Cesárea planejada ou parto normal – benefícios e danos

por Daniela RG JunqueiraSelo - Saúde da Mulher

O parto normal é aquele que acontece por indução fisiológica do corpo da mulher que promove contrações uterinas ajudando a dilatar a porção inferior do uterino para a saída do bebê. Excluindo-se situações de urgência médica, ele deve acontecer com o mínimo de intervenção possível e em qualquer posição que facilite a expulsão do feto e proporcione mais conforto à mulher. A cesárea é um procedimento cirúrgico que retira o bebê pela barriga da mãe. Esse procedimento pode ser necessário por razões relacionadas à saúde da mãe e do bebê, mas pode também ser oferecida antes do início do processo do parto normal, em gestantes sem histórico de uma cesárea prévia, e por razões outras que não incluem indicação médica, como preferências particulares do profissional responsável e maior conveniência em relação ao momento do parto, o que definimos como cesárea planejada. Algumas vezes o planejamento da cesárea pode também ser requerido pela gestante devido a fatores psicológicos como medo da dor, desconhecimento sobre opções para o alívio da dor durante o parto normal e percepções errôneas como a de que a cesárea seria melhor para a saúde do bebê.

Tanto o parto normal como a cesárea planejada oferecerem benefícios e riscos que devem ser considerados em relação à saúde da gestante e do bebê e o contexto da mulher, suas expectativas e preferências. Em paralelo a isso, a escolha do procedimento deve ser norteada por evidências com relação à morbidade e mortalidade materna e neonatal. Atualmente, são disponíveis evidências indicando que a cesárea planejada está relacionada à maior morbidade materna (aumento da frequência de infecções, prolongamento do tempo de internação e recuperação e aumento dos riscos em gestações futuras – placenta previa e acreta, ruptura uterina, complicações de múltiplas cirurgias abdominais) além do aumento do risco de problemas respiratórios no neonato.  Adicionalmente, o uso de medicamentos é maior no parto por cesárea implicando em aumento potencial da ocorrência de eventos adversos, do tempo de internação, e dos riscos para o bebê pela possível excreção dos fármacos no leite materno. Outros desfechos como mortalidade materna, incontinência urinária e disfunção sexual parecem afetar de forma semelhante mulheres submetidas a parto normal ou cesárea planejada. Apesar de haverem lacunas que os estudos científicos disponíveis não são capazes de responder, há evidências que nos permitem considerar que, de forma geral, o parto normal é um procedimento com segurança superior à cesárea planejada. Maior conforto e segurança durante o parto normal podem ser oferecidos à mulher por intervenções como aulas de relaxamento guiadas por enfermeiras, aulas de preparação para o parto e o encorajamento para que a mulher adapte o ambiente do parto de acordo com as suas necessidades.

Fontes:
Brasil. Minstério da Saúde. Tipos de parto. Disponível: http://www.brasil.gov.br/sobre/saude/maternidade/parto. Acesso em 11 Janeiro 2013.
Viswanathan M, Visco AG, Hartmann K, et al. Cesarean Delivery on Maternal Request. Rockville (MD): Agency for Healthcare Research and Quality (US); 2006 Mar. (Evidence Reports/Technology Assessments, No. 133.) Disponível: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK38731/. Acesso em 11 Janeiro 2013.
Kalish RB, McCullough L, Gupta M, Thaler HT, Chervenak FA. Intrapartum elective cesarean delivery: a previously unrecognized clinical entity. Obstet Gynecol. 2004; 103(6):1137-41.
Khunpradit S, Tavender E, Lumbiganon P, Laopaiboon M, Wasiak J, Gruen RL. Non-clinical interventions for reducing unnecessary caesarean section. Cochrane Database of Systematic Reviews 2011, Issue 6. Art. No.: CD005528. DOI: 10.1002/14651858.CD005528.pub2.
National Collaborating Centre for Women’s and Children’s Health (UK). Intrapartum Care: Care of Healthy Women and Their Babies During Childbirth. NICE Clinical Guidelines, No. 55. London: RCOG Press; September 2007.
Agency for Healthcare Research and Quality (AHRQ). Effective Health Care Program. Thinking about inducing your labor: a guide for pregnant women. Disponível em: http://effectivehealthcare.ahrq.gov/. Acesso em: 11 Janeiro 2013.
Lavender T, Hofmeyr GJ, Neilson JP, Kingdon C, Gyte GML. Caesarean section for non-medical reasons at term. Cochrane Database of Systematic Reviews 2012, Issue 3. Art. No.: CD004660. DOI: 10.1002/14651858.CD004660.pub3.
Perini E, Starling SM, Noronha V. Consumo de medicamentos no período de internação para o parto. Rev Saúde Pública 2005, 39 (3): 358-65.
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Comprimidos para gente saudável, quem vai querer?

