. Acesso em 23/05/2017. Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/formulario_terapeutico_nacional_2010.pdf

6 Barnes PJ. Farmacologia pulmonar. As bases farmacológicas da terapêutica de Goodman & Gilman. 12 ed. AMGH. Porto Alegre; 2012. p. 1031-1065.

7 Fuchs FD e Wannmacher L. Farmacologia Clínica. Fundamentos da terapêutica racional. 4 ed. Guanabara Koogan. Rio de Janeiro; 2010. p. 947-964.

8 NPS Medicinewise. In my practice: inhaler technique – it’s a repeat prescription. Australia; 2016. Acesso em 12 de maio de 2017. Disponível em: https://www.nps.org.au/medical-info/clinical-topics/news/in-my-practice-inhaler-technique-it-s-a-repeat-prescription

9 Price DB, Román-Rodríguez M, McQueen RB et al. Inhaler errors in the CRITIKAL Study: type, frequency, and association with asthma outcomes. Journal of Allergy and Clinical Immunology In Practice 2017. Acesso em 9 de junho de 2017. DOI: 10.1016/j.jaip.2017.01.004

10 National Asthma Council Australia. Inhaler Technique Checklists. Acesso em 3 de maio de 2017. Disponível em: https://www.nationalasthma.org.au/living-with-asthma/resources/health-professionals/charts/inhaler-technique-checklists

11 National Asthma Council Australia. Creating a healthy home. Acesso em 15 de maio de 2017. Disponível em: https://www.nationalasthma.org.au/living-with-asthma/creating-a-healthy-home

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Garcinia cambogia e sua utilização no auxílio à perda de peso

por Lívia Juliana Reis Duarte

Recebemos em nossas redes sociais o seguinte questionamento:

Como funciona a Garcinia cambogia, um fitoterápico que é vendido sem prescrição médica e auxilia na perda de peso? Quais são as contraindicações para o seu uso?

Com o objetivo de responder a essas questões, e por julgarmos ser um assunto de interesse de outros leitores, decidimos aprofundar a discussão sobre o tema.

A obesidade atinge aproximadamente 20% dos adultos no Brasil e cerca de 50% apresentam sobrepeso1. Essas condições estão associadas ao desenvolvimento de diabetes, hipertensão, dislipidemia e doenças cardiovasculares, além de incapacidade funcional e consequente redução da qualidade e expectativa de vida2.

Vários tratamentos são oferecidos para a perda de peso, sejam eles baseados em reeducação alimentar, intervenções medicamentosas ou ambos. Os fitoterápicos, medicamentos contendo uma ou mais drogas vegetais como princípios ativos, são comumente utilizados nesses tratamentos. Assim como os medicamentos convencionais, os fitoterápicos devem apresentar registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), atendendo aos mesmos critérios de qualidade, eficácia e segurança3,4. Portanto, é importante estar atento a essas questões ao adquirir esses produtos.

Fonte: Google Imagens

A Garcinia cambogia é uma espécie vegetal contida em fitoterápicos utilizados para perda de peso. Seu funcionamento está associado ao ácido hidroxicítrico, cujo mecanismo de ação ainda não foi completamente esclarecido. Sugere-se que a sua ação ocorra ao diminuir a formação de tecido adiposo (lipogênese), reduzir o metabolismo de carboidratos, aumentar a degradação de gordura no corpo (lipólise) e a serotonina disponível no cérebro, induzindo a diminuição do apetite5. Contudo, os estudos com Garcinia cambogia não demonstraram eficácia como emagrecedor.

Um estudo comparando Garcinia cambogia e soja (Glycine max) foi realizado com 86 participantes com sobrepeso (Índice de Massa Corporal – IMC entre 23 e 29 kg/m2). Os participantes foram divididos aleatoriamente em três grupos que foram tratados com placebo (comprimido sem substância ativa), extrato de Garcinia cambogia ou extrato de folhas de soja, na posologia de 2000 mg/dia. Após 10 semanas de avaliação não foi observada perda significativa de peso ou redução do IMC nos três grupos de estudo. Ao final do tratamento, houve uma variação menor que 1 kg no peso corporal e menor que 1 kg/m2 no IMC dos participantes que fizeram o uso do fitoterápico. O colesterol também foi avaliado e concluiu-se que em nenhum dos grupos houve diminuição nos níveis de colesterol LDL, popularmente conhecido como “colesterol ruim”6.

