Dolutegravir: analisando os riscos

por Alícia Amanda Moreira Costa*

O desenvolvimento de medicamentos antirretrovirais para tratamento da infecção pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV) proporcionou um aumento da expectativa e qualidade de vida de pessoas vivendo com o HIV. Esses medicamentos não curam a infecção, mas controlam seu avanço para que o indivíduo não desenvolva a síndrome da imunodeficiência adquirida (aids). No entanto, tem se observado uma incidência maior de eventos adversos como lipodistrofia, alterações metabólicas, neurocognitivas, renais, hepáticas e osteoarticulares1 em pacientes em uso da terapia antirretroviral (TARV). Além desses, suspeita-se que o uso de dolutegravir (inibidor de integrase) possa causar efeitos teratogênicos (malformações no feto) associados à formação do tubo neural2.

O tubo neural é a estrutura embrionária que dá origem à medula espinhal e ao cérebro. O fechamento desse tubo ocorre por volta do final da quarta semana de gestação3. As principais malformações decorrentes de defeitos do tubo neural (DTN) são a anencefalia (ausência parcial ou completa do cérebro) e a espinha bífida (malformação no fechamento ósseo da coluna vertebral)3,4.

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Fonte: Google Imagens

Em maio de 2018, a Organização Mundial de Saúde divulgou uma carta5 com resultados preliminares de um estudo prospectivo realizado em Botsuana6, no qual foram relatados quatro (0,94%) casos de recém-nascidos com DTN dentre 426 mulheres que engravidaram enquanto faziam uso de dolutegravir. Em comparação, os DTN não ocorreram em nenhuma criança dentre as 2812 nascidas cujas mães iniciaram o tratamento com dolutegravir durante a gravidez, após o período da concepção. Os DTN ocorreram em 14 (0,12%) bebês dentre os 11.300 nascidos cujas mães faziam uso de outros esquemas de TARV não contendo dolutegravir. Entre mães não-infectadas, os DTN ocorreram em 61 (0,09%) bebês dentre os 66.057 nascidos. Observou-se, portanto, maior incidência de DTN em bebês cujas mães já faziam uso de dolutegravir quando engravidaram.

Após a publicação dessa carta, agências regulatórias como Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA)7,8, Food and Drug Administration (FDA)9 e European Medicines Agency (EMA)10 publicaram recomendações sobre o uso do dolutegravir para profissionais de saúde e usuários do medicamento. As agências alertam sobre a importância de usar um esquema antirretroviral seguro e eficaz, sendo o efavirenz indicado como primeira linha de tratamento para gestantes ou mulheres em idade fértil. Em situações de contraindicação de uso do efavirenz para mulheres em idade fértil, o dolutegravir pode ser usado, desde que haja um método contraceptivo associado (preferencialmente métodos que não dependam da adesão, como dispositivo intrauterino – DIU – ou implantes anticoncepcionais). No caso de gravidez já confirmada, mulheres que estejam usando o dolutegravir não devem interromper o tratamento por conta própria, sendo necessário procurar um médico com urgência. Além disso, para mulheres que possuem indicação de uso da Profilaxia Pós-Exposição ao HIV (PEP), a possibilidade de gravidez deve ser investigada e o esquema alternativo contendo atazanavir/ritonavir é indicado11.

Apesar do indicativo de que o uso do dolutegravir no período da concepção tenha potencial teratogênico, é importante destacar que esses resultados são provenientes de um estudo que ainda está em andamento. O número de incidentes de malformação observados é pequeno, bem como a diferença na ocorrência desse evento entre os grupos estudados6. Outra ressalva importante é que as mães das quatro crianças afetadas não fizeram suplementação com ácido fólico durante a gestação, o que é um fator confudidor no estabelecimento da relação causal entre o uso do dolutegravir e o efeito teratogênico. Desse modo, mais dados são necessários para confirmar ou refutar essa hipótese. Ademais, não foi observada malformação embrionária em animais que receberam administração oral de dolutegravir em estudos pré-clínicos12. De qualquer forma, é fundamental que haja o acompanhamento médico e farmacêutico e o estabelecimento de medidas para evitar que novos casos aconteçam, tendo em vista a gravidade desse evento adverso. O acompanhamento também é essencial para que o tratamento antirretroviral seja bem-sucedido durante a gravidez e as chances de transmissão vertical do HIV sejam minimizadas.

