O paradoxo das estatinas

Por Lívia Juliana Reis Duarte

O colesterol, um lipídio produzido pelo fígado, desempenha diversas funções no organismo, atuando na composição da membrana plasmática, na produção da bile e na síntese de vitaminas e de hormônios esteroides. Por ser insolúvel em água, o colesterol é ligado a proteínas para ser transportado no sangue, formando lipoproteínas que se dividem em dois grandes grupos: lipoproteínas de baixa e alta densidade1.

As lipoproteínas de baixa densidade (do inglês Low Density Lipoproteins – LDL e Very Low Density Lipoproteins – VLDL) são fundamentais para a produção de hormônios sexuais. No entanto, são popularmente conhecidas como “colesterol ruim”, pois em níveis elevados estão associadas a complicações cardiovasculares como aumento da pressão arterial, insuficiência cardíaca e infarto. Por outro lado, as lipoproteínas de alta densidade (High Density Lipoproteins – HDL) são conhecidas como “colesterol bom”, pois auxiliam na captação e transporte do colesterol em excesso no sangue ao fígado, onde é eliminado pela bile1.

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As estatinas formam uma classe de medicamentos que induzem a redução dos níveis de LDL no sangue. Sinvastatina, atorvastatina, rosuvastatina e fluvastatina são alguns dos representantes dessa classe, indicados, principalmente, para o tratamento de hipercolesterolemia (excesso de colesterol no sangue)2. As estatinas inibem a principal enzima que atua na produção de colesterol, a HMG-CoA redutase. Porém, cada fármaco que compõe o grupo se diferencia quanto à estrutura química, ao grau de afinidade por essa enzima e fatores farmacocinéticos como absorção, distribuição, metabolização e excreção do fármaco no organismo3,4. Estas diferenças são relevantes na seleção da estatina a ser prescrita. Além delas, o custo e as interações com outros fármacos também devem ser considerados na escolha. Outro aspecto interessante é a disponibilidade do medicamento no Sistema Único de Saúde (SUS), uma vez que contribui para facilitar e aumentar o acesso ao tratamento5.

As estatinas reduzem os níveis de colesterol, a ocorrência de eventos cardiovasculares e a necessidade de procedimentos cirúrgicos de revascularização6. Um estudo em que foi avaliada a eficácia da sinvastatina (40 mg/dia) demonstrou redução de 7% a 10% dos eventos cardiovasculares7. Em estudo comparativo entre a sinvastatina e a atorvastatina, ambas obtiveram resultados similares, com uma diminuição de 35% a 42% na concentração de LDL8. O uso de atorvastatina (10 a 80 mg/dia) resultou em uma diminuição de 37,1% a 51,7% na concentração de LDL9. Já a rosuvastatina (10 a 40 mg/dia) promoveu uma redução de 45,8% a 54,6% na concentração de LDL no sangue10.

A utilização das estatinas tem sido motivo de discussões devido aos riscos de efeitos adversos, além dos questionamentos sobre os reais benefícios do tratamento de indivíduos com baixo risco de doença cardiovascular11,12,13. Preocupações com manifestações acentuadas de dor e fraqueza muscular foram debatidas em publicações científicas e destacadas pela mídia14,15.

Em outubro de 2013, dois artigos, publicados no British Medical Journal12,13 tiveram ampla repercussão na imprensa do Reino Unido e foram compreendidos como críticas às estatinas. Seus autores sugeriram que os benefícios à saúde não superavam os riscos de efeitos adversos em pacientes com risco cardiovascular baixo ou intermediário. Consequentemente, observou-se um aumento significativo no número de pacientes que interromperam o uso de estatinas devido à divulgação na mídia15.

