Medicamentos usados para o tratamento da calvície

por Ana Luiza Brandão Neiva da Silva

A perda de cabelos afeta grande parte da população e faz com que cada vez mais pessoas busquem tratamento para essa condição. A alopecia androgênica é o tipo mais comum, caracterizada pela perda progressiva de cabelo que se agrava com o avanço da idade. Ela pode afetar até 70% dos homens e, apesar de ser conhecida como “calvície de padrão masculino”, pode afetar até 40% das mulheres1,2.

IMG-20150507-WA0003 (1)O mecanismo responsável pela perda de cabelo ocorre nos folículos pilosos (estrutura que reveste e produz o pelo), onde a diidrotestosterona (potente metabólito ativo do hormônio testosterona) liga-se ao seu receptor e ativa os genes responsáveis pelo comprometimento do crescimento do cabelo2. Atualmente, existem dois fármacos aprovados para o tratamento da calvície: minoxidil e finasterida1,3.

O tratamento com minoxidil

O minoxidil, além de ser aprovado para o tratamento da calvície de padrão masculino, é o único tratamento aprovado para calvície de padrão feminino. Inicialmente, ele foi desenvolvido como um anti-hipertensivo que, quando usado sistemicamente, apresentou o aumento de pelos no corpo (hipertricose) como efeito colateral2,3. Para se explorar esse efeito, foram desenvolvidas formulações tópicas de minoxidil (aplicadas diretamente no couro cabeludo), disponíveis em solução com concentrações de 2% e 5%2,3.

O minoxidil aumenta o tamanho do folículo, resultando em pelos mais grossos. Além disso, estimula e prolonga a fase de crescimento do ciclo do pelo, tendo como resultado pelos mais longos e em maior número. O tratamento deve ser contínuo para que o crescimento induzido pelo fármaco não seja perdido2.

O uso do minoxidil pode causar dermatite de contato alérgica ou irritante2. Deve-se ter cuidado na aplicação do medicamento e os pacientes devem lavar as mãos logo após a aplicação, pois também pode ocorrer crescimento de pelos em lugares indesejados. Essas condições são reversíveis com a interrupção do uso2.

O tratamento com finasterida

A finasterida é um fármaco de administração oral e, portanto, desempenha ação sistêmica3. Nas áreas calvas do couro cabeludo, os níveis de diidrotestosterona encontram-se aumentados e os folículos pilosos diminuídos, assim, a finasterida age inibindo a enzima (5α-redutase tipo II) que converte a testosterona em diidrotestosterona nos folículos pilosos2.

O fármaco é indicado e aprovado apenas para uso masculino na dose de 1 mg/dia e não deve ser usado por mulheres grávidas ou em idade fértil, pois seu uso pode induzir anormalidades genitais em fetos do sexo masculino4,5. Como a finasterida está presente no sêmen, homens que utilizam o medicamento devem fazer uso de preservativo se tiverem contato sexual com gestantes ou mulheres com potencial de engravidar6. É importante ressaltar que a finasterida pertence à categoria X de fármacos, que são os contraindicados e mais perigosos para a gestação. Você pode ler mais sobre a utilização de medicamentos na gestação clicando aqui.

Dentre os efeitos adversos causados pela finasterida, destacam-se: redução da libido, disfunção erétil, distúrbios da ejaculação e diminuição do volume de ejaculação (Leia mais). Esses efeitos ocorrem em até 2% dos pacientes. Assim como para o minoxidil, a suspensão do tratamento interrompe o crescimento de novos pelos2.

Evidências e recomendações

Em um estudo realizado por 12 meses para comparar a eficácia entre a finasterida, o minoxidil e a terapia combinada entre os dois no tratamento da alopecia androgênica, foram incluídos 450 pacientes do sexo masculino, calvos, na faixa etária entre 18-50 anos. Os pacientes foram divididos aleatoriamente em três grupos: 1) tratado com finasterida oral (1 mg/dia); 2) tratado com minoxidil tópico 5%, duas vezes ao dia com uma dose total de 2 mL/dia; 3) tratado com a terapia combinada entre os dois medicamentos. Ao fim do tratamento, os resultados obtidos demonstraram uma melhora de 80,5%, 59% e 94,1%, respectivamente, nos grupos observados. Ou seja, a finasterida apresentou resultado superior ao minoxidil e inferior à combinação7.

As reações adversas observadas nos pacientes que fizeram tratamento com a finasterida, incluindo aqueles com tratamento combinado, foram: diminuição da libido, disfunção erétil, dor testicular e comprometimento da função hepática. Já nos pacientes tratados com minoxidil, a principal reação adversa foi dermatite de contato, que em geral apresentou-se como prurido (coceira), queimação, descamação e até mesmo erupções cutâneas. Outras reações adversas observadas incluem cefaleia e aumento de pelos em outras partes do corpo. A maioria das reações adversas foi classificada como leve e suportável, desaparecendo após a suspensão do uso. Durante o estudo, foram excluídos 16 indivíduos que abandonaram o tratamento após sofrerem reações adversas7.