Outro estudo avaliou Garcinia cambogia comparada ao placebo em 135 pacientes com sobrepeso ou obesos (IMC acima de 30 kg/m²), e nele observou-se que o fitoterápico não apresentou resultado superior ao placebo. A porcentagem de perda de gordura corporal no grupo tratado com placebo foi de 2,16%, enquanto o grupo tratado com Garcinia cambogia teve perda de 1,44%. Foram observados alguns efeitos adversos como cefaleia, sintomas no trato respiratório superior e no trato gastrointestinal em ambos os grupos7.

Além disso, a Garcinia cambogia é contraindicada para pessoas que apresentam hipersensibilidade à substância, e não deve ser utilizada durante a gravidez ou lactação, devido à falta de estudos que possam garantir a segurança do medicamento nessas condições. Pacientes diabéticos que fazem uso desse medicamento devem monitorar regularmente as taxas de glicose, devido ao possível risco de oscilações na glicemia associado ao extrato da planta8. Há também relatos isolados de danos ao fígado relacionados ao fitoterápico8,9.

Medicamentos contendo Garcinia cambogia possuem tarja vermelha, ou seja, devem ser vendidos apenas mediante apresentação de prescrição médica. Porém, como não há retenção da receita na farmácia ou drogaria, sua dispensação é facilitada, podendo levar ao uso inadequado10. É importante lembrar que a aquisição de qualquer medicamento deve ser feita apenas em estabelecimentos regulamentados, já que uma substância de procedência desconhecida pode prejudicar o tratamento e a saúde do paciente. Além disso, é preciso ter cuidado com produtos que contenham Garcinia cambogia de forma irregular, pois ela deve ser comercializada apenas como medicamento fitoterápico. Esse alerta é importante, pois recentemente o extrato da planta foi encontrado em alimentos, o que desencadeou a suspensão da comercialização desses produtos pela Anvisa (Leia mais).

Assim como a Garcinia cambogia, outras plantas da mesma família, além de outros produtos naturais, são frequentemente utilizados indiscriminadamente pela população e, muitas vezes, não há comprovação dos benefícios e conhecimento sobre os riscos associados ao uso. O uso milenar e corriqueiro de plantas medicinais e o entendimento popular de que produtos naturais não fazem mal a saúde faz com que, culturalmente, reações adversas não sejam relacionadas aos fitoterápicos. Porém, assim como os medicamentos convencionais, existem riscos de reações adversas, alergias, intoxicações e interações medicamentosas que podem alterar os efeitos esperados e causar danos à saúde do paciente11. Esse assunto já foi tema de nossos textos anteriormente, eles podem ser acessados nos links citados abaixo.

O acompanhamento profissional é indispensável, tanto para garantia de bons resultados quanto para a segurança de um tratamento adequado ao paciente. Vale ressaltar que as medidas não farmacológicas devem ser a primeira escolha para a perda de peso. Atividade física e reeducação alimentar, acompanhados por profissionais de saúde, continuam sendo a recomendação essencial, reservando-se os tratamentos com medicamentos para situações muito específicas.

