Sarampo: principais características e a importância da vacinação

Por Augusto Cesar Ribeiro da Silva

Em 2016, a região das Américas foi declarada livre do sarampo. Porém, essa não é mais uma realidade no Brasil, que entre fevereiro de 2018 a janeiro de 2019 apresentou 9.803 casos confirmados apenas no estado do Amazonas. Já no período de 7 de julho a 28 de setembro de 2019 foram confirmados um total de 5.404 casos no país, sendo 97% deles concentrados no estado de São Paulo1,2.

O sarampo é uma doença altamente contagiosa causada pelo vírus da família Paramyxorividae, que é transmitido por contato com partículas provenientes da tosse, respiração, fala ou espirro. Além disso, as partículas virais podem ficar suspensas no ar por até duas horas em ambientes fechados como escolas, creches e clínicas3.

Os sintomas mais comuns são febre alta (de 39,5 a 41°C), coriza, olhos vermelhos, tosse e erupções cutâneas (manchas vermelhas), que inicialmente surgem na região do rosto e se espalham em aproximadamente três dias, alcançando a região das mãos e dos pés. A infecção pela doença acomete o trato respiratório e dissemina por todo o corpo, causando inúmeras complicações associadas, como diarreia grave, encefalite, cegueira, otite ou pneumonia4.

A doença é grave e possui três fases distintas: incubação, prodrômica e exantemática3. Na primeira fase, que dura de 10 a 14 dias após o contágio, geralmente os sintomas ainda não estão presentes. Na fase prodrômica (2ª fase) surgem manifestações inespecíficas (que não são suficientes para diferenciação da doença) como tosse, coriza e conjuntivite. No final dessa fase, aparecem as manchas de Koplik, que são pequenas lesões discretamente elevadas e de cor branca presentes na região interna da boca. Já a terceira fase é marcada pela predominância de lesões cutâneas de coloração vermelha, também chamados exantemas, por isso ela é denominada fase exantemática5.

sarampo-na-boca

Manchas de Koplik na boca (Fonte: Instituto PENSI)

O diagnóstico é realizado por meio da avaliação clínica feita pelo médico e por exames laboratoriais, que podem ser feitos pela análise das secreções coletadas no nariz e na boca, urina, sangue ou líquido cefalorraquidiano, de preferência nos primeiros dias de aparecimento dos sintomas. O diagnóstico laboratorial é utilizado para dar suporte ao diagnóstico clínico3.

O sarampo não possui tratamento específico. São utilizadas apenas medidas para minimizar o desconforto dos pacientes, que costumam ficar isolados a fim de prevenir a disseminação do vírus. A redução de vitamina A é uma consequência do sarampo e pode causar cegueira em crianças, por isso, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda aos profissionais de saúde a administração oral de duas doses dessa vitamina para a população infantil diagnosticada6. A maioria dos pacientes se recupera em duas ou três semanas, mas entre 5% e 20% das pessoas com sarampo chegam a óbito por complicações secundárias graves7.

A prevenção do sarampo é feita por meio da vacina, que é disponibilizada gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e está em uso há mais de 50 anos. A figura8 a seguir mostra as recomendações de vacinação, de acordo com a idade:

a volta dos bichos

Para prevenir a doença, é importante a participação ativa da população por meio do cumprimento do esquema de vacinação. Ao se vacinar, o indivíduo se previne contra o sarampo e favorece a proteção coletiva da população, pois contribui para evitar a disseminação da doença. Devido à propagação de notícias falsas pela internet, relatando outras formas de tratamento ou falta de segurança dessa vacina, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) disponibilizou um número de WhatsApp® (61)99289-4640 para esclarecer dúvidas sobre medicamentos e produtos para saúde. Trata-se de um canal exclusivo para checagem da veracidade das informações9.

