Liraglutida e seu uso no tratamento da obesidade

por Ana Luiza Brandão Neiva da Silva

Em fevereiro de 2016, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou a comercialização do Saxenda® para o tratamento da obesidade no Brasil1. O Saxenda® já havia sido aprovado pela agência norte-americana Food and Drug Administration (FDA) em dezembro de 2014, quando publicamos em nosso blog o texto “Liraglutida para tratamento da obesidade: uma nova “promessa” chamada Saxenda®”. Este medicamento, disponível na forma injetável, possui como princípio ativo a liraglutida, o mesmo do Victoza® – autorizado no Brasil para tratamento da diabetes mellitus tipo II.

A liraglutida é um análogo sintético do hormônio GLP-1 (glucagon-like peptide-1) com 97% de equivalência estrutural ao GLP-1 humano. A redução de peso é decorrente da diminuição da sensação de fome e, consequentemente, da ingestão de alimentos2. O fármaco atua como agonista do receptor de GLP-1, aumentando a secreção de insulina na presença de alta concentração de glicose no sangue, além de retardar o esvaziamento gástrico pós refeição3.

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Fonte: Google Imagens

Assim como o FDA, a Anvisa aprovou o registro do Saxenda® para controle crônico de peso em adultos, sob a recomendação de seu uso estar sempre associado a uma dieta de baixa ingestão calórica e à prática de exercícios físicos. O medicamento é indicado para adultos obesos (Índice de Massa Corporal (IMC) ≥ 30 kg/m²) ou com sobrepeso (IMC ≥ 27 kg/m²) associado à presença de pelo menos uma comorbidade relacionada – disglicemia, hipertensão arterial, dislipidemia ou apneia obstrutiva do sono, por exemplo1.

A eficácia e segurança do medicamento foram avaliadas em um ensaio clínico envolvendo 3.731 pacientes que tinham indicação de uso do medicamento. Eles foram divididos em dois grupos e acompanhados por 56 semanas. Um grupo recebeu uma dose de 3,0 mg/dia de liraglutida e o outro recebeu placebo (substância inativa), sendo ambos os grupos aconselhados a realizar dieta e praticar exercícios físicos. Os participantes apresentavam em média 106 kg no início do estudo. Dos pacientes que receberam a liraglutida, 63,2% perderam pelo menos 5% do seu peso corporal, em comparação com 27,1% dos pacientes que receberam o placebo. Entre os pacientes que perderam mais de 10% do seu peso corporal, 33,1% receberam a liraglutida, e 10,6% o placebo. No entanto, apenas 14,4% dos pacientes que receberam a liraglutida perderam mais de 15% do seu peso inicial. O grupo que recebeu a liraglutida apresentou uma perda média de 8% do seu peso corporal, já no grupo placebo a perda média foi de 2,6%. Os efeitos adversos mais frequentes foram náuseas e diarreia, sendo a maior ocorrência de casos no grupo que recebeu a liraglutida. Eventos gastrintestinais foram o principal motivo de abandono do estudo no grupo liraglutida (159 de 2481 pacientes – 6,4%)2.

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As diferenças foram estatisticamente significativas. Contudo, os resultados devem ser avaliados com cautela, considerando a perspectiva de emagrecimento em função do tempo de utilização do produto (aproximadamente quatorze meses) e os efeitos adversos causados pelo medicamento. Por se tratar de um medicamento injetável, é também importante frisar que o uso requer maior cuidado e empenho do paciente. E como os indivíduos que não utilizaram o medicamento também apresentaram redução de peso, apenas mudando o estilo de vida, deve-se ponderar em quais casos o seu uso é realmente necessário. Assim, o medicamento deve ser entendido apenas como um adjuvante no tratamento da obesidade. A mudança nos hábitos alimentares e a prática de atividade física são indispensáveis para a sustentabilidade dos resultados.

Como todo medicamento novo no mercado, a segurança do produto será monitorada em estudos pós-comercialização1. É importante que pacientes e profissionais de saúde notifiquem à Anvisa qualquer efeito adverso observado durante o tratamento (Saiba como – http://www.farmacia.ufmg.br/como-notificar/).

 

1 Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Liraglutida é aprovada como tratamento auxiliar para o controle do peso em adultos. 2016. [acesso em 29/03/2016]. Disponível em: http://portal.anvisa.gov.br/wps/content/anvisa+portal/anvisa/sala+de+imprensa/menu+-+noticias+anos/201616/liraglutida+aprovada+como+tratamento+auxiliar+para+o+controle+do+peso+em+adultos

2 Pi-Sunyer X, Astrup A, Fujioka K, Greenway F, Halpern A, Krempf M, et al. A Randomized, Controlled Trial of 3.0 mg of Liraglutide in Weight Management. New England Journal of Medicine. 2015;373(1):11-22.