 

* A autora do texto é graduanda do curso de farmácia e aluna de iniciação científica do projeto de pesquisa “Alterações metabólicas entre pessoas vivendo com o HIV em uso prolongado de antirretrovirais” apoiado pela PRPq/UFMG e FAPEMIG e financiado pelo CNPq.

Agradecemos à farmacêutica Danielly Botelho Soares pelo auxílio na elaboração deste material.

Referências Bibliográficas:

1 Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Manejo da Infecção pelo HIV em Adultos. 1ª edição. Brasília. 2018.

2 Foster C, Fidler S, Lyall E, Taylor G. Careful consideration when responding to new data: dolutegravir and pregnancy. Journal of virus eradication. 2018;4(3):208.

3 Botto LD, Moore CA, Khoury MJ, Erickson JD. Neural-tube defects. New England journal of medicine. 1999;341(20):1509-19.

4 Aguiar MJ, Campos A, Aguiar R, Lana AMA, Magalhães RL, Babeto LT. Defeitos de fechamento do tubo neural e fatores associados em recém-nascidos vivos e natimortos. J Pediatr (Rio J). 2003;79(2):129-34.

5 World Health Organization. Statement on DTG. Geneva, 18 May 2018. Acesso em jun/2019. Disponível em: https://www.who.int/medicines/publications/drugalerts/Statement_on_DTG_18May_2018final.pdf

6 Zash R, Makhema J, Shapiro RL. Neural-tube defects with dolutegravir treatment from the time of conception. New England Journal of Medicine. 2018;379(10):979-81.

7 ANVISA. Medicamento Dolutegravir (DTG). 2018. Acesso em jun/2019. Disponível em:  https://bit.ly/2If8AHj

8 Ministério da Saúde. Nota informativa nº10/2018: Recomendações sobre uso do dolutegravir. 2018. Acesso em jun/2019. Disponível em: http://www.aids.gov.br/pt-br/legislacao/nota-informativa-no-102018-diahvsvsms

9 Food and Drug Administration. FDA to evaluate potential risk of neural tube birth defects with HIV medicine dolutegravir (Juluca, Tivicay, Triumeq). 2018. Acesso em jun/2019.  Disponível em: https://www.fda.gov/drugs/drug-safety-and-availability/fda-drug-safety-communication-fda-evaluate-potential-risk-neural-tube-birth-defects-hiv-medicine

10 European Medicines Agency. New study suggests risk of birth defects in babies born to women on HIV medicine dolutegravir. 2018. Acesso em jun/2019. Disponível em: https://www.ema.europa.eu/en/news/new-study-suggests-risk-birth-defects-babies-born-women-hiv-medicine-dolutegravir

11 Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Profilaxia Pós-exposição (PEP) de risco à infecção pelo HIV, IST e hepatites virais. 1ª edição. Brasília. 2018

12 GlaxoSmithKline Brasil Ltda. Bula Tivicay. Acesso em jun/2019. Disponível em: http://www.anvisa.gov.br/datavisa/fila_bula/frmVisualizarBula.asp?pNuTransacao=24633662016&pIdAnexo=4000320

A importância de prevenir a ocorrência de gravidez durante o tratamento com a isotretinoína

por Kathleen Monique C. G. Silva

A isotretinoína é um medicamento retinoide utilizado no tratamento de alguns tipos graves de acne, como a acne nodulocística, acne conglobata, acne com frequentes recidivas e não responsiva a antibioticoterapia oral por um período de pelo menos dois meses1. A acne nodulocística é caracterizada pela presença de pontos negros inflamados associados a lesões císticas e nodulares, já a acne conglobata pode apresentar as mesmas características da acne nodulocística, além de numerosos e grandes nódulos purulentos1. A prescrição, comercialização e uso da isotretinoína no Brasil estão sujeitos a controle especial, conforme os critérios estabelecidos na Portaria do Ministério da Saúde nº 344, de 12 de maio de 1998 2. A restrição do uso da isotretinoína justifica-se pelo seu potencial de causar efeitos adversos graves.

Entre os efeitos adversos da isotretinoína está o risco de malformação congênita, definido como a malformação de órgãos ou partes do corpo durante o desenvolvimento no útero3. Pode ocorrer malformação na orelha, olho, craniofacial, cérebro, ouvido, escroto, sobrancelhas, lábios, dedos dos pés ou mão e anormalidades motoras4-9. Por essa razão, a isotretinoína é classificada na categoria X pela agência reguladora americana FDA (Food and Drug Administration), o que significa que seu uso é contraindicado durante a gestação10.

