Garcinia cambogia e sua utilização no auxílio à perda de peso

por Lívia Juliana Reis Duarte

Recebemos em nossas redes sociais o seguinte questionamento:

Como funciona a Garcinia cambogia, um fitoterápico que é vendido sem prescrição médica e auxilia na perda de peso? Quais são as contraindicações para o seu uso?

Com o objetivo de responder a essas questões, e por julgarmos ser um assunto de interesse de outros leitores, decidimos aprofundar a discussão sobre o tema.

A obesidade atinge aproximadamente 20% dos adultos no Brasil e cerca de 50% apresentam sobrepeso1. Essas condições estão associadas ao desenvolvimento de diabetes, hipertensão, dislipidemia e doenças cardiovasculares, além de incapacidade funcional e consequente redução da qualidade e expectativa de vida2.

Vários tratamentos são oferecidos para a perda de peso, sejam eles baseados em reeducação alimentar, intervenções medicamentosas ou ambos. Os fitoterápicos, medicamentos contendo uma ou mais drogas vegetais como princípios ativos, são comumente utilizados nesses tratamentos. Assim como os medicamentos convencionais, os fitoterápicos devem apresentar registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), atendendo aos mesmos critérios de qualidade, eficácia e segurança3,4. Portanto, é importante estar atento a essas questões ao adquirir esses produtos.

Fonte: Google Imagens

A Garcinia cambogia é uma espécie vegetal contida em fitoterápicos utilizados para perda de peso. Seu funcionamento está associado ao ácido hidroxicítrico, cujo mecanismo de ação ainda não foi completamente esclarecido. Sugere-se que a sua ação ocorra ao diminuir a formação de tecido adiposo (lipogênese), reduzir o metabolismo de carboidratos, aumentar a degradação de gordura no corpo (lipólise) e a serotonina disponível no cérebro, induzindo a diminuição do apetite5. Contudo, os estudos com Garcinia cambogia não demonstraram eficácia como emagrecedor.

Um estudo comparando Garcinia cambogia e soja (Glycine max) foi realizado com 86 participantes com sobrepeso (Índice de Massa Corporal – IMC entre 23 e 29 kg/m2). Os participantes foram divididos aleatoriamente em três grupos que foram tratados com placebo (comprimido sem substância ativa), extrato de Garcinia cambogia ou extrato de folhas de soja, na posologia de 2000 mg/dia. Após 10 semanas de avaliação não foi observada perda significativa de peso ou redução do IMC nos três grupos de estudo. Ao final do tratamento, houve uma variação menor que 1 kg no peso corporal e menor que 1 kg/m2 no IMC dos participantes que fizeram o uso do fitoterápico. O colesterol também foi avaliado e concluiu-se que em nenhum dos grupos houve diminuição nos níveis de colesterol LDL, popularmente conhecido como “colesterol ruim”6.

Outro estudo avaliou Garcinia cambogia comparada ao placebo em 135 pacientes com sobrepeso ou obesos (IMC acima de 30 kg/m²), e nele observou-se que o fitoterápico não apresentou resultado superior ao placebo. A porcentagem de perda de gordura corporal no grupo tratado com placebo foi de 2,16%, enquanto o grupo tratado com Garcinia cambogia teve perda de 1,44%. Foram observados alguns efeitos adversos como cefaleia, sintomas no trato respiratório superior e no trato gastrointestinal em ambos os grupos7.

Além disso, a Garcinia cambogia é contraindicada para pessoas que apresentam hipersensibilidade à substância, e não deve ser utilizada durante a gravidez ou lactação, devido à falta de estudos que possam garantir a segurança do medicamento nessas condições. Pacientes diabéticos que fazem uso desse medicamento devem monitorar regularmente as taxas de glicose, devido ao possível risco de oscilações na glicemia associado ao extrato da planta8. Há também relatos isolados de danos ao fígado relacionados ao fitoterápico8,9.

Medicamentos contendo Garcinia cambogia possuem tarja vermelha, ou seja, devem ser vendidos apenas mediante apresentação de prescrição médica. Porém, como não há retenção da receita na farmácia ou drogaria, sua dispensação é facilitada, podendo levar ao uso inadequado10. É importante lembrar que a aquisição de qualquer medicamento deve ser feita apenas em estabelecimentos regulamentados, já que uma substância de procedência desconhecida pode prejudicar o tratamento e a saúde do paciente. Além disso, é preciso ter cuidado com produtos que contenham Garcinia cambogia de forma irregular, pois ela deve ser comercializada apenas como medicamento fitoterápico. Esse alerta é importante, pois recentemente o extrato da planta foi encontrado em alimentos, o que desencadeou a suspensão da comercialização desses produtos pela Anvisa (Leia mais).

