A Dinâmica Medicamentosa e o Produto Encapsulado

por Vívian Thaise da Silveira Anício

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Até que ponto os medicamentos, como parte integrante da política industrial, devem estar sujeitos a todas as vicissitudes da concorrência, a todas as flutuações do mercado? O Boletim Atrás da Estante prossegue motivado a informar e a levar uma visão crítica e diferenciada sobre tais questões, uma vez que o medicamento enquanto um produto que ultrapassa as dimensões bioquímicas, está inserido em uma realidade sociocultural, epidemiológica e econômica.

Artigos recentes destacam a existência de uma crise de criatividade no setor farmacêutico, relacionada com a diminuição constante do número de moléculas efetivamente inovadoras, as chamadas Novas Entidades Moleculares (NEM). Carente de inovações, e mediante a um número inédito de patentes de medicamentos que irão expirar nos próximos anos, a indústria, em uma busca de adaptação mercadológica, observa o crescimento da concorrência dos genéricos, da produção de medicamentos chamados de me-too e do uso off-label de seus produtos .

Em O Príncipe, Maquiavel funda o pensamento político moderno e vê a virtude política representada pela astúcia e pela capacidade de adaptação às circunstâncias. A expressão maquiavélica, criada no séc. XVI e conservada até hoje, representa o medo que se tem de alguma política quando lhes tiramos as máscaras da moral, da razão e da ética. Então, vale perguntar: até que ponto os medicamentos me-too e o uso off-label se utilizam de tais máscaras e são realmente benéficos para a população?

Baseados na modificação estrutural de fármacos conhecidos, os medicamentos me-too são considerados por alguns críticos como uma “falsa inovação”. Enquanto análogos estruturais, são vistos como uma estratégia inteligente para mascarar a escassez de NEM. Consequentemente, criamos um mercado saturado de novas drogas, com pouca pesquisa clínica para sua formulação, e muitas vezes sem uma vantagem terapêutica significativa em relação às já existentes. Quanto ao uso off-label dos medicamentos, ou seja, medicamentos empregados para usos e finalidades distintas daquelas indicadas em sua bula, existem divergentes opiniões. Médicos fundamentam suas prescrições alegando que seu uso é comum no tratamento de doenças órfãs e de populações específicas que recebem pouco investimento para testes de aprovação de medicamentos. Já os opositores da prática argumentam que esse tipo de prescrição permite que as empresas optem por registrar seus produtos pela indicação que apresente maior facilidade durante os estudos clínicos, sabendo de antemão que o público alvo incluirá outras finalidades.

Marcia Angell, pesquisadora do Departamento de Medicina Social da Harvard Medical School, em seu famoso livro – A verdade sobre os Laboratórios Farmacêuticos – nos traça alguns caminhos para a reformulação das práticas farmacêuticas, como a proibição de laboratórios controlarem os ensaios clínicos de seus próprios medicamentos, e a obrigatoriedade de equilíbrio de investimento entre a formulação de me-too e a busca por moléculas inovadoras. Caminhos estes que podem nos levar a diminuir o elo entre a dinâmica medicamentosa e a visão do fármaco restrita ao produto encapsulado.

Este texto foi publicado como Editorial do Boletim do Atrás da Estante v. 8, nº1.
 
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Comprimidos para gente saudável, quem vai querer?

Por Raissa Carolina Fonseca Cândido

Centrum®. Victoza®. Ritalina®. Truvada®. Um polivitamínico. Um medicamento para o tratamento de diabetes. Um estimulante para o tratamento de TDAH e da narcolepsia. A primeira pílula aprovada para prevenir o HIV. O que todos eles têm em comum? São medicamentos que apesar de possuírem finalidades terapêuticas, caso do Victoza® e da Ritalina®, têm sido utilizados por pessoas saudáveis, ou melhor: são alguns exemplos deles.

Há aproximadamente 30 anos atrás, perto de se aposentar, o então diretor da Merck, Henry Gadsden, revelou em entrevista à revista Fortune que seu maior desespero era ver o mercado potencial de sua empresa confinado somente às doenças. Gadsden declarou que sonhava, havia muito tempo, produzir medicamentos destinados às pessoas saudáveis. Uma vez que, assim, a Merck teria a possibilidade de “vender para todo mundo”.

Este sonho que durante muito tempo não pôde ser realizado, parece estar se tornando real.  Prova disso, é que assim como os medicamentos citados, já existem medicamentos no mercado que mesmo tendo sua finalidade e utilidade terapêutica definida para o tratamento de doenças específicas, têm sido utilizados por pessoas saudáveis. Seja para suplementar a alimentação, para emagrecer ou para melhorar o desempenho acadêmico, estes medicamentos já ocupam um espaço na vida de milhares de pessoas em plena saúde.

Uma vez alterado neste sentido, o novo perfil do mercado farmacêutico traz mudanças profundas e complexas em um sistema onde o processo terapêutico é diretamente dependente, pelo menos em teoria, de um processo diagnóstico.

Se antes a subjetividade inerente a alguns diagnósticos já produzia questionamentos quanto à medicalização ou não do indivíduo doente, como será medicalizar a saúde deste?

Vale ressaltar que no caso de medicamentos como o Victoza® e a Ritalina® o uso sem nenhum objetivo terapêutico ou preventivo, bem como que para outra finalidade que não as regulamentadas não é autorizado, apesar de muito divulgado na literatura. Fato este que expõe outros aspectos da comercialização que não somente indica a já mencionada mudança no perfil do mercado consumidor de medicamentos, como também mostra a existência preocupante do desvio de prescrição e do comércio ilegal destas substâncias. (Ambos assuntos para um próximo texto…)

Assim, regulamentado ou não, a pergunta que fica é: estamos preparados para lidar com um mercado farmacêutico completamente independente de diagnóstico, onde o uso de medicamentos também é destinado a pessoas saudáveis?

“[…] De modo geral, quer me parecer que o homem contemporâneo está mais  escravizado aos remédios do que às enfermidades. Ninguém sai de uma farmácia sem ter comprado, no mínimo, cinco medicamentos prescritos pelo médico ou pelo vizinho ou por ele mesmo, cliente. Ir à farmácia substitui hoje o saudoso hábito de ir ao cinema ou  ao Jardim Botânico.”  (Carlos Drummond de Andrade, “O Homem e o Remédio: Qual o Problema?”)