Por que a suplementação com ácido fólico é recomendada na gestação?

por Claudyane Pinheiro Marinho

O ácido fólico é uma forma artificial do folato, um subtipo de vitamina B essencial na formação de novas células do organismo. É obtido por meio da ingestão de alimentos como frutas, legumes e folhas verde escuras.  Contudo, nem sempre é possível ingerir a quantidade ideal a partir da alimentação, e faz-se necessária a suplementação. Esta recomendação aplica-se, por exemplo, a mulheres que pretendem engravidar ou que estão no primeiro trimestre da gravidez, visto que a falta do ácido fólico pode interferir no desenvolvimento saudável do feto1,2.

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A deficiência de ácido fólico no organismo da gestante pode resultar no fechamento inadequado do tubo neural do feto no início da gestação. Dentre as principais complicações desse quadro estão a anencefalia (ausência parcial ou completa do cérebro), responsável por uma grande quantidade de mortes fetais e neonatais e malformações na medula espinhal, que originam a chamada espinha bífida (fechamento incompleto da coluna vertebral). Podem ocorrer também outras complicações como a encefalocele (malformação no crânio que atinge o cérebro e as meninges). Todos esses comprometimentos podem implicar no mau desenvolvimento físico e mental do feto3.

A má formação do tubo neural pode ocorrer em qualquer gestação, porém, mulheres que apresentam diabetes, obesidade, dificuldade do organismo em metabolizar o folato ou histórico familiar de malformações congênitas possuem uma maior predisposição a ter filhos com essa condição, o que pode significar necessidade de doses mais altas de ácido fólico2.

A suplementação deve ser iniciada pelo menos um mês antes da gestação1,2. A Organização Mundial da Saúde (OMS) preconiza que a ingestão de ácido fólico seja de 0,4mg/dia4 e o valor recomendado para a população com deficiência de ácido fólico é de 1 mg/dia. Em casos refratários a dosagem pode ser maior, de acordo com a necessidade do paciente5.

A suplementação adequada pode reduzir significativamente o risco de complicações na formação do tubo neural. No Brasil, é obrigatório que as farinhas de milho e trigo sejam enriquecidas com ácido fólico desde 2004. A partir de então, o número de nascidos com defeitos no tubo neural diminuiu 22,8% entre os nascidos vivos, e 30,1% se forem considerados os nascidos vivos e os natimortos6.

É essencial que todas as mulheres em idade fértil com intenção de engravidar consultem um médico, tanto para avaliação de seu estado de saúde geral, quanto para receber orientações a respeito de suplementações e demais cuidados a serem adotados na gestação. Mulheres grávidas devem fazer o acompanhamento pré-natal para que possíveis problemas associados a sua saúde e a do feto sejam detectados e tratados precocemente, quando passíveis de intervenções7.

 

Referências:

1- Division of Birth Defects, National Center on Birth Defects and Developmental Disabilities, Centers for Disease Control and Prevention. Facts about folic acid. USA. [Última atualização em 24 de maio de 2017, acesso em 2017 outubro 19] Disponível em  https://www.cdc.gov/ncbddd/folicacid/about.html

2- U. S. Preventive Services Task Force. Folic Acid Supplementation for the Prevention of Neural Tube Defects: Recommendation Statement. Am Fam Physician.Maio de 2017. [acesso em 2017 outubro 19]. Disponível em http://www.aafp.org/afp/2017/0515/od4.html

3- Botto LD, Moore CA, Khoury MJ, Erickson D. Neural-Tube Defects. N Engl J Med. 341:1509-1519. Novembro 11, 1999. [acesso em 2017 outubro 19]. Disponível em www-nejm-org.ez27.periodicos.capes.gov.br/doi/full/10.1056/NEJM199911113412006

4- OMS. Diretriz: Suplementação diária de ferro e ácido fólico em gestantes. Genebra: Organização Mundial da Saúde; 2013. [acesso em 2017 nov. 14]. Disponivel em http://apps.who.int/iris/bitstream/10665/77770/9/9789248501999_por.pdf