Assim como a Garcinia cambogia, outras plantas da mesma família, além de outros produtos naturais, são frequentemente utilizados indiscriminadamente pela população e, muitas vezes, não há comprovação dos benefícios e conhecimento sobre os riscos associados ao uso. O uso milenar e corriqueiro de plantas medicinais e o entendimento popular de que produtos naturais não fazem mal a saúde faz com que, culturalmente, reações adversas não sejam relacionadas aos fitoterápicos. Porém, assim como os medicamentos convencionais, existem riscos de reações adversas, alergias, intoxicações e interações medicamentosas que podem alterar os efeitos esperados e causar danos à saúde do paciente11. Esse assunto já foi tema de nossos textos anteriormente, eles podem ser acessados nos links citados abaixo.

O acompanhamento profissional é indispensável, tanto para garantia de bons resultados quanto para a segurança de um tratamento adequado ao paciente. Vale ressaltar que as medidas não farmacológicas devem ser a primeira escolha para a perda de peso. Atividade física e reeducação alimentar, acompanhados por profissionais de saúde, continuam sendo a recomendação essencial, reservando-se os tratamentos com medicamentos para situações muito específicas.

Leia também os textos relacionados do Cemed

 O que vem da natureza não faz mal?

https://cemedmg.wordpress.com/tag/medicamentos-fitoterapicos/

Desafios na produção nacional de fitoterápicos

https://cemedmg.wordpress.com/2013/06/20/desafios-da-producao-nacional-de-fitoterapicos-2/

Referências:

  1. Ministério da Saúde. Vigitel 2014: Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico [Internet]. Brasília: Ministério da Saúde; 2015 [acesso em: 2017 maio 09]. Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/vigitel_brasil_2014.pdf
  2. Calle EE, Thun MJ, Petrelli JM, Rodriguez C, Heath CW Jr. Body-Mass Index and Mortality in a Prospective Cohort of U.S. Adults. N Engl J Med. 1999 out 7;341:1097-1105. DOI: http://dx.doi.org/10.1056/NEJM199910073411501
  1. Gerência de Medicamentos Isentos, Específicos, Fitoterápicos e Homeopáticos. Fitoterápicos [Internet]. [acesso em 2017 mar 20]. Disponível em: http://www.anvisa.gov.br/medicamentos/fitoterapicos/poster_fitoterapicos.pdf
  2. Assessoria de Imprensa da Anvisa. Emagrecedores Fitoterápicos [Internet]. [acesso em 2017 mar 31]. Disponível em: http://portal.anvisa.gov.br/informacoes-tecnicas13?p_p_id=101_INSTANCE_FXrpx9qY7FbU&p_p_col_id=column-2&p_p_col_pos=1&p_p_col_count=2&_101_INSTANCE_FXrpx9qY7FbU_groupId=219201&_101_INSTANCE_FXrpx9qY7FbU_urlTitle=emagrecedores-fitoterapicos&_101_INSTANCE_FXrpx9qY7FbU_struts_action=%2Fasset_publisher%2Fview_content&_101_INSTANCE
  3. Hung SK, Perry R, Wider B, Ernst The Use of Garcinia Extract (Hydroxycitric Acid) as a Weight loss Supplement: A Systematic Review and Meta-Analysis of Randomised Clinical Trials. J Obes; 2001; 2011:509038. DOI: http://dx.doi.org/10.1155/2011/509038
  4. Kim JE, Jeon SM, Park KH, Lee WS, Jeong TS, McGregor RA, Choi MS. Does Glycine max leaves or Garcinia Cambogia promote weight-loss or lower plasma cholesterol in overweight individuals: a randomized control trial. Nutr J. 2011 set 21: 10; 94-105. DOI: http://dx.doi.org/10.1186/1475-2891-10-94
  5. Heymsfield SB, Allison DB, Vasselli JR, Pietrobelli A, Greenfield D, Nunez C.Garcinia cambogia (Hydroxycitric Acid) as a Potential Antiobesity Agent A Randomized Controlled Trial. 1998 nov 11; 280(18):1596-1600. DOI: http://dx.doi.org/10.1001/jama.280.18.1596
  6. Fookes C. Garcinia Cambogia [Internet]. Drugs.com: 2016 maio 11. [acesso em 2017 jun 5]. Disponível em: https://www.drugs.com/garcinia-cambogia.html
  7. García-Cortés M, Robles-Díaz M, Ortega-Alonso A, Medina-Caliz I, Andrade RJ. Hepatotoxicity by Dietary Supplements: A Tabular Listing and Clinical Characteristics. Int J Mol Sci. 2016 abril. 17(4):537. DOI: http://dx.doi.org/10.3390/ijms17040537
  1. O que devemos saber sobre medicamentos [Internet]. [acesso em 2017 abril 1]. Disponível em: https://www.google.com.br/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=6&cad=rja&uact=8&ved=0ahUKEwjMlqfT_s_TAhWBC5AKHcC0AWoQFghDMAU&url=http%3A%2F%2Fwww.vigilanciasanitaria.sc.gov.br%2Findex.php%2Fdownload%2Fcategory%2F112-medicamentos%3Fdownload%3D102%3Acartilha-o-que-devemos-saber-sobre-medicamentos-anvisa&usg=AFQjCNFqVCkyeZP5GqJK9Ko6EaPNzHmG_A&sig2=0OrAUFPSL4Sqxp0RzzP29A
  2. Silveira PF, Bandeira MAM, Arrais PSD. Farmacovigilância e reações adversas às plantas medicinais e fitoterápicos: uma realidade. Rev. Bras. Farmacogn. 2008 dez. 18(4): 618-626. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S0102-695X2008000400021