Por Raissa Carolina Fonseca Cândido

Centrum®. Victoza®. Ritalina®. Truvada®. Um polivitamínico. Um medicamento para o tratamento de diabetes. Um estimulante para o tratamento de TDAH e da narcolepsia. A primeira pílula aprovada para prevenir o HIV. O que todos eles têm em comum? São medicamentos que apesar de possuírem finalidades terapêuticas, caso do Victoza® e da Ritalina®, têm sido utilizados por pessoas saudáveis, ou melhor: são alguns exemplos deles.

Há aproximadamente 30 anos atrás, perto de se aposentar, o então diretor da Merck, Henry Gadsden, revelou em entrevista à revista Fortune que seu maior desespero era ver o mercado potencial de sua empresa confinado somente às doenças. Gadsden declarou que sonhava, havia muito tempo, produzir medicamentos destinados às pessoas saudáveis. Uma vez que, assim, a Merck teria a possibilidade de “vender para todo mundo”.

Este sonho que durante muito tempo não pôde ser realizado, parece estar se tornando real.  Prova disso, é que assim como os medicamentos citados, já existem medicamentos no mercado que mesmo tendo sua finalidade e utilidade terapêutica definida para o tratamento de doenças específicas, têm sido utilizados por pessoas saudáveis. Seja para suplementar a alimentação, para emagrecer ou para melhorar o desempenho acadêmico, estes medicamentos já ocupam um espaço na vida de milhares de pessoas em plena saúde.

Uma vez alterado neste sentido, o novo perfil do mercado farmacêutico traz mudanças profundas e complexas em um sistema onde o processo terapêutico é diretamente dependente, pelo menos em teoria, de um processo diagnóstico.

Se antes a subjetividade inerente a alguns diagnósticos já produzia questionamentos quanto à medicalização ou não do indivíduo doente, como será medicalizar a saúde deste?

Vale ressaltar que no caso de medicamentos como o Victoza® e a Ritalina® o uso sem nenhum objetivo terapêutico ou preventivo, bem como que para outra finalidade que não as regulamentadas não é autorizado, apesar de muito divulgado na literatura. Fato este que expõe outros aspectos da comercialização que não somente indica a já mencionada mudança no perfil do mercado consumidor de medicamentos, como também mostra a existência preocupante do desvio de prescrição e do comércio ilegal destas substâncias. (Ambos assuntos para um próximo texto…)

Assim, regulamentado ou não, a pergunta que fica é: estamos preparados para lidar com um mercado farmacêutico completamente independente de diagnóstico, onde o uso de medicamentos também é destinado a pessoas saudáveis?

“[…] De modo geral, quer me parecer que o homem contemporâneo está mais  escravizado aos remédios do que às enfermidades. Ninguém sai de uma farmácia sem ter comprado, no mínimo, cinco medicamentos prescritos pelo médico ou pelo vizinho ou por ele mesmo, cliente. Ir à farmácia substitui hoje o saudoso hábito de ir ao cinema ou  ao Jardim Botânico.”  (Carlos Drummond de Andrade, “O Homem e o Remédio: Qual o Problema?”)