OMS divulga diretriz para cuidados e tratamento de pacientes com hepatite C

Por Weverton Teixeira

hepatite-cHepatite C viral (HCV) é uma das principais causas de morte entre as hepatites virais, podendo levar ao desenvolvimento de cirrose, carcinoma hepatocelular e insuficiência hepática. No Brasil, o diagnóstico pode ser feito por testes rápidos ou exames laboratoriais, ambos disponíveis no Sistema Único de Saúde (SUS).

As novas diretrizes divulgadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) excluem a recomendação do uso de telaprevir ou boceprevir para tratar pacientes infectados pelo HCV. Esses fármacos foram aprovados pelo SUS em 2013, mas já não constam no Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Hepatite C e Coinfecções, adotado a partir de 2015.

A recomendação da OMS é que o tratamento de HCV seja feito com antivirais de ação direta (DAA, sigla em inglês) e não mais com interferon peguilado (Alfapeguinterferona 2a e 2b), pois DDA oferecem cura acima de 90%. Pacientes infectados com o genótipo 3 do vírus e que desenvolverem cirrose ou pacientes contaminados com genótipos 5 e 6 que apresentarem ou não quadro de cirrose podem usar a associação de interferon, sofosbuvir e ribavirina. O esquema de tratamento deve ser selecionado de acordo com a genotipagem do vírus.

O SUS oferece tratamento para pacientes diagnosticados com fibrose hepática mais severa e que não tenham sido tratados anteriormente com os DAA (daclatasvir, simeprevir ou sofosbuvir); pacientes infectados com HCV e que não apresentarem fibrose devem ser monitorados periodicamente até a necessidade de tratamento. O tratamento deve ser iniciado imediatamente em pacientes infectados por HIV; insuficiência hepática e ausência de carcinoma hepatocelular, independente da necessidade de transplante hepático; insuficiência renal crônica; pós-transplante de fígado; entre outras indicações. As contraindicações devem ser observadas: gestantes não devem ser tratadas com ribavirina e portadores de arritmias cardíacas não devem usar DAA.

Leia a diretriz divulgada pela OMS: 

Guidelines for the screening, care and treatment of persons with chronic hepatitis c infection

Entenda mais sobre as hepatites virais: Hepatites virais – o que você precisa saber

 

 

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Boceprevir e telaprevir, novos fármacos do SUS no tratamento da Hepatite C

por Mariana Colen

A Hepatite C, doença de importância mundial, destaca-se como a principal causa de morte no Brasil entre as hepatites virais. Pode apresentar-se tanto como infecção aguda quanto crônica, sendo classificada no sistema de saúde brasileiro como uma enfermidade de notificação compulsória1. Caso o sistema imune do indivíduo não seja eficiente na eliminação do agente viral (HCV), desenvolve-se uma infecção crônica, principal determinante para o desenvolvimento de cirrose e câncer de fígado2.

A progressão da infecção pelo HCV até a fase de cirrose hepática é muito lenta (entre 20 e 30 anos de evolução) e ocorre usualmente de maneira assintomática. Os sintomas são pouco frequentes tanto nas infecções agudas quanto crônicas, mas quando presentes podem caracterizar fadiga, falta de apetite, icterícia, dor abdominal, náusea e vômitos1. A transmissão do vírus ocorre principalmente por meio do sexo sem proteção, da gestante infectada para o bebê e pelo sangue contaminado, o qual pode estar contido em agulhas e seringas reaproveitadas, além de objetos cortantes e de higiene pessoal3. A possibilidade de transmissão da hepatite C por transfusão sanguínea sofreu considerável redução a partir de 1993 em nosso país. Nesse ano, o Ministério da Saúde tornou obrigatória a inclusão de testes para anticorpos nos exames de triagem e, atualmente, apesar do teste não isentar totalmente o risco dos receptores de sangue, a contaminação por essa via não é mais comum4,5,6.

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O diagnóstico precoce da doença é fator crucial para o sucesso do tratamento. Uma vez diagnosticada, a terapia medicamentosa revela-se uma estratégia para a prevenção da evolução do quadro e suas complicações. No Brasil, o genótipo 1 do vírus é o mais prevalente e, para pacientes infectados cronicamente por esse subtipo, o esquema clássico recomendado consiste na associação de alfapeginterferona com ribavirina, por 48 a 72 semanas. Entretanto, ensaios clínicos realizados nos últimos anos utilizando agentes antivirais de ação direta contra o HCV têm mostrado que os inibidores de protease (agentes que bloqueiam a replicação viral) são uma estratégia eficaz para o tratamento desse genótipo7.