Uma breve abordagem sobre o Lúpus Eritematoso Sistêmico

por Claudyane Pinheiro Marinho

Entenda o lúpus

O Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES) é uma doença crônica autoimune. É a forma mais grave e comum do lúpus. Há também outros tipos da doença: lúpus cutâneo, lúpus neonatal e lúpus induzido por medicamentos1,2.

No lúpus, como em outras doenças autoimunes, o sistema imunológico do paciente reconhece estruturas do próprio organismo como corpos estranhos e os anticorpos passam a combatê-las. Dessa forma, há uma resposta equivocada do sistema de defesa e o provável surgimento de inflamações crônicas1,2,3.

O LES pode acometer vários órgãos e sistemas como rins, pulmões e sistema circulatório. Atinge principalmente mulheres com idade entre 15 e 44 anos1,3 e estima-se que a cada 100 mil habitantes no mundo, 20 a 150 pessoas tenham LES4,5,6.

As causas da doença ainda são desconhecidas, mas acredita-se que além de fatores autoimunes, alguns fatores ambientais (como a exposição a determinadas infecções e produtos químicos) e características hereditárias podem estar relacionados à doença 1,3,7.

Diagnóstico e sintomas do LES

Os sintomas mais comuns são febre, cansaço, dores musculares, emagrecimento, sensibilidade ao sol, manchas avermelhadas na pele, entre outros. Dentre os mais graves estão inflamação das articulações, complicações renais e vasculares2,6.

O diagnóstico é baseado nos critérios estabelecidos pelo American College of Rheumatology2, referência mundial em artrite e doenças reumatológicas. Para que seja diagnosticada a doença, o paciente deve apresentar pelo menos quatro dos onze critérios de classificação propostos:

  • Lesão no rosto em forma de asa de borboleta (erupção malar);
  • Lesões avermelhadas, escamosas e arredondadas na pele (erupção cutânea discoide);
  • Erupções na pele quando exposta ao sol (fotossensibilidade);
  • Úlcera oral ou nasofaríngea, geralmente indolor;
  • Artrite – sensibilidade, dor e inchaço em duas ou mais articulações;
  • Inflamação dos pulmões (pleurite) ou do coração (endocardite);
  • Função renal comprometida ou presença de sangue e proteínas na urina;
  • Distúrbios neurológicos – convulsões ou psicose;
  • Distúrbios hematológicos – baixa contagem de determinadas células sanguíneas;
  • Teste positivo para fator/anticorpo antinuclear (FAN) – principal anticorpo responsável pela resposta autoimune do paciente com lúpus, identificado em mais de 95% dos indivíduos com a doença ativa;
  • Distúrbios imunológicos – identificação de outros autoanticorpos2,8,9.