REFERÊNCIAS:

  1. Ministério da Saúde. Secretaria de vigilância em Saúde. Sarampo Monitoramento da situação no Brasil. Brasília; 2019. Informe nº 45 de 26 de julho 2019. [Internet]. [acesso em 2019 setembro 29]. Disponível em: https://portalarquivos2.saude.gov.br/images/pdf/2019/agosto/01/Informe-Sarampo-n45.pdf
  2. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Vigilância epidemiológica do sarampo no Brasil em 2019: Semanas Epidemiológicas 28 a 39 de 2019. Volume 50, Out. 2019 Brasília. Disponível em: https://portalarquivos2.saude.gov.br/images/pdf/2019/outubro/04/BE-multitematico-n28.pdf
  3. Xavier AR, Rodrigues TS, Santos LS, Lacerda GS, Kanaan S. Diagnóstico clínico, laboratorial e profilático do sarampo no Brasil. J. Bras. Patol. Med. Lab. [Internet]. 2019 Aug [acesso em  2019  Outubro  29] ;  55( 4 ): 390-401. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1676-24442019000400390&lng=en.
  4. Organização Mundial de Saúde. Organização Pan Americana da saúde. Folha informativa – Sarampo. Atualizada em agosto de 2019. [acesso em 2019 setembro 01]. Disponível em: https://www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=article&id=5633:folha-informativa-sarampo&Itemid=1060
  5. Ministério da Saúde. Centro de Vigilância Epidemiológica. Estado de São Paulo. Sobre Sarampo. [Internet]. Disponível em: http://www.saude.sp.gov.br/resources/cve-centro-de-vigilancia-epidemiologica/areas-de-vigilancia/doencas-de-transmissao-respiratoria/sarampo/sarampo.html
  6. Organização Mundial de Saúde. Fact Sheets: Sarampo. Internet. [acesso 2019 setembro 29]. Disponível em: https://www.who.int/en/news-room/fact-sheets/detail/measles
  7. Médicos Sem Fronteiras. Sarampo. [Internet]. [Acesso em 2019 setembro 29]. Disponível em: https://www.msf.org.br/o-que-fazemos/atividades-medicas/sarampo
  8. Ministério da Saúde. Guia de Vigilância em Saúde. Volume Único. Sarampo pag.125-6. Brasília; 2019. Disponível em: https://portalarquivos2.saude.gov.br/images/pdf/2019/junho/25/guia-vigilancia-saude-volume-unico-3ed.pdf
  9. Ministério da Saúde. Fake News. [Internet] [acesso 2019 setembro 29]. Disponível em: http://www.saude.gov.br/fakenews

 

É vantajoso aplicar produtos contendo vitamina C na pele?

por Marina Rezende Da Silveira

O ácido ascórbico, mais conhecido como vitamina C, é uma substância essencial para os seres humanos, sendo muito importante para diversas funções no organismo, como a estimulação do sistema imunológico e prevenção de doenças, tais como o escorbuto*1. Essa vitamina não pode ser sintetizada pelo próprio corpo e por isso deve ser obtida através da alimentação, preferencialmente por meio de vegetais e frutas2,3. A ingestão recomendada de vitamina C para adultos é de 75 a 100mg/dia e, em caso de infecções, gravidez e tabagismo, doses maiores podem ser necessárias2,4. Além dos benefícios já conhecidos, obtidos por meio da ingestão, produtos com essa vitamina para uso externo são utilizados com o objetivo de aprimorar a saúde e aparência da pele³. Apesar de existirem mecanismos que justifiquem esse uso, há algumas limitações, o que levanta questionamentos sobre a real contribuição da vitamina C administrada por via tópica3.

1

Fonte: Google Imagens

A vitamina C tem um papel importante na produção e estabilização de colágeno, proteína responsável pela capacidade elástica e resistência da pele. Com o envelhecimento, ocorrem alterações na forma dessa proteína e redução de seus níveis no organismo, provocando diminuição da elasticidade e espessura da pele, o que causa o aparecimento de rugas2. O uso tópico da vitamina C pode estabilizar e aumentar a produção de colágeno na pele envelhecida2,3. Outra questão interessante, é que essa vitamina também age no clareamento da pele, pois atua na inibição da produção de melanina (proteína responsável pela pigmentação), sendo então indicada para tratamentos de manchas e melasma*3.

