Cólica Infantil: uma manifestação gástrica ou psicossocial?

Por Clara Mendes da Cruz

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A cólica infantil é uma condição autolimitada, descrita como o excesso de choro e agitação da criança por mais de três horas diárias e por um período maior do que três dias da semana. É causada por fatores fisiológicos e psicossociais não definidos. Geralmente ocorre no primeiro trimestre de vida da criança e muitas vezes não é bem conhecida pelos pais, gerando dúvidas de como proceder diante da situação e ao uso de métodos de conhecimento popular para tratamento. Sua incidência varia de 5% a 19% nos lactentes menores de um ano de idade, independente do sexo e da alimentação com leite materno ou adaptado (2). A cólica pode levar a interrupção precoce da amamentação e está associada ao abuso infantil e à depressão materna (1).

O sintoma mais conhecido da cólica infantil é a dor abdominal, cujos possíveis mecanismos gastrointestinais incluem aumento de gás e alteração do movimento do intestino (1). Seu diagnóstico deve ser realizado após a exclusão de causas orgânicas (função gastrointestinal anormal e distúrbios alérgicos), que ocorrem em menos de 10% dos lactentes. O refluxo, por exemplo, pode ser uma causa orgânica que será comprovada se houver também manifestação de vômito, perda de peso e dificuldade de alimentação. A intolerância à lactose e a alergia à proteína do leite de vaca (proveniente da dieta da mãe) também podem ser causas da irritabilidade e devem ser investigadas por serem consequências de fatores genéticos da criança e da influência dos laticínios ingeridos pela mãe (1).

Pesquisas realizadas com foco na microbiota intestinal sugerem que existem diferenças entre a microbiota de pacientes com e sem cólica. Nos resultados, houve indícios de maior frequência da bactéria E.coli e menor frequência de espécies de bactérias Lactobacillus na microbiota de pacientes que apresentavam cólica (1,3,7). Outros testes foram realizados para esclarecer os efeitos do probiótico Lactobacillus reuteri administrado uma vez ao dia para crianças em amamentação, demonstrando uma amenização da sintomatologia das cólicas (4).

Por outro lado, o uso de simeticona (medicamento antigases), embora muito difundido, tem se mostrado ineficaz para o tratamento das cólicas infantis. Nos resultados de eficácia apresentados na própria bula do medicamento são citados estudos em que a simeticona foi comparada ao probiótico Lactobacillus reuteri ou a placebo (substância sem ação farmacológica), indicando que a simeticona não é superior a esses dois tratamentos para controle do choro e outros sintomas de cólica infantil (1,4,5,6).

Outros métodos de tratamento são utilizados pelos pais, como o uso de infusões de ervas populares que, apesar de demonstrarem alguma eficácia, tem potencial de causar efeitos nutricionais negativos se o uso for prolongado e levar ao desmame precoce da criança, principalmente nos primeiros seis meses de idade (1,8,9). As massagens também são utilizadas, entretanto uma pesquisa mostrou que este método apresentou pouca melhora sintomática quando comparada ao uso de infusões, soluções de sacarose ou fórmulas hidrolisadas (8).

Frente às dificuldades de reconhecimento e estabelecimento de uma terapia adequada para a cólica infantil, é importante que os profissionais de saúde analisem cada caso individualmente. Muitas vezes a insegurança, o cansaço e a ansiedade pela cessação do choro e os incômodos da criança levam ao emprego de medidas farmacológicas ineficazes (10). Por isso, o profissional deve observar o comportamento dos pais ao lidarem com os choros da criança e procurar entender a percepção que a família tem das agitações do filho para que possam ser discutidas as possíveis causas e as melhores soluções para aliviar o desconforto do bebê (1,3).

 

 

Referências:

1 Sung V. Infantil Colic. AustPrescr. 2018 Aug;41(4):105-110. DOI:10.18773/austprescr.2018.033

2 DynaMed. InfatileColic, Epidemiology.[Acesso em 2018 Set. 11] Disponível em: https://goo.gl/RkKBJc

3 Sung V, Cabana MD.Probiotics for Colic – Is the gut responsible for Infant crying after all?J Pediatr. 2017. 191: 6-8. DOI: https://doi.org/10.1016/j.jpeds.2017.09.010

