Omeprazol e outros inibidores da bomba de prótons: consequências do uso prolongado

Fonte: Google Imagens

por Louise Cristina Oliveira Santos

Os inibidores da bomba de prótons (IBP) formam uma classe de fármacos da qual fazem parte o omeprazol, esomeprazol, lansoprazol, pantoprazol e rabeprazol. Eles atuam inibindo a produção do ácido clorídrico pelas células do estômago e por isso são utilizados no tratamento de diversas doenças em que é necessária a redução da acidez estomacal (gastrites, úlcera gástrica, úlcera duodenal, esofagite de refluxo, azia, síndrome de Zollinger-Ellison e lesões gástricas). Também são recomendados como medicamentos complementares no tratamento de infecções causadas pela bactéria Helicobacter pylori ¹’².

O uso em curto prazo dos IBP está associado a reações adversas leves e reversíveis como diarreia, dor abdominal, náuseas, dor de cabeça, alterações na pele, flatulência e constipação, que desaparecem quando o tratamento com o fármaco é interrompido. Uma exceção é o risco de choque anafilático, uma reação alérgica rara, inesperada e grave que requer atenção médica urgente¹’².

Porém, o uso em longo prazo pode levar à ocorrência de reações adversas preocupantes e desconhecidas pela maioria da população. Por exemplo, o uso por período igual ou superior a 2 anos pode levar à diminuição na absorção da vitamina B12, vitamina importante para o desenvolvimento hormonal e para a formação dos glóbulos vermelhos (hemácias). Clinicamente os efeitos causados pelo déficit da vitamina B12 podem se manifestar como demência, problemas neurológicos, anemia e outras complicações, às vezes irreversíveis¹’²’³.

O omeprazol é um dos medicamentos mais consumidos da classe dos IBP e seu uso contínuo já foi associado ao desenvolvimento de uma hipersensibilidade ao medicamento, causando uma doença rara nos rins denominada nefrite interstical⁴’⁵. Essa condição leva a uma inflamação dos túbulos renais, gerando alterações que vão desde disfunção moderada até insuficiência renal aguda²’⁴. Seus sintomas iniciais são: perda de peso, erupção cutânea, náuseas, febre e mal-estar²’⁴.

Outra reação adversa relacionada ao uso prolongando e regular (neste caso 1 ano ou mais) dos IBP é a redução nos níveis de magnésio na corrente sanguínea (hipomagnesia), podendo causar aumento da ocorrência de espasmos (contração involuntária do músculo) nas pernas, arritmias cardíacas, convulsões e alterações de ânimo¹’⁶’⁷’⁸. Pacientes que utilizam outros medicamentos que reduzem a concentração do magnésio plasmático, como os diuréticos e a digoxina, têm maiores riscos de sofrerem hipomagnesia ao utilizarem IBP ⁸. A redução dos níveis de magnésio também pode resultar na disfunção da glândula paratireoide, afetando a regulação dos níveis de cálcio, levando a um enfraquecimento dos ossos, aumentando assim o risco de fraturas, principalmente em pessoas idosas ¹’⁶’²’⁷.

O uso dos IBP também pode aumentar o risco de diarreia causada pela bactéria Clostridium difficile⁸’⁹ e resultar em maior suscetibilidade a certas infecções, por exemplo, a pneumonia hospitalar².

Diante desses riscos, percebemos que, como todo medicamento, os fármacos dessa classe devem ser usados somente em casos de real necessidade e com cautela. Recomenda-se aos profissionais de saúde e ao próprio paciente que estejam sempre atentos às reações adversas que podem ocorrer ao longo do tratamento.

Referências
  1. Rúbio, Francisca G. Los riscos del omeprazol. Grupo de Trabajo de Utilización de Fármacos de la semFYC. Medicina de Familia. 2014. Acesso em: 18/08/2014). Disponível em: http://abcblogs.abc.es/medicina-de-familia/2014/06/26/los-riesgos-del-omeprazol/.
  2. Wallace, John L.; Sharkley Keith A.Farmacoterapia da acidez gástrica, úlceras pépticas e doença do refluxo gastresofágico. As bases farmacológicas da terapêutica de Goodman & Gilman. 12ª edição. AMG. Porto Alegre; 2012. Pág. 1310-1313 2012.
  3. Lam, Jameson R; Schneider, Jennifer L; Zhao, Wei; Corley, Douglas A. Proton Pump Inhibitor and Histamine 2 Receptor Antagonist Use and Vitamin B12 Deficiency. 2013. Acesso em: 18/08/2014. Disponível em: http://jama.jamanetwork.com/article.aspx?articleid=1788456&resultClick=3.
  4. Savage, Ruth. Omeprazole Induced Interstitial Nephritis. 2000. Acesso em: 18/08/2014. Disponível em: http://www.medsafe.govt.nz/profs/PUarticles/omeprazole.htm.
  5. Australian Prescriber. Symonston. 2007. Acesso em: 10/09/2014. Disponível em: http://www.australianprescriber.com/magazine/30/3/artid/884.
  6. Mouchantaf, Rania. Proton pump inhibitors: hypomagnesemia accompanied by hypocalcemia and hypokalemia. Canadian Adverse Reaction Newsletter. 2011. Acesso em: 18/08/2014. Disponível em: http://www.hc-sc.gc.ca/dhp-mps/alt_formats/pdf/medeff/bulletin/carn-bcei_v21n3-eng.pdf.
  7. NPS Medicinewise. Janeiro, 2014. Disponível em: http://www.nps.org.au/publications/health-professional/health-news-evidence/2014/ppi-risks-in-older-people Acessado em: 11/09/2014
  8. Peck, Peggy. El uso prolongado y regular de inhibidores de la bomba de prótones (IBP) puede depletar magnésio. Sertox. 2011. Acesso em: 18/08/2014 Disponível em: http://www.sertox.com.ar/modules.php?name=News&file=article&sid=3647.
  9. United States of America. Food and Drug Administration. Silver Spring. 2012. Acesso em: 20/08/2014. Disponível em: http://www.fda.gov/drugs/drugsafety/ucm292419.htm.