Apesar dos medicamentos apresentarem resultados satisfatórios no tratamento da perda de cabelos, deve-se entender que o tratamento é longo até a obtenção dos efeitos desejados, e é indispensável a continuação do uso do medicamento para manutenção dos resultados. Além disso, é importante estar atento ao surgimento de qualquer evento adverso e recomenda-se consultar um profissional de saúde para que ele oriente e ajude a avaliar se os benefícios do medicamento superam os riscos de um tratamento crônico e com possíveis efeitos indesejáveis.

 Referências

1 Santos Z, Avci P, Hamblin MR. Drug discovery for alopecia: gone today, hair tomorrow. Expert Opin Drug Discov. 2015;10(3):269-92.

2 Brunton LL, Chabner BA, Knollman BC. As bases farmacológicas da terapêutica de Goodman & Gilman. 12. ed., Porto Alegre: AMGH; 2012. p. 1829, 1830.

3 Ghanaat M. Types of hair loss and treatment options, including the novel low-level light therapy and its proposed mechanism.South Med J. 2010;103(9):917-21.

4 McElwee KJ, Shapiro JS.Promising therapies for treating and/or preventing androgenic alopecia.Skin Therapy Lett. 2012;17(6):1-4.

5 Seale LR, Eglini AN, McMichael AJ. Side Effects Related to 5 alpha-Reductase Inhibitor Treatment of Hair Loss in Women: A Review. J Drugs Dermatol. 2016;15(4):414-9.

6 Drugs.com.Finasteride.more; pregnancy warnings.[acesso em 04 de abril 17]. Disponível em: https://www.drugs.com/pregnancy/finasteride.html.

7 Hu R, Xu F, Sheng Y, Qi S, Han Y, Miao Y, et al. Combined treatment with oral finasteride and topical minoxidil in male androgenetic alopecia: a randomized and comparative study in Chinese patients. Dermatol Ther. 2015;28(5):303-8.

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FDA e MHRA divulgam alerta para a prescrição e uso da finasterida

por Raissa Carolina Fonseca Cândido

         A finasterida, nome genérico de medicamentos como Proscar® e Propecia®, é um antiandrógeno sintético que age inibindo a enzima que converte a testosterona em diidrotestosterona e foi desenvolvido originalmente como um medicamento para o tratamento de hiperplasia prostática benigna (BPH), com dose recomendada de 5mg/dia.

Em dezembro de 1997 a finasterida teve seu uso aprovado pelo FDA (Food and Drug Administration) para o tratamento de alopecia androgênica (calvície) na dosagem de 1mg/dia, após ter sido observado que, devido ao mecanismo de ação da droga, o crescimento de cabelo ocorre como um efeito colateral do medicamento.

         Apesar da eficácia comprovada no tratamento da calvície, estudos realizados por órgãos reguladores de medicamentos em vários países, como FDA e MHRA (Reino Unido), apontam uma relação entre o uso da finasterida, em maior ou menor dosagem, com o desenvolvimento de câncer na próstata, câncer de mama masculino e problemas relacionados à perda de libido e disfunção erétil.

        O ensaio clínico randomizado “Prostate Cancer Prevention Trial (PCPT)”¹, usado pelo FDA em sua revisão sobre o assunto aponta que 37% dos tumores diagnosticados no grupo que fez uso da finasterida por sete anos eram de alto grau (escore de Gleason ≥7), enquanto que 22% dos tumores diagnosticados no grupo placebo apresentavam esta característica.  Segundo o estudo, este dado sugere que através de mudanças em andrógenos intraprostáticos e/ou sinalização de estrógenos a finasterida pode levar ao aumento do risco de cânceres de alto grau. No entanto, como os dados se referem apenas ao primeiro ano de utilização do medicamento e nos anos subseqüentes não foi registrada nenhuma alteração, outros fatores podem ter influenciado o desenvolvimento de cânceres agressivos.

         Apesar de não fornecer dados suficientes para determinar se o medicamento aumenta ou não a ocorrência de câncer de alto grau, o estudo aponta que existe uma relação entre o uso da finasterida e o desenvolvimento deste grau de câncer.

         A relação entre o uso de finasterida e a ocorrência de câncer de mama masculino também não pôde ser claramente determinada em revisão realizada pelo MHRA² já que não foi significativa a diferença registrada para o desenvolvimento da doença entre os pacientes que usaram e os que não usaram a finasterida. Contudo, devido ao relato de casos de câncer relacionados ao uso do medicamento, do mesmo modo que o FDA³, o MHRA divulgou um alerta direcionado a médicos e pacientes para que sejam cautelosos na prescrição e uso da finasterida em tratamentos tanto para BPH quanto para alopecia androgênica.

Referências:

¹  “Finasteride and High-Grade Prostate Cancer in the Prostate Cancer Prevention Trial”. Journal of the National Cancer Institute. Disponível em: http://www.medscape.com/viewarticle/564696

² “The risk of male breast cancer with finasteride”. MHRA. Disponível em: http://www.mhra.gov.uk/home/groups/pl-p/documents/websiteresources/con065504.pdf

³ “5-alpha reductase inhibitors (5-ARIs): Label Change – Increased Risk of Prostate Cancer”. FDA. Disponível em: http://www.fda.gov/Safety/MedWatch/SafetyInformation/SafetyAlertsforHumanMedicalProducts/ucm258529.htm

(Texto extraído do V.7, n°4 do Boletim Atrás da Estante).