Em função da necessidade de se definir critérios adequados para o uso seguro da isotretinoína, foi criado o protocolo de uso do medicamento1, que complementa os mecanismos de controle estabelecidos na Portaria nº 344/98. A prescrição do medicamento deve ser realizada com o preenchimento da notificação de receita branca e assinatura pelo responsável legal ou pelo paciente (maior de 21 anos de idade) do termo de conhecimento de riscos e consentimento pós-informação, em que consta, entre outras informações, a contraindicação do uso por mulheres grávidas2.

Atualmente, sabe-se que a isotretinoína pode causar malformação congênita caso a mulher engravide durante ou até 30 dias após a finalização do tratamento1. Por isso, no Brasil há recomendações para a realização de teste sorológico de gravidez (beta-HCG) antes do início do uso, uma vez ao mês durante o tratamento e até a quinta semana após sua conclusão1. Além disso, quando iniciado o tratamento em pacientes do sexo feminino, elas devem estar utilizando dois métodos contraceptivos de eficácia comprovada há pelo menos 60 dias. Os métodos contraceptivos utilizados devem ser um hormonal e outro não, ressaltando que a escolha destes será baseada na indicação para cada mulher e realizada em conjunto com o médico responsável. É também responsabilidade da paciente manter os métodos contraceptivos até 60 dias após a última administração de isotretinoína, devido à permanência do fármaco no organismo por 30 dias1. A figura abaixo apresenta informações sobre cuidados que devem ser tomados durante a utilização da isotretinoína para evitar a ocorrência de casos de malformação congênita.

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Referências:

  1. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Portaria n. 1159 de 18 de novembro de 2015: Protocolo de uso da isotretinoína no tratamento da acne grave. Brasil, 2015. Disponível em: < https://bit.ly/2W6F1gB >. Acesso em: 14 jan 2019.
  2. Secretária de Vigilância Sanitária do Ministério da Saúde. Portaria n. 344 de 12 de maio de 1998. Regulamento Técnico sobre substâncias e medicamentos sujeitos a controle especial. Capítulo 5, 1988. Disponível em: < https://bit.ly/1uP4Kvg >. Acesso em: 14 jan 2019.
  3. DESCRITORES EM CIÊNCIAS DA SAÚDE: DeCS. Anomalias congênitas. ed. 2018. rev. e ampl. São Paulo: BIREME / OPAS / OMS, 2018. Disponível em: < http://decs.bvsalud.org>. Acesso em: 14 jan 2019.
  4. HANSEN, L. A.; PEARL, G. S. Isotretinoin teratogenicity. Case report with neuropathologic findings. Acta Neuropathol. v. 65, p. 335-337, 1985
  5. MITCHELL, A. A.; VAN BENNEKOM, C. M.; LOUIK, C. A pregnancy-prevention program in women of childbearing age receiving isotretinoin. N Engl J Med. v. 333, n. 2, p. 101-106, 1995.
  6. KÄLLÉN, B. Restriction of the use of drugs with teratogenic properties: Swedish experiences with isotretinoin. Teratology. v. 20, n. 2, p. 53, 1999.
  7. LEE, S. M.; KIM, H. M.; LEE, J. S.; YOON, C. S.; PARK, M. S.; PARK, K. I.; NAMGUNG, R.; LEE, C. A case of suspected isotretinoin-induced malformation in a baby of a mother who became pregnant one month after discontinuation of the drug. Yonsei Med J. v. 50, n. 3, p. 445-447, 2009.
  8. AUTRET-LECA, E.; KREFT-JAIS, C.; ELEFANT, E.; CISSOKO, H.; DARROUZAIN, F.; GRIMALDI-BENSOUDA, L.; ATTIA, S.; JONVILLE-BÉRA, A. P. Isotretinoin exposure during pregnancy: assessment of spontaneous reports in France. Drug Saf. v. 33, n. 8, p. 659-665, 2010.
  9. SHIRAZI, M.; ABBARIKI, E.; PIRJANI, R.; AKHAVAN, S.; DASTGERDY, E. Congenital microtia in a neonate due to maternal isotretinoin exposure 1 month before pregnancy: Case Report. J Obstet Gynaecol. 41, n. 6, p. 975-978, 2015.
  10. MICROMEDEX SOLUTIONS®. Isotretinoin. Truven Health Analytics. Greenwood Village, Colorado, Estados Unidos da America.  Disponível em: <https://bit.ly/2T6e8XV&gt;. Acesso em: 14 jan 2019.