O uso inalatório de anti-inflamatórios esteroides na infância pode retardar o crescimento?

por Paloma Cristina Torres

Asthma1A-770x470Os anti-inflamatórios esteroides (AIEs), também conhecidos como corticoides ou corticosteroides, são análogos sintéticos dos glicocorticoides e mineralocorticoides naturais (hormônios derivados do colesterol) que agem no organismo como reguladores do metabolismo dos carboidratos e do equilíbrio eletrolítico, respectivamente1,2,3.

Os AIEs são amplamente utilizados no tratamento de doenças inflamatórias, alérgicas, imunológicas e reumatológicas1,2. Em crianças e adolescentes, essa classe de medicamentos é bastante usada no tratamento de doenças crônicas, incluindo as respiratórias4. Devido a sua eficácia em suprimir a resposta inflamatória, o uso dos corticosteroides inalatórios (CI) está entre as opções mais importantes usadas no tratamento da asma. Entretanto, existe grande preocupação e incerteza quanto ao possível risco de retardo do crescimento induzido por esses medicamentos5,6,7.

Em uma revisão sistemática foi avaliada a associação entre o uso prolongado dos CI para tratamento da asma e o retardo no crescimento. Foram incluídos na revisão 23 estudos, compreendendo 20 ensaios clínicos randomizados e três estudos observacionais. Cada estudo incluído compreendia no mínimo 20 usuários de cada tipo de corticosteroide inalatório e teve pelo menos 52 semanas de duração. As formulações de CI estudadas foram: beclometasona, budesonida, ciclesonida, flunisolida, fluticasona e mometasona8.

Uma parte dos estudos apresentou diferenças comparativas na velocidade de crescimento (cm/ano) das crianças e outra parte mostrou comparações da altura final de pessoas que fizeram ou não uso de medicamentos na infância para tratamento de asma. Os agentes beclometasona, budesonida e fluticasona foram individualmente associados com reduções significativas na velocidade de crescimento nas comparações feitas com pacientes que não utilizaram corticosteroides. Para outros CI, tais como ciclesonida, flunisolida, ou mometasona, encontrou-se apenas dados dispersos. No geral, o uso dos CI foi associado a leve diminuição do crescimento (-0,48 cm/ano) e a menor altura média na idade adulta (reduzida em 0,7 a 1,2 cm) em comparação aos grupos controle. Sendo assim, observa-se que o impacto no crescimento é aparentemente pouco relevante frente aos benefícios que o tratamento pode proporcionar às crianças que sofrem com asma8.

Outro achado interessante da revisão foi o de que a suscetibilidade aos efeitos adversos dos CI parece ser menos acentuada nas crianças com mais de 10 anos, o que foi um dado consistente em vários ensaios. Observou-se também que os efeitos dos corticosteroides sobre o crescimento são possivelmente relacionados à dose, sendo as doses menores aparentemente menos prejudiciais8.

Portanto, os prescritores devem utilizar a menor dose efetiva ao definirem a terapia para asma com CI, especialmente para as crianças mais jovens, que parecem ser mais suscetíveis aos efeitos adversos9. Ademais, vale lembrar que a suspensão do uso dos anti-inflamatórios esteroides, quando indicada, deve ser feita de maneira gradual, pois, quando feita de forma abrupta pode resultar em hipotensão, choque, taquicardia, náusea, vômito, anorexia, fraqueza, apatia, hipoglicemia, confusão mental e desorientação1,2,4,9.

O tratamento com corticosteroides inalatórios geralmente contribui significativamente para garantir o bem estar de indivíduos com asma. Por isso, os pacientes e seus pais/responsáveis devem estar atentos às técnicas de uso correto desses medicamentos e às orientações de profissionais de saúde para alcançar sucesso no tratamento e evitar eventos adversos.

Referências

  1. Danni Fuchs F, Wannmacher L. Farmacologia clínica fundamentos da terapêutica racional. 4ª edição. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2014. p. 422-434.
  2. Laurence L. Brunton, Bruce A. Chabner, Björn C. Knollmann. As bases farmacológicas da terapêutica de Goodman e Gilman. 12ª edição. Porto Alegre: AMGH; 2012. p. 1031-1065.
  3. Bertram G. Katzung, Anthony J. Trevor. Farmacologia básica e clínica. 12ª edição. Porto Alegre: AMGH; 2014. seção VII.
  4. Abrantes M, Oliveira E, Lamounier J, Cardoso L. A influência dos corticosteroides no crescimento de crianças e adolescentes com síndrome nefrótica. Revista Médica de Minas Gerais (RMMG). 2005; acesso 2018 out 10; 15(2):97-104. Disponível em: http://www.rmmg.org/artigo/detalhes/1439
  5. Morosco G, Kiley J. Guidelines for the diagnosis and management of asthma-summary. Journal of Allergy and Clinical Immunology. 2007; 120(5):94-138. Acesso 2018 out 10. DOI https://doi.org/10.1016/j.jaci.2007.09.029
  6. Brian J. Lipworth. Systemic adverse effects of inhaled corticosteroid therapy a systematic review and meta-analysis. Archives of Internal Medicine. 1999; acesso 2018 out 11; 159(9):941-55. Disponível em: https://jamanetwork.com/journals/jamainternalmedicine/fullarticle/485026
  7. Wong C, Walsh L, Smith C, Wisniewski A, Lewis S, Hubbard R. Inhaled corticosteroids, bone density, and risk of fracture. The Lancet. 2000; 355(9213): 1399-1403. Acesso 2018 out 11. DOI https://doi.org/10.1016/S0140-6736(00)02134-6
  8. Loke Y, Blanco P, Thavarajah M, Wilson A. Journal Plos One 2015. Impact of inhaled corticosteroids on growth in children with asthma: systematic review and meta-analysis. PLOS ONE. 2015; acesso 2018 out 11. DOI https://doi.org/10.1371/journal.pone.0133428
  9. Romanholi D, Salgado L. Síndrome de cushing exógena e retirada de glicocorticoides. Bras. Endocrinol Metab. 2007; acesso 2018 out 10; 51(8):1280-1292. Acesso 2018 out 10. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/abem/v51n8/12.pdf
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