Profilaxia pré-exposição (PrEP) ao HIV: entenda essa nova estratégia de prevenção

por Nathália Pacífico de Carvalho

Ao longo das últimas décadas, as características da epidemia de HIV/aids foram transformadas significativamente, especialmente devido à expansão do acesso à terapia antirretroviral¹. Segundo o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (UNAIDS), o número de novos casos de HIV por ano em todo o mundo reduziu em 16% desde 2010, chegando a 1,8 milhão – valor ainda distante da meta acordada em 2016 (menos de 500.000 novas infecções por ano até 2020)². Em alguns países, como no Brasil – cuja política de enfrentamento à epidemia de HIV/aids é reconhecida internacionalmente pela sua formulação e condução – esses números têm sido crescentes³ e chamam atenção para a necessidade de ampliação das estratégias de prevenção.

Nesse contexto, a profilaxia pré-exposição (PrEP) ao HIV aparece como uma alternativa de prevenção adicional que consiste na utilização de antirretrovirais por pessoas não infectadas para redução do risco de aquisição do HIV. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda o uso da PrEP desde 20124 e atualmente sugere que ela seja considerada para todos os indivíduos sob risco substancial de adquirir o vírus5.

Estudos têm constatado a eficácia e a efetividade da PrEP em casais sorodiscordantes (aqueles nos quais somente um dos parceiros vive com HIV), mulheres e homens heterossexuais, homens que fazem sexo com homens, mulheres transgênero e usuários de drogas injetáveis5. Um estudo avaliou os resultados de ensaios controlados por placebo e mostrou que a PrEP reduz em 51% o risco de adquirir a infecção causada pelo HIV6. Em um desses ensaios7, realizado com homens que fazem sexo com homens, a redução do risco de infecção chegou a 92% para aqueles que tiveram fármacos que compõem a PrEP detectados no sangue, em relação aos que não tiveram. Nesse e na maioria dos estudos, a adesão (uso correto e regular do medicamento) foi um fator crítico para o alcance de maiores níveis de eficácia e efetividade6.

A PrEP é composta por dois fármacos antirretrovirais já utilizados há anos no tratamento da infecção causada pelo vírus HIV: o tenofovir e a emtricitabina. A via de administração mais amplamente estudada é a oral (comprimido). No caso do uso contínuo, a proteção tem início a partir do sétimo dia de utilização da PrEP para exposição por relação anal e a partir do 20º dia para exposição por relação vaginal8.

Com relação ao perfil de segurança da PrEP, os principais efeitos adversos observados foram náusea, vômito e diarreia, mais comuns no primeiro mês de uso9. Outros sintomas reportados com o uso do medicamento foram tontura, cefaleia, fadiga, perda de peso, tosse, ansiedade, febre, falta de ar, dor articular e dor muscular. O tenofovir pode causar toxicidade renal e redução da densidade mineral óssea, mas estudos mostraram que essas alterações foram reversíveis após a retirada da PrEP6,9. O risco de resistência aos fármacos que compõem a PrEP também é uma questão relevante de segurança: ele existe se uma pessoa que inicia o uso da profilaxia apresenta infecção pelo HIV não identificada9. Por isso a testagem periódica é importante8.

É importante ressaltar que a PrEP compõe um conjunto amplo de medidas de prevenção e, portanto, não substitui o uso de preservativos. Além da possibilidade de falha na proteção contra o HIV, a intervenção não previne o risco de aquisição de outras infecções sexualmente transmissíveis (IST)5. Esse ponto torna-se ainda mais relevante em um contexto no qual se observa elevação do número de casos de sífilis10 e o aumento da resistência de alguns agentes patológicos, especialmente o causador da gonorreia11.

A PrEP já foi regulamentada e incorporada em diversos países, e em muitos deles seu uso tem sido monitorado para avaliação de sua efetividade na população. No Brasil, com a incorporação do tenofovir associado à emtricitabina como PrEP12 e com a publicação de seu Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas no Sistema Único de Saúde (SUS)13, há previsão de que a PrEP seja ofertada pelo SUS em breve em algumas cidades. O Protocolo8 descreve as populações prioritárias para o uso dessa intervenção e, em conformidade com a recomendação da OMS5, ressalta que o pertencimento a um dos grupos prioritários (homens que fazem sexo com homens, profissionais do sexo, pessoas trans e parcerias sorodiscordantes para o HIV) não é suficiente para caracterizar o risco dos indivíduos. Para isso, pontua-se a importância de se avaliar critérios individuais de comportamento de risco e os contextos associados a maiores chances de exposição ao vírus.

A profilaxia deve ser utilizada no Brasil por um número estimado de sete mil pessoas no primeiro ano de implementação, segundo o relatório de recomendação da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (CONITEC)14. O custo da profilaxia para essas sete mil pessoas deve chegar a US$1,9 milhão, conforme proposta da Gilead Sciences, indústria farmacêutica que produz o Truvada® (tenofovir+emtricitabina). Versões genéricas do Truvada® já são utilizadas em alguns países e poderiam reduzir os custos da PrEP e ampliar o acesso a essa intervenção, que pode compor uma retomada ao enfrentamento da epidemia de HIV/aids.