5- Truven Health Analytics. Micromedex Solutions®. Folic acid. [acesso em 2017 outubro 19]. Disponível em http://www-micromedexsolutions-com.ez27.periodicos.capes.gov.br/micromedex2/librarian/PFDefaultActionId/evidencexpert.DoIntegratedSearch#

6- Santos LMP, Lecca RCR, Escalante JJC, Sanchez MN, Rodrigres HG. “Prevention of Neural Tube Defects by the Fortification of Flour with Folic Acid: A Population-Based Retrospective Study in Brazil.” Bulletin of the World Health Organization.1 (2016): 22–29. [acesso em 14 de novembro de 2017]. Disponível em https://www-ncbi-nlm-nih-gov.ez27.periodicos.capes.gov.br/pmc/articles/PMC4709794/

7- Brasil. Ministério da Saúde. Cadernos de Atenção Básica – Atenção ao Pré-Natal de Baixo Risco. Brasília, DF; 2012. [acesso em 14 de novembro de 2017]. Disponível em http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/cadernos_atencao_basica_32_prenatal.pdf

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O que são os florais de Bach?

por Nayara de Salles, Louise Cristina e Mariana Rodrigues Lavinas

Os florais, ou remédios florais de Bach, são extratos líquidos diluídos derivados de diferentes flores1 e podem ser utilizados no tratamento de inúmeras enfermidades. A explicação para o seu efeito no organismo não segue os padrões farmacológicos convencionais, uma vez que se acredita que as essências florais possuem natureza vibracional2. Em tese, a energia vital que existe na flor origina a essência floral, fazendo com que a solução retenha as propriedades das substâncias medicinais dessa parte da planta. Assim, mesmo que as essências florais sejam soluções muito diluídas e que análises quantitativas concluam que não há uma concentração significativa da substância farmacológica em questão, o que importa para se compreender as essências florais é que a energia dessa substância foi transferida para a água da solução. Esse fenômeno chama-se “memória da água”3 e é o mesmo empregado na homeopatia, embora as essências florais não sejam medicamentos homeopáticos.

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Fonte: Google Imagens

A terapia floral está diretamente relacionada e baseada na visão integral do ser humano (tratamento do indivíduo em sua totalidade, unindo aspectos biológicos a contextos psicossociais) 1,4,5. Ela foi desenvolvida pelo médico britânico Edward Bach, com base nas fontes teóricas tradicionais da homeopatia1, que defendem que há um corpo espiritual além do físico e que para se diagnosticar e tratar uma determinada doença, aspectos mentais e emocionais devem ser levados em consideração, focando a atenção no indivíduo e não apenas na doença. A saúde é entendida, portanto, como um resultado da relação saudável e harmoniosa entre o corpo físico e espiritual (alma e personalidade), oferecendo uma forma ampla de prevenção e humanização4, enquanto a doença é a falta de conexão com o seu Eu espiritual.

Bach desenvolveu 38 essências florais que estão subdivididas em sete grupos, que atuam de acordo com a queixa emocional do indivíduo:

Característica Florais
Medo Rock Rose, Mimulus, Cherry Plum, Aspen e Red Chestnut
Indecisão Cerato, Scleranthus, Gentian, Gorse, Hornbeam e Wild Oar
Desinteresse pelas circunstâncias atuais Clematis, Honeysuckle, Wild Rose, Olive, White Chestnut, Mustard e Chestnut Bud
Solidão Water Violet, Impatiens e Heather
Sensíveis demais às opiniões alheias Agrimony, Centaury, Walnut e Holly
Desalento e desespero Larch, Pine, Elm, Sweet Chestnut, Star of Bethlehem, Willow, Oak e Crab Apple
Excessiva preocupação com o bem estar do outro Chicory, Vervain, Vine, Beech e Rock Water

Fonte: Jesus EC, Nascimento MJP, 2005,p. 32-371

Além dos florais citados, existe também o “Rescue Remedy”6 usado somente em casos de urgência e situações que envolvem grandes traumas. Essa essência é composta por cinco dos florais citados acima: Clematis, Cherry Plum, Impatiens, Rock Rose e Star of Bethlehem6.