4 Riberio C, Coutinho S. Efeito do Lactobacillus reuteri na cólica infantil: revisão baseada em evidências. RevPortMed Geral Fam [Internet]. 2016. [Acesso em 2018 Ago. 17]; 32:388-94.Disponívelem:http://www.scielo.mec.pt/pdf/rpmgf/v32n6/v32n6a05.pdf

5 Luftal: simeticona; gotas/comprimido.Responsável técnico: Fabiana Seung Ji de Queiroz.São Paulo: Reckitt Beckiser, 2017. Bula do medicamento. [acesso em 2018 out 05]. Disponível em: http://www.anvisa.gov.br/datavisa/fila_bula/frmVisualizarBula.asp?pNuTransacao=5636552015&pIdAnexo=2705464

6 Metcalf TJ et al. Simethicone in the treatment of infant colic: a randomized, placebo-controlled, multicenter trial. Pediatric. 1994 July; 94(1):1. [Acesso em 2018 Ago. 17]. Disponível em: http://pediatrics.aappublications.org/content/94/1/29.long

7 Savino F, Pelle E.. et al. Lactobacillus reuteri vs Simethicone in the treatment of infantile colic: a prospective randomized study. Pediatric. 2007 Jan; 119(1):e124-30 [Acesso em 2018 Ago. 17]. Disponível em: http://pediatrics.aappublications.org/content/119/1/e124

8 Akiran D;  Alp H. et al. Effectiveness of massage, sucrose solutions, herbal tea or hydrolysed formula in the treatment of infantile colic.[Internet]. Jul. 2008.v. 13: 1754-61. PubMed. [Acesso em 2018 Ago. 17]. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/18592627

9 Garrinson M, Christakis A. A Systematic Review of Treatments for Infantil Colic. [Acesso em 2018 Ago. 23] Jul. 2000. Disponível em: http://pediatrics.aappublications.org/content/106/Supplement_1/184

10 Biffi M, Maíra P, Dessotti A, Bernades I. Cólica do Lactante: Uma revisão da literatura. [Monografia]. Universidade Estadual de Campinas, Faculdade de Odontologia de Piracicaba. 2018

 

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Laxantes e os riscos do uso abusivo

Por Pollyana Cristina de Sousa

A constipação intestinal, popularmente conhecida como prisão de ventre, é caracterizada por dificuldade na evacuação, evacuação infrequente ou eliminação de fezes endurecidas. A baixa ingestão de líquidos, a alimentação pobre em fibras e o sedentarismo são fatores que contribuem para essa disfunção intestinal. Entretanto, o quadrotambém pode ser resultante de problemas como a obstrução intestinal por tumores, irritação anorretal e o uso de determinadas classes de medicamentos (ex.: antidepressivos, analgésicos opioides, suplementos de cálcio e ferro, entre outros) [1,2].

Geralmente, a hidratação e a adequação da quantidade de fibras na dieta são suficientes para corrigir o quadro de constipação. Entretanto, quando essas medidas não são capazes de reverter o quadro, a administração de laxantes pode ser necessária. Existem vários tipos de laxantes disponíveis no mercado, incluindo agentes salinos e osmóticos, estimulantes e lubrificantes [3]. O quadro [1,2] abaixo traz informações sobre o mecanismo de ação dessas diferentes classes.O uso do laxante deve ser feito na menor dose recomendada e pelo menor período possível, levando em consideração a prescrição médica, para evitar diarreias, desidratação e o uso abusivo do medicamento [5].

Laxante

Mecanismo de ação

Agentes estimulantes (ex.: bisacodil e derivados de antraquinonas – sene e cáscara sagrada) Estimulam o peristaltismo e alteram a secreção de água e eletrólitos, produzindo acúmulo de líquido no intestino grosso.
 

Laxantes salinos

(ex.: hidróxido de magnésio)

 

Têm a capacidade de atrair e concentrar água no intestino grosso, tornando as fezes mais fluidas. Além disso, podem estimular a secreção de hormônios que aumentam a motilidade e a secreção intestinal.

 

 

Laxante osmótico

(ex.: lactulose)

 

Atraem água para o intestino grosso, tornando as fezes amolecidas e fluidas.

 

 

 

Lubrificante – via oral

(ex.: óleo mineral)

 

 

 

 

 

Diminuem a absorção de água no intestino grosso, além de lubrificar e facilitar a defecação.