A solicitação de exames específicos, em caso de suspeita de LES, é essencial para detecção e monitoramento das diversas características da doença e dependerá da avaliação do paciente2.

Tratamento não farmacológico

O tratamento não farmacológico é imprescindível em todas as fases e manifestações da doença para melhorar a qualidade de vida do paciente.

Algumas medidas de extrema importância são:

 lupus final

Tratamento farmacológico

O tratamento farmacológico varia de acordo com a gravidade das manifestações em cada paciente e inclui o uso de anti-inflamatórios não esteroides (AINES), antimaláricos, glicocorticoides (anti-inflamatórios esteroides) e imunossupressores. Os AINES são úteis para aliviar sintomas como dor e febre. Os antimaláricos (como cloroquina e hidroxicloroquina) podem reduzir em até 50% a atividade da doença6. Os glicocorticoides (como prednisona) e imunossupressores ajudam no controle de condições inflamatórias mais graves que podem afetar os diversos órgãos e sistemas2,6,9,10. Novos tratamentos com agentes biológicos também tem sido usados no lúpus6.

Acompanhamento

Após o diagnóstico do lúpus, o paciente e sua família devem ser acolhidos e informados por profissionais de saúde sobre o diagnóstico, tratamento, possíveis eventos adversos e outros cuidados necessários2.

O paciente com lúpus deve receber acompanhamento ambulatorial frequente e multiprofissional (com reumatologista, nutricionista, psicólogo, entre outros). Os familiares também devem ser orientados para que entendam a doença e apoiem o paciente, visto que alguns podem apresentar distúrbios psicoemocionais. O tratamento medicamentoso deve ser monitorado para evitar ou minimizar o aparecimento de reações adversas e garantir melhores resultados terapêuticos, principalmente com o uso de glicocorticoides e imunossupressores2. Com os cuidados e tratamento adequados menos complicações poderão surgir, o que acarretará em melhor qualidade de vida ao paciente.

Referências:

  1. Division of Population Health, National Center for Chronic Disease Prevention and Health Promotion, Centers for Disease Control and Prevention. Lupus Basic Fact Sheet. USA. [21 de março de 2017, acesso em 2017 maio 29] Disponível em  https://www.cdc.gov/lupus/basics/index.html
  2. Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde. Portaria n° 100, de 07 de fevereiro de 2013. Aprova o protocolo clínico e diretrizes terapêuticas do lúpus eritematoso sistêmico. Diário Oficial da União. Fev. 2013 [acesso em 2017 maio 29]. Disponível em http://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/sas/2013/prt0100_07_02_2013.html
  3. Maidhof W, Hilas O. Lupus: An Overview of the Disease And Management Options. P T. 2012 Apr; 37 (4): 240-246, 249.
  4. Chakravarty EF, Bush TM, Manzi S, Clarke AE, Ward MM. Prevalence of Adult Systemic Lupus Erythematosus in California and Pennsylvania in 2000: Estimates Using Hospitalization Data-. HSS Author Manuscript. 2008 Sep 5; 56 (6): 2092- 2094.
  5. Pons-Estel G, Alarcón G, Scofield L, Reinlib L, Cooper G. Understanding the Epidemiology and Progression of Systemic Lupus Erythematosus. HSS Author Manuscript. 2010 Feb 1; 39 (4): 257.
  6. Golder V, Hoi A. Systemic lupus erythematosus – an update. MJA. 2017; 206 (5): 215- 220.
  7. Sarzi-Puttini P, Atzeni F, Laccarino L, Doria A. Environment and systemic lupus erythematosus: An overview. NCBI. 2005 Nov; 38(7): 465-72.
  1. Tan E, Cohen A, Fries J, Masi A, McShane D, Rothfield F, Schaller J, Talal N, Winchester R. The 1982 revised criteria for the classification of systemic lupus erythematosus. Arthritis Rheum. 28 NOV 2005; Volume 25, Issue 11.
  2. American College of Rheumatology Committee on Communications and Marketing. Lupus. USA: American College of Rheumatology. [March 2017; acesso em 2017 maio 29]. Disponível em https://www.rheumatology.org/I-Am-A/Patient-Caregiver/Diseases-Conditions/Lupus
  1. Micromedex, Cerner Multum, Wolters Kluwer. Medications for Immunosuppression. [atualizado em 2017 Maio) acesso em 2017 maio 29] Disponível em https://www.drugs.com/condition/immunosuppression.html