Além disso, a vitamina C protege a pele contra a ação dos raios ultravioleta (UV), os quais promovem a geração de radicais livres5. A proteção fornecida por essa vitamina se deve ao fato de que essa é um antioxidante muito abundante na pele humana, protegendo-a dessas espécies reativas5. Tal característica é importante, já que esses radicais causam danos às proteínas e ácidos nucleicos (principais componentes do DNA) e podem estar entre os fatores responsáveis pela aceleração do envelhecimento e a ocorrência do câncer de pele5.

 Apesar do uso tópico da vitamina C ser potencialmente benéfico para a pele, essa via de administração apresenta fatores limitantes, já que não é uma substância fácil de ser absorvida. A molécula é instável e, por ser solúvel em água, possui dificuldade em ultrapassar a barreira da pele, pois nela há uma camada lipídica, sendo necessário valores de pH e concentrações específicas para a sua penetração6. Portanto, os benefícios do uso externo dessa vitamina dependem das propriedades do produto utilizado3.

Outro possível fator limitante é a saturação da quantidade de vitamina C disponível no sangue. Ao ser ingerida, a vitamina chega à pele por meio da corrente sanguínea, de modo que a sua quantidade aumenta à medida em que há aumento da ingestão. Porém, quando a concentração plasmática alcança um nível máximo, não há mais transferência para a derme. Assim, caso haja saturação da vitamina no sangue, esta provavelmente não será absorvida pelo meio externo e seu uso tópico não será efetivo3.

Assim, embora a vitamina C seja essencial para a saúde da pele e o seu uso tópico tenha potenciais benefícios, sua instabilidade e absorção limitada por via externa, dificultam o acesso a produtos realmente eficazes. Dessa forma, é importante garantir a obtenção dessa vitamina por meio da alimentação e manter o uso tópico somente em situações nas quais se observe uma relação custo-benefício positiva.

 

*Glossário:

Escorbuto: Doença causada pela ausência de vitamina C. Os sintomas incluem má cicatrização das feridas, hemorragias e inchaço na gengiva7.

Melasma: Condição em que ocorrem manchas hiperpigmentadas, geralmente na face. É mais comum em mulheres e pessoas com tipos de pele mais escuros. É possivelmente provocado por raios UV e influências hormonais8.

Referências:

1- Telang PS. Vitamin C in dermatology. Indiandermatology online journal. 2013;4(2):143-6.

2.Manela-Azulay M, Mandarim-de-Lacerda CA, Perez MdA, Filgueira AL, Cuzzi T. Vitamina C. Anais Brasileiros de Dermatologia. 2003;78:265-72.

3- Pullar JM, Carr AC, Vissers MCM. The Roles of Vitamin C in Skin Health.Nutrients. 2017;9(8).

4-National Institutes Of Health. Vitamin C. Bethesda, Marlyland; 2018.[acesso em 2019 abr 15].Disponível em: https://ods.od.nih.gov/factsheets/VitaminC-HealthProfessional/

5-Al-Niaimi F, Chiang NYZ. Topical Vitamin C and the Skin: Mechanisms of Action and Clinical Applications. The Journal of clinical and estheticdermatology. 2017;10(7):14-7.

6-Crisan, Diana et al. “The role of vitamin C in pushing back the boundaries of skin aging: an ultrasonographic approach.” Clinical, cosmetic and investigational dermatology vol. 8 463-70. 2 Sep. 2015

7-Maxfield L, Crane JS. Vitamin C Deficiency (Scurvy) [Updated 2019 Jan 26]. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2019 Jan-. Available from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK493187/

8-Ogbechie-Godec OA, Elbuluk N. Melasma: an Up-to-Date Comprehensive Review. Dermatology and therapy. 2017;7(3):305-18.