Boceprevir e telaprevir são os primeiros fármacos dessa classe lançados no mercado para tratamento do HCV. Inovadores, foram incluídos na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (Rename) em 20128. Estudos demonstraram que boceprevir ou telaprevir, adicionados ao tratamento padrão com alfapeginterferona e ribavirina (esquema tríplice) em pacientes com Hepatite C crônica, aumentaram a partir de 30% os índices de resposta virológica sustentada (RVS), quando comparada ao tratamento com alfapeginterferona e ribavirina (esquema duplo)9,10. A RVS, que indica a resposta do organismo à farmacoterapia, é definida por níveis não detectáveis de HCV-RNA durante 24 semanas após o término do tratamento11. A indicação de inibidores da protease no Brasil inclui os pacientes com fibrose hepática avançada (graus 3 e 4), considerando dois grupos de pacientes: aqueles sem tratamento prévio e o retratamento daqueles que não responderam previamente ao tratamento convencional7. Entre os dois medicamentos, o telaprevir destaca-se por apresentar maior índice de adesão por incluir menor número de comprimidos a serem administrados diariamente, pela menor duração do tratamento7 e por demonstrar maior eficácia12.

A nova farmacoterapia, com base em ensaios clínicos, mostra-se promissora. Por meio da inibição da replicação viral, obtém-se melhores perfis da RVS, promovendo maior redução dos níveis das enzimas hepáticas, controle na progressão do comprometimento histológico e prevenção de complicações tardias13.

Referências:      
 
1 Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais. Ministério da Saúde. O que são hepatites. [acesso em 2013 maio 29]. Disponível em http://www.aids.gov.br/pagina/o-que-sao-hepatites-virais 
2 World Health Organization. Hepatitis C. 2003. [acesso em 2013 maio 29]. Disponível em: http://www.who.int/csr/disease/hepatitis/Hepc.pdf 
3 Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais. Ministério da Saúde. Hepatite C. [acesso em 2013 maio 29]. Disponível em http://www.aids.gov.br/pagina/hepatite-c 
4 Carrazone CFV, Brito AM, Gomes YG. Importância da avaliação sorológica pré-transfusional em receptores de sangue. Rev. Bras. Hematol. Hemoter. 2004 abril; 26(2): 93-98.
5 Ministério da Saúde. Aprova alterações na Portaria nº 721/GM de 09/08/89, que aprova Normas Técnicas para coleta, processamento e transfusões de sangue, componentes e derivados, e dá outras providências. Diário Oficial da União de 02 de dezembro de 1993. Portaria n° 1.376 de 19 de novembro de 1993, 1993.
6 Valente VB, Covas DT, Passos ADC. Marcadores sorológicos nas hepatites B e C em doadores de sangue do Hemocentro de Ribeirão Preto, SP. Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical. 2005 nov-dez. 38(6): 488-492.
7 Ministério da Saúde. Inibidores de Protease (Boceprevir e Telaprevir) para o tratamento da Hepatite Crônica C. Relatório de Recomendação da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS – CONITEC – 01; 2012. [acesso em 2013 maio 29]. Disponível em http://portal.saude.gov.br/portal/arquivos/pdf/Rel_IP_Hepatite_C_final.pdf 
8 Portal da Saúde. SUS. SUS amplia lista de medicamentos ofertados. 2012. [acesso em 2013 maio 29]. Disponível em http://portalsaude.saude.gov.br/portalsaude/noticia/7607/671/sus-amplia-lista-de-medicamentos-ofertados..html 
9 U.S. Food and Drug Administration – FDA. Approval of Incivek (telaprevir), a direct acting antiviral drug (DAA) to treat hepatitis C (HCV). [acesso em 2013 junho 25]. Disponível em http://www.fda.gov/ForConsumers/ByAudience/ForPatientAdvocates/ucm256328.htm
10 Kwo PY, Lawitz EJ, McCone J, Schiff ER, Vierling JM, Pound D, Davis MN, Galati JS, Gordon SC, Ravendhran N, Rossaro L, Anderson FH, Jacobson IM, Rubin R, Koury K, Pedicone LD, Brass CA, Chaudhri E, Albrecht JK, SPRINT-1 investigators. Efficacy of boceprevir, an NS3 protease inhibitor, in combination with peginterferon alfa-2b and ribavirin in treatment-naïve patients with genotype 1 hepatitis C infection (SPRINT-1): an open-label, randomized, multicentre phase 2 trial. Lancet. 2010 agosto. 376(9742): 705-716.
11 Antaki N, Craxi A, Kamal S, Moucari R, Merwe SVd, Haffar S, Gadano A, Zein N, Lai CL, Pawlotsky J-M, Heathcote EJ, Dusheiko G, Marcellin P. The neglected hepatitis C virus genotypes 4, 5 and 6: an international consensus report. Liver International. 2009 dezembro. 30(3): 342-355.
12 Cure S, Diels J, Gavart S, Bianic F, Jones E. Efficacy of telaprevir and boceprevir in treatment-naïve and treatment-experienced genotype 1 chronic hepatitis C patients: an indirect comparison using Bayesian network meta-analysis. Current Medical Research & Opinion. 2012 Novembro. 28(11): 1841-1856.
13 Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Hepatite Viral C e Coinfecções. Brasília; 2011. [acesso em 2013 junho 12]. Disponível em http://portal.saude.gov.br/portal/arquivos/pdf/pcdt_hepatite_c_2011_retificado.pdf