Hanseníase: tratamento poliquimioterápico

por Daniela Fernandes Silva

A hanseníase, também conhecida como lepra, é uma infecção crônica causada pela bactéria Mycobacterium leprae que provoca lesões na pele, mucosas e nervos periféricos (aqueles que se situam fora do cérebro e da medula espinhal)1,2. O diagnóstico da hanseníase é realizado por meio da análise da história e das condições de vida do paciente e pelo exame dermatoneurológico, que tem o objetivo de identificar lesões ou áreas da pele com a sensibilidade reduzida bem como o comprometimento de nervos³. Em 2015 foram identificados mais de 26 mil novos casos de hanseníase no Brasil, sendo o segundo país com maior número de novos casos, de acordo com a Organização Mundial de Saúde4.

A doença é classificada em paucibacilar (pessoas que apresentam até cinco lesões na pele) e multibacilar (pessoas que apresentam mais de cinco lesões na pele). O Mycobacterium leprae é transmitido entre pessoas que tenham um contato próximo e prolongado como, por exemplo, familiares que residem na mesma casa. Porém, a transmissão ocorre apenas quando a pessoa apresenta a forma multibacilar e não está em tratamento5. As vias aéreas superiores são consideradas as principais vias de transmissão da doença.

O tratamento é fornecido exclusivamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e são utilizados esquemas terapêuticos padronizados (poliquimioterápico) para adultos e crianças, levando em consideração se a hanseníase é paucibacilar ou multibacilar. O poliquimioterápico é uma associação dos medicamentos rifampicina, dapsona e clofazimina5. Essa associação é feita para evitar a resistência da bactéria, que é frequente quando o paciente utiliza apenas um dos medicamentos6.

Gestantes, lactentes e crianças podem usar o poliquimioterápico padrão, porém  para as crianças as doses dos medicamentos são ajustados de acordo com o seu peso5. Caso uma pessoa apresente intolerância a um dos medicamentos do esquema padrão, são fornecidos esquemas alternativos5. Mulheres em idade reprodutiva devem usar preservativo durante as relações sexuais, pois a rifampicina pode interagir com os anticoncepcionais orais, diminuindo a sua eficácia5.

O paciente em tratamento deve comparecer a Unidade Básica de Saúde mensalmente para receber a cartela que contém todos os medicamentos que serão usados no mês. Essa cartela é dividida em duas partes: uma que possui a dose mensal supervisionada que deve ser administrada na presença do agente de saúde e outra parte que possui os medicamentos que devem ser administrados pelo próprio paciente diariamente6. No dia de recebimento da cartela, o paciente é avaliado quanto a evolução de lesões de pele e do comprometimento neural. Também são dadas orientações sobre alguns cuidados a serem seguidos pelo paciente para evitar complicações da doença6.

O tratamento para  a hanseníase paucibacilar possui duração de seis doses supervisionadas que podem ser administradas em até nove meses, enquanto o tratamento para a hanseníase multibacilar é de 12 doses supervisionadas em até 18 meses. Os efeitos adversos que podem ocorrer são náuseas, vômitos, icterícia (coloração amarelada na pele), diarreia, dor abdominal, anemia hemolítica, entre outros. Nas últimas doses os pacientes são submetidos ao exame dermatoneurológico para avaliar a possibilidade de alta por cura5.

A hanseníase é uma doença antiga e que carrega um grande estigma, pois nos tempos remotos acreditava-se que não havia cura para essa enfermidade e os pacientes eram frequentemente isolados. Porém, a hanseníase tem cura e quando não tratada pode trazer sérias complicações para a vida do paciente, como o comprometimento de nervos. O tratamento e todo o acompanhamento profissional necessário é fornecido, gratuitamente, pelo SUS.

Tratamento poliquimioterápico da hanseníase - final

Referências:

1 Descritores em Ciências da Saúde. Hanseníase. [acesso em 15 nov 2017].

2 Descritores em Ciências da Saúde. Nervos Periféricos. [acesso em 15 nov 2017].

3 Brasil, Ministério da Saúde. Portaria n° 3.125, de 07 de outubro de 2010. [acesso em 10 nov 2017]. Disponível em: <http://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2010/prt3125_07_10_2010.html&gt;

4 World Health Organization. Weekly epidemiological record. Global leprosy update, 2015: time for action, accountability and inclusion. Ano 2016, edição n° 35:405-20. [acesso em 18 nov 2017]. Disponível em: <http://apps.who.int/iris/bitstream/10665/249601/1/WER9135.pdf?ua=1&gt;

 5 Brasil, Ministério da Saúde. Guia de Vigilância em Saúde. Febre Maculosa Brasileira e outras Riquetsioses. Edição n° 1. Brasília, 2017. [acesso em 2017 nov 25]. Disponível em: <http://portalarquivos.saude.gov.br/images/pdf/2017/setembro/05/Guia-de-Vigilancia-em-Saude-2017-Volume-2.pdf&gt;

6 Brasil, Ministério da Saúde. Guia para o Controle da Hanseníase. Edição n° 3. Brasília, 2002. [acesso em 15 nov 2017]. Disponível em: <http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/guia_de_hanseniase.pdf&gt;