Leia também os textos relacionados do Cemed

 O que vem da natureza não faz mal?

https://cemedmg.wordpress.com/tag/medicamentos-fitoterapicos/

Desafios na produção nacional de fitoterápicos

https://cemedmg.wordpress.com/2013/06/20/desafios-da-producao-nacional-de-fitoterapicos-2/

Referências:

  1. Ministério da Saúde. Vigitel 2014: Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico [Internet]. Brasília: Ministério da Saúde; 2015 [acesso em: 2017 maio 09]. Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/vigitel_brasil_2014.pdf
  2. Calle EE, Thun MJ, Petrelli JM, Rodriguez C, Heath CW Jr. Body-Mass Index and Mortality in a Prospective Cohort of U.S. Adults. N Engl J Med. 1999 out 7;341:1097-1105. DOI: http://dx.doi.org/10.1056/NEJM199910073411501
  1. Gerência de Medicamentos Isentos, Específicos, Fitoterápicos e Homeopáticos. Fitoterápicos [Internet]. [acesso em 2017 mar 20]. Disponível em: http://www.anvisa.gov.br/medicamentos/fitoterapicos/poster_fitoterapicos.pdf
  2. Assessoria de Imprensa da Anvisa. Emagrecedores Fitoterápicos [Internet]. [acesso em 2017 mar 31]. Disponível em: http://portal.anvisa.gov.br/informacoes-tecnicas13?p_p_id=101_INSTANCE_FXrpx9qY7FbU&p_p_col_id=column-2&p_p_col_pos=1&p_p_col_count=2&_101_INSTANCE_FXrpx9qY7FbU_groupId=219201&_101_INSTANCE_FXrpx9qY7FbU_urlTitle=emagrecedores-fitoterapicos&_101_INSTANCE_FXrpx9qY7FbU_struts_action=%2Fasset_publisher%2Fview_content&_101_INSTANCE
  3. Hung SK, Perry R, Wider B, Ernst The Use of Garcinia Extract (Hydroxycitric Acid) as a Weight loss Supplement: A Systematic Review and Meta-Analysis of Randomised Clinical Trials. J Obes; 2001; 2011:509038. DOI: http://dx.doi.org/10.1155/2011/509038
  4. Kim JE, Jeon SM, Park KH, Lee WS, Jeong TS, McGregor RA, Choi MS. Does Glycine max leaves or Garcinia Cambogia promote weight-loss or lower plasma cholesterol in overweight individuals: a randomized control trial. Nutr J. 2011 set 21: 10; 94-105. DOI: http://dx.doi.org/10.1186/1475-2891-10-94
  5. Heymsfield SB, Allison DB, Vasselli JR, Pietrobelli A, Greenfield D, Nunez C.Garcinia cambogia (Hydroxycitric Acid) as a Potential Antiobesity Agent A Randomized Controlled Trial. 1998 nov 11; 280(18):1596-1600. DOI: http://dx.doi.org/10.1001/jama.280.18.1596
  6. Fookes C. Garcinia Cambogia [Internet]. Drugs.com: 2016 maio 11. [acesso em 2017 jun 5]. Disponível em: https://www.drugs.com/garcinia-cambogia.html
  7. García-Cortés M, Robles-Díaz M, Ortega-Alonso A, Medina-Caliz I, Andrade RJ. Hepatotoxicity by Dietary Supplements: A Tabular Listing and Clinical Characteristics. Int J Mol Sci. 2016 abril. 17(4):537. DOI: http://dx.doi.org/10.3390/ijms17040537
  1. O que devemos saber sobre medicamentos [Internet]. [acesso em 2017 abril 1]. Disponível em: https://www.google.com.br/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=6&cad=rja&uact=8&ved=0ahUKEwjMlqfT_s_TAhWBC5AKHcC0AWoQFghDMAU&url=http%3A%2F%2Fwww.vigilanciasanitaria.sc.gov.br%2Findex.php%2Fdownload%2Fcategory%2F112-medicamentos%3Fdownload%3D102%3Acartilha-o-que-devemos-saber-sobre-medicamentos-anvisa&usg=AFQjCNFqVCkyeZP5GqJK9Ko6EaPNzHmG_A&sig2=0OrAUFPSL4Sqxp0RzzP29A
  2. Silveira PF, Bandeira MAM, Arrais PSD. Farmacovigilância e reações adversas às plantas medicinais e fitoterápicos: uma realidade. Rev. Bras. Farmacogn. 2008 dez. 18(4): 618-626. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S0102-695X2008000400021