Os florais de Bach são reconhecidos como uma Terapia Integrativa Complementar pela Organização Mundial da Saúde7,14. Embora a terapia floral ainda não esteja dentro da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) do Ministério da Saúde, alguns municípios brasileiros já a ofertam. Em Belo Horizonte, o Hospital Sofia Feldman possibilita que recém-nascidos sejam tratados com florais8. Os municípios de Contagem9 e Recife10 também já ofertam a terapia floral pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Quando a PNPIC foi aprovada, em 2006, poucas práticas eram ofertadas11,12. Atualmente, são 19 práticas integrativas e complementares no SUS, dentre elas: arteterapia, meditação, reiki, homeopatia, medicina chinesa e acupuntura13. O Ministério da Saúde tem estimulado que os estados e municípios incorporem cada vez mais práticas integrativas nos seus centros de saúde10, o que possibilitou a oferta da terapia floral em alguns locais.

A prescrição das essências florais não substitui o tratamento tradicional e é recomendado que seja realizada por um terapeuta floral14. Por ser uma medicina complementar, pode ser administrada concomitantemente aos medicamentos alopáticos (medicamentos tradicionais) e pode ser de uso oral ou tópico. A Floralterapia é uma atividade regulamentada e reconhecida como habilitação farmacêutica pela Resolução nº 611, de 29 de maio de 2015 do Conselho Federal de Farmácia (CFF)15.

Existem muitas controvérsias em relação à eficácia das essências florais. Estudos mostraram que o uso dessas essências foi eficaz para redução da ansiedade16 e do estresse17. Além disso, foi eficaz no controle da glicemia, triglicérides e aumento dos níveis de HDL (popularmente conhecido como “colesterol bom”) no sangue de ratos Eighteen Wistar 18. Embora estudos em animais não sejam suficientes para comprovar a eficácia de uma substância em humanos, eles são importantes para indicar que as essências florais não geram “efeito placebo” (benefícios que derivam de expectativas positivas do paciente e não do mecanismo fisiológico do tratamento19). Isso porque, uma vez que os animais não possuem consciência de que estão sendo tratados, eles não são susceptíveis a esse efeito.

Por outro lado, há pesquisas em que não foi observado benefício com o uso das essências florais, como por exemplo, em pacientes que sofrem de transtornos mentais20 comuns e idosos que sofrem de baixa autoestima21.

Embora existam estudos científicos que comprovem a eficácia das essências florais16,17,18, muitos membros da comunidade científica se apresentam resistentes em relação ao seu uso, devido ao fato de não possuírem um princípio ativo em sua composição. Outro fator que influencia a discussão é o pequeno número de publicações e dados disponíveis na literatura científica sobre o assunto.

Para auxiliar a compreensão sobre a terapia floral e sua eficácia para além dos parâmetros estabelecidos pela academia, citamos a consideração da professora Valéria B. Magalhães, apresentada no prefácio do livro Vozes do Silêncio22:

“Ciência é apenas uma forma de conhecimento, nem melhor nem pior que outras. Considerando que em sua base está o critério da refutação, ela não é neutra e tampouco infalível.”

Colaboração:

Elaine Cristina Coelho Baptista – farmacêutica, terapeuta floral e atual vice-presidente do Conselho Regional de Farmácia de Minas Gerais.