Medicamento de referência, genérico, similar e a RDC Nº58/2014

por Raissa Carolina Fonseca Cândido

A RDC nº 58/2014 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) foi publicada no dia 13 de outubro e trará algumas mudanças no registro e comercialização dos medicamentos similares. Mas você sabe qual a diferença entre medicamento de referência, genérico e similar? Para responder a essa pergunta e explicar o que muda com a publicação desta RDC elaboramos este texto.

O medicamento de referência é um medicamento inovador no mercado, que possui marca registrada e tem sua qualidade, eficácia terapêutica e segurança comprovadas por meio de estudos clínicos¹. É registrado pela Anvisa e sua patente tem duração de 20 anos, servindo após esse período como parâmetro para a produção e registro de outros contendo o mesmo princípio ativo (medicamentos genéricos e similares)2.

Fonte: Anvisa

 Fonte: Anvisa

O medicamento genérico, por sua vez, é equivalente ao medicamento de referência. Isto é, “possui o mesmo fármaco (princípio ativo), na mesma dose e forma farmacêutica, é administrado pela mesma via e com a mesma indicação terapêutica do medicamento de referência”³. A principal diferença entre o medicamento genérico e o medicamento de referência é que o primeiro não possui nome de marca, sendo denominado por seu princípio ativo conforme a Denominação Comum Brasileira (DCB)4. Assim, o medicamento genérico pode substituir o medicamento de referência, ou vice-versa, podendo essa substituição ser feita pelo farmacêutico no momento da dispensação sem que haja prejuízo ao tratamento do paciente. Somente nos casos em que o prescritor deixe claro na receita que a substituição não pode ser feita é que esta é proibida.

Vale ressaltar que para o medicamento ser classificado como genérico ele precisa ser submetido a testes de equivalência e bioequivalência farmacêutica. Isso significa dizer que o fabricante precisa comprovar que o medicamento apresenta o mesmo fármaco, na mesma quantidade e mesma forma farmacêutica, com as mesmas características de qualidade em testes in vitro (equivalência farmacêutica)5 e que é absorvido no organismo da mesma forma que o medicamento de referência (bioequivalência)6. Deste modo, dizer que o medicamento genérico tem a mesma eficácia do medicamento de referência ou que pode substituí-lo é cientificamente correto.

Além disso, conforme determina a lei, os medicamentos genéricos devem custar no mínimo 35% menos2 do que os medicamentos de referência sendo, portanto, uma alternativa mais barata. E devem apresentar em sua embalagem uma tarja amarela e um “G” que indicam que o medicamento é genérico.

Por fim, os medicamentos similares também têm autorização para serem produzidos após o vencimento da patente dos medicamentos de referência. Eles possuem o mesmo princípio ativo e indicação terapêutica do medicamento de referência e, assim como esse, apresentam nome comercial. A partir de 20037 a realização de testes de equivalência e bioequivalência farmacêutica tornou-se obrigatória para registro de medicamentos similares e foi estabelecido um prazo para que as indústrias farmacêuticas pudessem se adequar. Passado esse prazo e com a publicação pela Anvisa da RDC nº58/2014 os medicamentos similares também poderão substituir o medicamento de referência, desde que os estudos de equivalência farmacêutica, biodisponibilidade relativa/bioequivalência ou bioisenção (correlação da dissolução in vitro do medicamento com a biodisponibilidade in vivo) tenham sido apresentados, analisados e aprovados pela Anvisa. Ainda segundo a RDC, para que a substituição possa ser realizada deve constar na bula que o medicamento similar é intercambiável com o medicamento de referência8.

Para auxiliar os profissionais de saúde e pacientes a Anvisa irá elaborar uma lista atualizada contendo os medicamentos similares intercambiáveis. É importante lembrar que a RDC nº58 passa a valer a partir do dia 1º de janeiro de 2015.

Referências
1 Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Medicamentos de Referência. [acesso em 2014 out 16]. Disponível em: http://s.anvisa.gov.br/wps/s/r/eQ
2 Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Genéricos: Resposta a Ricardo Boechat e Edmilson Migowski. 2013 agosto 1. [acesso em 2014 out 16].  Disponível em: http://s.anvisa.gov.br/wps/s/r/cr55
3 Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Medicamento Genérico. [acesso em 2014 out 16] Disponível em: http://s.anvisa.gov.br/wps/s/r/hk
4 Agência Nacional de Vigilância Sanitária. O que devemos saber sobre medicamentos. 2010; 28-9.
5 Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução da Diretoria Colegiada nº 135, de 29 de maio de 2003.
6 Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Glossário: Bioequivalência. [acesso em 2014 out 22]. Disponível em: http://s.anvisa.gov.br/wps/s/r/Ny
7 Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Medicamentos Similares. [acesso em 2014 out 16]. Disponível em: http://s.anvisa.gov.br/wps/s/r/ft
8 Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução da Diretoria Colegiada, nº58 de 10 de outubro de 2014. [acesso em 2014 out 16]. Disponível em: http://pesquisa.in.gov.br/imprensa/jsp/visualiza/index.jsp?data=13/10/2014&jornal=1&pagina=659&totalArquivos=760