 Infográfico PrEP 130917

Referências bibliográficas:

  1. Baggaley R, Dalal S, Johnson C, Macdonald V, Mameletzis I, Rodolph M, et al. Beyond the 90-90-90: refocusing HIV prevention as part of the global HIV response. J Int AIDS Soc. 2016;19(1):21348.
  2. Joint United Nations Program on HIV/AIDS (UNAIDS). Ending AIDS: progress towards the 90-90-90 targets – Global AIDS update. Geneva, Switzerland, 2017. Disponível em: http://www.unaids.org/sites/default/files/media_asset/Global_AIDS_update_2017_en.pdf. Acesso em: 25/08/2017.
  3. Brasil. Ministério da Saúde. Departamento de IST, Aids e Hepatites Virais. Boletim Epidemiológico – HIV e Aids. Brasília, 2016. Disponível em: http://www.aids.gov.br/pt-br/pub/2016/boletim-epidemiologico-de-aids-2016. Acesso em: 21/08/2017.
  4. World Health Organization (WHO). Guidance on oral pre-exposure prophylaxis (PrEP) for serodiscordant couples, men and transgender women who have sex with men at high risk of HIV: recommendations for use in the context of demonstration projects. Geneva, Switzerland, 2012. Disponível em: http://www.who.int/hiv/pub/guidance_prep/en/. Acesso em 21/08/2017.
  5. World Health Organization (WHO). Consolidated guidelines on the use of antiretroviral drugs for treating and preventing HIV infection: recommendations for a public health approach. Geneva, Switzerland, 2016. Disponível em: http://www.who.int/hiv/pub/arv/arv-2016/en/. Acesso em 21/08/2017.
  6. Fonner VA, Dalglish SL, Kennedy CE, Baggaley R, O’Reilly KR, Koechlin FM, et al. Effectiveness and safety of oral HIV preexposure prophylaxis for all populations. AIDS. 2016;30(12):1973-83.
  7. Grant RM, Lama JR, Anderson PL, McMahan V, Liu AY, Vargas L, et al. Preexposure chemoprophylaxis for HIV prevention in men who have sex with men. N Engl J Med. 2010;363(27):2587-99.
  8. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância, Prevenção e Controle das Infecções Sexualmente Transmissíveis, do HIV/Aids e das Hepatites Virais. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para profilaxia pré-exposição (PrEP) de risco à infecção pelo HIV. Brasília, 2017. Disponível em: http://www.aids.gov.br/pt-br/pub/2017/protocolo-clinico-e-diretrizes-terapeuticas-para-profilaxia-pre-exposicao-prep-de-risco. Acesso em: 21/08/2017.
  9. Tetteh RA, Yankey BA, Nartey ET, Lartey M, Leufkens HG, Dodoo AN. Pre-Exposure Prophylaxis for HIV Prevention: Safety Concerns. Drug Saf. 2017;40(4):273-83.
  10. Ostetti V, Almeida R. Os números da epidemia de sífilis no Brasil. Nexo [Internet]. 2017. DIsponível em: https://www.nexojornal.com.br/grafico/2017/06/30/Os-n%C3%BAmeros-da-epidemia-de-s%C3%ADfilis-no-Brasil. Acesso em: 21/08/2017.
  11. Resistência a remédios leva OMS a mudar diretrizes para tratamento de sífilis, clamídia e gonorreia. [Internet]. 2016. Nações Unidas no Brasil (ONUBR). Disponível em: https://nacoesunidas.org/resistencia-a-remedios-leva-oms-a-mudar-diretrizes-para-tratamento-de-sifilis-clamidia-e-gonorreia/. Acesso em: 21/08/2017.
  12. Brasil. Ministério da Saúde. Portaria nº 21, de 25 de maio de 2017. Torna pública a decisão de incorporar o tenofovir associado a entricitabina (TDF/FTC 300/200mg) como profilaxia pré-exposição (PrEP) para populações sob maior risco de adquirir o vírus da imunodeficiência humana (HIV), no âmbito do Sistema Único de Saúde – SUS. Diário Oficial da União. 2017 maio 29; Seção 1. p. 73. Disponível em: http://www.aids.gov.br/es/node/64503. Acesso em 21/08/2017.
  13. Brasil. Ministério da Saúde. Portaria nº 22, de 25 de maio de 2017. Torna pública a decisão de aprovar o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da profilaxia pré-exposição de risco à infecção pelo HIV (PrEP), no âmbito do Sistema Único de Saúde – SUS. Diário Oficial da União. 2017 maio 29; Seção 1. p. 73. Disponível em: http://www.aids.gov.br/es/node/64504. Acesso em 21/08/2017.
  14. Brasil. Ministério da Saúde. Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (CONITEC). Relatório de recomendação: Tenofovir associado a entricitabina (TDF/FTC 300/200mg) como profilaxia pré-exposição (PrEP) para populações sob maior risco de adquirir o vírus da imunodeficiência humana (HIV). Brasília, 2017. Disponível em: http://conitec.gov.br/images/Relatorios/2017/Recomendacao/Relat%C3%B3rio_TenofovirEntricitabina_PREP_Recomendacao_2017.pdf. Acesso em: 21/08/2017.

 

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