Referências Bibliográficas

  1. Jesus EC. Nascimento MJP. Florais de Bach: uma medicina natural na prática. Rev Enferm UNISA [Internet] 2005[acesso em em 2017 set 05]; 6: 32-7. Disponível em: http://www.ufjf.br/proplamed/files/2014/04/artigo-4.pdf
  2. Ferreira MZJ. Flower essences: measurements of its vitality in living systems. Digital Library-USP. 2007-05-15,105:94-98. DOI 10.11606/D.7.2007.tde-20042007-134835
  3. Neves JCP. A Integralidade na Terapia Floral e sua Possibilidade de Inserção no Sistema Único de Saúde [Dissertação] [Internet] São Leopoldo: Universidade do Vale do Rio dos Sinos; 2007. [acesso em 2017 set 05]. Disponível em: http://www.repositorio.jesuita.org.br/bitstream/handle/UNISINOS/2942/integralidade%20na%20terapia%20floral.pdf?sequence=1&isAllowed=y
  4. Galli KSB, Scaratti M, Diehl DA, Lunkes JT, Rojahn D, Schoeninger D. Saúde e Equilíbrio Através das Terapias Integrativas: Relato de Experiência. Revista de Enfermagem [Internet]. 2012 [acesso em 2017 set 05];8(8):245-255. Disponível em:http://revistas.fw.uri.br/index.php/revistadeenfermagem/article/view/491/896
  5. Arruda APCCBN. Efetividade dos florais de Bach no bem estar espiritual de estudantes universitários: ensaio clínico randomizado duplo cego. 2012. 130 f. [doutorado] – Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita Filho, Faculdade de Medicina de Botucatu, 2012. Disponível em: http://hdl.handle.net/11449/106069.
  6. Howard J. Os Remédios Florais de Doutor Bach – Passo a Passo. São Paulo: Editora Pensamento; 1990. [acesso em 2017 set 05] Disponível em:
    https://books.google.com.br/books?hl=pt-BR&lr=&id=P62s8aIZdFUC&oi=fnd&pg=PA9&dq=constitui%C3%A7%C3%A3o+rescue+remedy&ots=YfDo27N6Ij&sig=xTTM9p5Fl6IxkimKbYGj7dmYTu4#v=onepage&q&f=false
  7. Forbes H A W. Selected Individual Therapies; em Bannerman et al., Traditional Medicine and Health Care Coverage, World Health Organization – WHO, 1983
  8. Hospital Sofia Feldman. NT Integrativas e Complementares [Internet]. [acesso em 2017 set 05]. Disponível em: http://www.sofiafeldman.org.br/atencao-a-mulher/nt-integrativas/
  9. Prefeitura de Contagem. Legislação [Internet]. Contagem; 2017. [acesso em 2017 set 05]. Disponível em: http://www.contagem.mg.gov.br/?se=legislacao
  10. Portal da Saúde. Cuidado Integral no SUS [Internet]. 2012 fev 03 [acesso em 2017 set 05]. Disponível em: http://dab.saude.gov.br/portaldab/noticias.php?conteudo=_&cod=2304
  11. Biblioteca Virtual em Saúde. Aprova a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) no Sistema Único de Saúde [Internet]. 2006 may 03. [acesso em 2017 set 05]. Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2006/prt0971_03_05_2006.html
  12. Ministério da Saúde. Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no SUS [Internet]. 2ª edição. Brasília – DF; 2015. [acesso em 2017 set 05]. Disponível em:
    http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/politica_nacional_praticas_integrativas_complementares_2ed.pdf
  13. Brasil. Ministério da Saúde. Diário Oficial da União, de 28 de março de 2017. Inclusão de terapias complementares [internet]. [acesso em 2017 set 12]. Disponível em: http://pesquisa.in.gov.br/imprensa/servlet/INPDFViewer?jornal=1&pagina=68&data=28/03/2017&captchafield=firistAccess
  14. Florais de Minas. Perguntas Frequentes sobre a Terapia Floral e sobre o Sistema Florais de Minas [Internet]. Minas Gerais; 2015. [acesso em 2017 set 12]. Disponível em:
    http://www.floraisdeminas.com.br/wp-content/uploads/2015/12/Perguntas-Frequentes-Florais-de-minas.pdf
  15. Conselho Regional de Farmácia do Estado de São Paulo. Resolução nº 611, de 29 de maio de 2015. [Internet] São Paulo; 2015 [acesso em 31/10/2017]. Disponível em: http://portal.crfsp.org.br/index.php/juridico-sp-42924454/legislacao/6687-resolucao-n-611-de-29-de-maio-de-2015.html
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  17. Soratto MT, Botelho SH. A terapia floral no controle do estresse do professor enfermeiro. SAÚDE REV [internet]. Piracicaba, 2012 [acesso em 2017 set 12]  V. 12, n. 31, p. 31-42. Disponível em: https://www.metodista.br/revistas/revistas-unimep/index.php/sr/article/view/1055/934
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