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Diante desse cenário de controvérsias, vale ressaltar que nenhum tratamento deve ser interrompido sem uma análise minuciosa da situação clínica do paciente e orientação médica. Em todos os casos, a mudança no estilo de vida assume especial importância. Adotar uma alimentação saudável, praticar atividades físicas rotineiramente e evitar o uso de cigarro e de bebidas alcoólicas são hábitos que podem retardar a necessidade de utilizar esses medicamentos ou contribuir significativamente para o sucesso do tratamento.

 

Referências:

  1. Guyton AC,Hall JE. Tratado de fisiologia médica. 12. ed. Rio de Janeiro: Elsevier Brasil; p. 663.
  2. Brunton LL, Chabner BA, Knollman BC. As bases farmacológicas da terapêutica de Goodman & Gilman. 12. ed., Porto Alegre: AMGH; 2012. p. 892-898.
  3. Fonseca FAH. Farmacocinética das estatinas. Bras. Cardiol. 2005 out; 85(suppl 5):9-14. DOI 10.1590/S0066-782X2005002400003
  4. Schachter M. Chemical, pharmacokinetic and pharmacodynamic properties of statins: an update. Fundam Clinic Pharmacol, 2005 fev; 19(1): 117–125. DOI 10.1111/j.1472-8206.2004.00299.x
  5. Ministério da Saúde. Portaria nº 1.554 de 30 de julho de 2013. Dispõe sobre as regras de financiamento e execução do Componente Especializado da Assistência Farmacêutica no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). Diário Oficial da União. 2013 jul. 31; Seção 1. p. 69-71
  6. Taylor F, Huffman MD, Macedo A, Moore THM, Burke M, Davey Smith G, Ward K, Ebrahim S. Statins for the primary prevention of cardiovascular disease. Cochrane Database Syst Rev. 2013 jan 31; (1): CD004816 DOI 1002/14651858.CD004816.pub5
  7. Heart Protection Study Collaborative Group. MRC/BHF Heart Protection Study of cholesterol lowering with simvastatin in 20 536 high-risk individuals: a randomised placebo controlled trial. Lancet. 2002 jul 6; 360(9326):7–22. DOI 1016/S0140-6736(02)09327-3
  8. Recto CS, Acosta S, Dobs A. Comparison of the efficacy and tolerability of simvastatin and atorvastatin in the treatment of hypercholesterolemia. Clin Cardiol. 2000 set; 23(9):682–688. DOI 10.1002/clc.4960230910
  9. Adams SP, Tsang M, Wright JM. Lipid-lowering efficacy of atorvastatin. Cochrane Database Syst Rev 2012 dez 12; 12:CD008226  DOI: 1002/14651858.CD008226.pub2
  10. Adams SP, Sekhon SS, Wright JM. Lipid-lowering efficacy of rosuvastatin. Cochrane Database of Syst Rev. 2014 nov 21; 11: CD010254 DOI: 1002/14651858.CD010254.pub2
  11. Abramson JD, Rosenberg HG, Jewell N, Wright JM. Should people at low risk of cardiovascular disease take a statin? BMJ. 2013 out 22; 347:f6123. DOI 1136/bmj.f6123.
  12. Malhotra A. Saturated fat is not the major issue. BMJ. 2013 out 22; 347:f6340. DOI 1136/bmj.f6340
  13. Zhang H, Plutzky J, Skentzos S, Morrison F, Mar P, Shubina M, Turchin A. Discontinuation of statins in routine care settings.Ann Intern Med, 2013 abr 2; 158(7):526–534. DOI  7326/0003-4819-158-7-201304020-00004
  14. Yusuf S. Why do people not take life-saving medications? The case of statins. Lancet. 2016 set 3, 388(10048):943–945. DOI 1016/S0140-6736(16)31532-X
  15. Matthews A, Herrett E, Gasparrini A, Van ST, Goldacre B, Smeeth L, Bhaskaran K. Impact of statin related media coverage on use of statins: interrupted time series analysis with UK primary care data. 2016 jun 28; 353:i3283. DOI 10.1136/bmj.i3283