Febre maculosa: transmissão, sintomas, tratamento e prevenção

Aline de Cássia Magalhães

A febre maculosa é uma doença causada por bactérias do gênero Rickettsia, principalmente pela espécie Rickettsia rickettsii. É transmitida através da picada de carrapatos contaminados pela bactéria, que podem ser de diversos gêneros, sendo o principal vetor no Brasil a espécie Amblyomma cajennense, conhecido como “carrapato-estrela”. Apesar de parasitar principalmente equinos, esse carrapato possui pouca especificidade e pode atacar cães, gambás e capivaras (espécies que atuam como reservatórios), além dos humanos1,2,3. É importante ressaltar que não ocorre transmissão pessoa a pessoa, somente por intermédio do carrapato4.

A doença pode variar de quadros leves a graves e possui elevada taxa de letalidade2,3. De acordo com dados disponibilizados pelo Ministério da Saúde, de 2000 a 2016, estima-se que 31,49% dos infectados por febre maculosa foram a óbito. A população da região sudeste foi a mais afetada no Brasil, sendo que dos 1.715 casos confirmados e 540 óbitos, respectivamente 1.256 (73,24%) e 535 (99,07%) foram nessa região5,6.

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O tempo entre a picada do carrapato e o surgimento das primeiras manifestações costuma ser de 2 a 14 dias. Os sintomas iniciais são inespecíficos, como febre alta, dor de cabeça intensa, prostração, náuseas, vômitos e dor muscular. A bactéria se multiplica dentro das células endoteliais de pequenos vasos sanguíneos, causando uma inflamação em suas paredes e gerando também manchas vermelhas como manifestação clínica. Essas manchas são mais presentes nos pulsos e tornozelos, não coçam e podem aumentar na direção das palmas das mãos, solas dos pés e braços. Tal sintoma é o mais importante, porém muitas vezes está ausente, o que dificulta o diagnóstico. Em casos mais graves pode haver delírios, insuficiência renal e gangrena* nas extremidades do corpo2,3,4,7,8.

Caso o indivíduo perceba esses sintomas, deve procurar atendimento médico de imediato. Como as manifestações são muito inespecíficas, o processo de diagnóstico deve considerar o local em que a pessoa reside ou esteve nos últimos dias, já que a transmissão da doença depende da distribuição geográfica do vetor contaminado e da exposição do indivíduo nos locais onde ele se encontra. Para haver confirmação da doença deve-se realizar exames laboratoriais de sangue. Todavia, como o tempo para que o resultado fique pronto é considerado longo frente à gravidade da doença, em casos de suspeita de febre maculosa, o tratamento deve ser iniciado imediatamente2,3,4.

Quanto mais precoce for o início da terapia, maiores são as chances de sucesso e menores as de complicações, com significativa redução da letalidade. O medicamento utilizado é um antibiótico, sendo a doxiciclina o de primeira escolha, independente da gravidade e da faixa etária do paciente, alterando-se somente a dosagem. Caso haja alguma restrição ao uso de doxiciclina, o tratamento com clorafenicol é indicado como alternativa. O tempo da terapia é cerca de sete dias, sendo muito importante a sua manutenção por três dias após o final da febre, ou seja, mesmo sem sintoma é imprescindível que o paciente finalize o tratamento2,3.

Para prevenir a infecção por febre maculosa, deve-se evitar a picada do carrapato, já que não existe vacina. Para isso, é aconselhável usar roupas claras para facilitar a visualização do vetor, utilizar vestimentas e calçados que cubram maior parte do corpo, evitar áreas com vegetação alta, usar repelentes que incluam substâncias contra carrapatos, inspecionar o corpo para verificar a presença de carrapatos e inspecionar também os animais de estimação e administrar carrapaticidas1,3,7. Caso algum carrapato seja encontrado aderido à pele, deve ser retirado com uma pinça sem que seja esmagado, para evitar que as bactérias sejam liberadas. Em seguida, a área da picada deve ser lavada com água e sabão, sendo recomendável higienizar também com álcool1.

Tendo em vista a gravidade da doença, todo caso de febre maculosa é de notificação obrigatória às autoridades de saúde no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) (Portaria de Consolidação nº 4, de 03 de outubro de 2017 – Ministério da Saúde).2,3 A notificação é necessária para que sejam tomadas providências para conter possíveis surtos. Assim, além da sensibilização dos profissionais para diagnóstico precoce da doença e início imediato do tratamento, é importante que haja colaboração entre eles e as autoridades sanitárias para que sejam estabelecidas medidas profiláticas visando a saúde coletiva.

*Gangrena: é uma forma de evolução da morte celular consequente de lesões vasculares em que ocorre desidratação e escurecimento do tecido.9.

Referências

  1. Neves DP, Parasitologia Humana. 11ª edição. Rio de Janeiro: Atheneu; 2005. p. 418-421
  2. Ministério da Saúde. Guia de Vigilância em Saúde. http://portalarquivos2.saude.gov.br/images/pdf/2016/dezembro/31/GVS-Febre-Maculosa.pdf
  3. Ministério da Saúde. Febre Maculosa: causas, sintomas, tratamento, diagnóstico e prevenção. http://www.saude.gov.br/saude-de-a-z/febre-maculosa
  4. Levinson, Warren. Microbiologia médica e imunologia. 10ª edição. Porto Alegre: AMGH; 2011. p. 188-191
  5. Ministério da Saúde. Casos confirmados de febre maculosa. Brasil, Grandes Regiões e Unidades Federadas. 2000 a 2018*. http://portalarquivos2.saude.gov.br/images/pdf/2018/agosto/06/caso-fmb-atualiza—-o-site-01.08.2018.pdf
  6. Ministério da Saúde. Óbitos de febre maculosa. Brasil, Grandes Regiões e Unidades Federadas. 2000-2018*. http://portalarquivos2.saude.gov.br/images/pdf/2018/agosto/06/obito-fmb-01-08-2018.pdf
  7. Rey, Luís. Bases da Parasitologia Médica. 3ª edição. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2010. p. 362-363
  8. Brooks GF, et al. Microbiologia médica de Jawetz, Melnick e Adelberg. 26ª edição. Porto Alegre: AMGH; 2014. p. 349-353
  9. Bogliolo, patologia geral. Editado por Geraldo Brasileiro Filho. 5ª edição. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2013. p. 139
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