3 Medscape. Drugs & Diseases; liraglutide; pharmacology. [acesso em 10/04/2016] Disponível em: http://reference.medscape.com/drug/victoza-saxenda-liraglutide-999449#10

4 US Food and Drug Administration. FDA approves weight-management drug Saxenda. [Internet]. Estados Unidos da América; 2014 dez. 23 [acesso em 29/03/2016]. Disponível em: http://www.fda.gov/NewsEvents/Newsroom/PressAnnouncements/ucm427913

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Liraglutida para tratamento da obesidade: uma nova “promessa” chamada Saxenda®

Por Joyce Costa Melgaço de Faria

Em outubro de 2011 publicamos no boletim “Atrás da Estante” o texto “Quando a propaganda é embalada como reportagem”. Nele comentávamos uma matéria então recém-publicada em revista de grande circulação sobre o Victoza®, medicamento autorizado no Brasil para tratamento da diabetes tipo II. O texto criticava o caráter publicitário embutido na reportagem, com supervalorização do possível efeito emagrecedor do medicamento e omissão dos riscos de seu uso para esta finalidade.

Três anos depois, em dezembro de 2014, o FDA (agência reguladora dos EUA) aprovou o Saxenda®, indicado para tratamento da obesidade, produzido pelo mesmo fabricante do Victoza® e contendo o mesmo princípio ativo, a liraglutida. O FDA informou que a eficácia e a segurança do novo medicamento foram avaliadas em três ensaios clínicos de amostra expressiva e que ainda há estudos em andamento para investigação de outros aspectos de segurança1. O lançamento nos EUA está previsto para o primeiro semestre de 2015 e o custo esperado do tratamento é de US$ 40 por dia2,3. No Brasil ainda não há previsão de comercialização.

O uso do Saxenda® foi aprovado para tratamento de adultos com índice de massa corpórea (IMC) maior ou igual a 30 (obesidade) ou com IMC ≥ 27 (sobrepeso) associado à diabetes, hipertensão ou dislipidemia (níveis aumentados de colesterol e triglicérides no sangue). Vale ressaltar que o tratamento farmacológico deve ser combinado à dieta de baixa caloria e atividades físicas. Em um dos ensaios clínicos, observou-se que, no período de um ano, o grupo que utilizou o medicamento obteve redução média de 4,5% do peso inicial comparado ao grupo placebo (tratado com medicamento inativo). Entre os efeitos adversos graves pode-se citar pancreatite, doença da vesícula biliar, ideação suicida e tumor na glândula tireoide, todos com incidência de até 1,5 % 1, 4. Há também um risco de disfunção renal e de aumento da frequência cardíaca1.

Fonte: Google Imagens

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Diante desses dados podemos prever que um indivíduo de 100 kg deverá utilizar doses diárias do medicamento, que é injetável e de alto custo, para alcançar em um ano o peso de aproximadamente 95 kg. Ou, na melhor das hipóteses, cerca de 90 kg se não ficarmos na média. Fica a inevitável pergunta: embora o desejo de emagrecer seja comum, e a obesidade uma das epidemias de nossa época, qual o real valor prático desse medicamento?

O Saxenda® foi idealizado a partir do Victoza® e é mais um exemplo de nova opção terapêutica que se origina do uso off label de medicamentos (uso de uma substância já conhecida fora das indicações inicialmente aprovadas pelas agências reguladoras). Ressalta-se a necessária cautela com o uso de novas alternativas terapêuticas, sobre as quais ainda existe pouco conhecimento científico e experiência clínica. Os lançamentos da indústria farmacêutica são muitas vezes apenas protagonistas do marketing promovido por esse setor. A pesquisa de Gava et al (2010), ao analisar os medicamentos registrados pela ANVISA entre os anos de 2000 e 2002, demonstrou uma predominância de registros de medicamentos sem real vantagem terapêutica sobre os já existentes, fato que ocorre também no cenário internacional5.

Podemos lembrar do Xenical® (orlistat), medicamento antiobesidade, grande sucesso de vendas do passado. Lançado no Brasil em 1998, ele atua reduzindo em 30% a absorção de gorduras no trato gastrintestinal e já foi promessa de milagre em reportagem da mesma revista que “lançou” o Victoza®. Nesse caso, a promessa era ainda mais atrativa: redução de cerca de 10% da massa corporal em seis meses6.

 

 

REFERÊNCIAS:

1) US Food and Drug Administration. FDA approves weight-management drug Saxenda. [Internet]. Estados Unidos da América; 2014 dez. 23 [acesso em 12/01/2015]. Disponível em: http://www.fda.gov/NewsEvents/Newsroom/PressAnnouncements/ucm427913

2) Reuters. Agência americana aprova venda de novo emagrecedor. [Internet]. Folha de São Paulo. 2014 dez. 30 [acesso em 2015 jan. 12].  Disponível em: http://folha.com/no1568576

3) Novo Nordisk. Novo Nordisk receives FDA approval for Saxenda® for the treatment of obesity [Internet]. Bagsvaerd, Denmark; 2014 dez. 23 [acesso em 2015 jan. 12]. Disponível em: http://www.novonordisk.com/include/asp/exe_news_attachment.asp?sAttachmentGUID=db5525ac-df0d-4556-b7aa-bc510cd9d83d

4) Micromedex® Healthcare Series [Internet database]. Greenwood Village, Colo: Thomson Healthcare Updated periodically.

5) GAVA, CM et al. Novos medicamentos registrados no Brasil: podem ser considerados como avanço terapêutico?. Ciênc. saúde coletiva. 2010 nov; 15(3): 3403-12

6) Marta Avancini. Chega primeiro lote de Xenical ao Brasil. [Internet]. Folha de São Paulo. 1998 dez. 23 [acesso em 2015 jan. 12]. Disponível em:  http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff23129818.htm