 

 

Lubrificante – via retal

(ex.: glicerina)

 

Diversos fatores incluindo a dificuldade de adaptação a uma dieta rica em fibras, equívocos sobre a frequência normal e desejável de evacuações e a facilidade de compra de laxantes podem levar ao uso abusivo desses medicamentos [4]. Muitos indivíduos possuem a noção equivocada de que a evacuação diária é requisito para ter boa saúde e recorrem, prioritariamente, à utilização de laxantes para obter essa periodicidade. Contudo, o uso desses medicamentos é impróprio nesse contexto, uma vez que eles não devem substituir a ingestão de alimentos ricos em fibras e a boa hidratação. Além disso, baixa frequência de evacuações não é a única premissa para o diagnóstico de constipação. A frequência de três vezes na semana é considerada suficiente se não houver outras condições como a necessidade de esforço excessivo ou manobra manual para eliminação das fezes, fezes endurecidas ou fragmentadas, e sensação de evacuação incompleta [1,3,6].

O abuso de laxantes também pode estar associado à obsessão por perda de peso e a transtornos alimentares como bulimia e anorexia. Essa prática é baseada na crença de que o aumento do trânsito intestinal prejudicará a absorção de nutrientes calóricos e levará ao emagrecimento [3]. No entanto, o uso excessivo de laxantes pode provocar desidratação e provocar desidratação e perdas eletrolíticas que podem acometer os sistemas renal e cardiovascular. Além disso, o sistema renina-angiotensina-aldosterona* é ativado devido à perda de líquido, o que leva ao edema (inchaço) e, consequentemente, ganho de peso agudo quando o laxante é descontinuado. Esse efeito pode levar a novos episódios de uso abusivo de laxante, criando um ciclo de uso inadequado do medicamento e potencialização dos danos [3].

Não existe uma técnica definida para tratar indivíduos que abusam de laxantes. O importante é tratar a doença de base e ajustar as intervenções medicamentosas e hábitos de vida para manter a função gastrointestinal saudável. Se o paciente possui crenças equivocadas sobre a frequência normal de evacuações, a educação é essencial. Se a pessoa está sofrendo de um transtorno alimentar, um tratamento psicológico deve ser considerado. Qualquer que seja a abordagem adotada, o acompanhamento por profissionais da saúde é um elemento de grande relevância para a obtenção de bons resultados e a prevenção do uso inapropriado de laxativos.

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Glossário

* Sistema renina-angiotensina-aldosterona: É um sistema de grande importância para regular a pressão sanguínea e a homeostase eletrolítica. Quando ocorre uma depleção no volume sanguíneo, o corpo estimula a produção de renina, angiotensina e aldosterona para regular o nível hídrico e restabelecer a homeostase [7].

Referências:

  1. World Gastroenterology Organisation. Constipação: uma perspectiva mundial. WGO. [acesso em julho/2018]. Disponível em: <http://www.worldgastroenterology.org/userfiles/file/guidelines/constipation-portuguese-2010.pdf&gt;.
  2. CHEHTER, Luiz. Constipação intestinal. RBM. 2013 ago-set; 5 (8/9): 287-292.
  3. ROERIG, James L. Et al. Laxative Abuse. Drugs. 2010 ago; 70(12):1487-1503. DOI: 10.2165/11898640-000000000-00000.
  4. XING, Jin Hong. Adverse Effects of Laxatives. 2001 ago; 44(8):1201-1209.
  5. SHARKEY, Keith A.; WALLACE, John L. Tratamento dos distúrbios da motilidade intestinal e do fluxo da água; antieméticos; fármacos usados nas doenças biliares e pancreáticas. In: BRUNTON, Laurence L.; CHABNER, Bruce A.; KNOLLMANN, Björn C.As bases farmacológicas da terapêutica de Goodman & Gilman. Ed. New York: Amgh Editora Ltda, 2012. p. 1328-1338.
  6. Related Harrison’s Resources. In: Jameson J, Fauci AS, Kasper DL, Hauser SL, Longo DL, Loscalzo J. Harrison’s Principles of Internal Medicine, 20e New York, NY: mcgraw-Hill; . < Http://accessmedicine.mhmedical.com/content.aspx?Bookid=2129&sectionid=191734580. Accessed setembro 12, 2018.
  7. Fernandes, D. R., Cavalcante filho, R. D., Silva, J.N., Geron, V.L.M., Terra JN, a. T. Aspectos funcionais e fisiológicos do sistema Renina-Angiotensina Aldosterona. Revista Científica da Faculdade de Educação e Meio Ambiente. 2016 jan-jun. 7(1): 1-15.