Descongestionantes nasais no tratamento de resfriado comum: uma análise do risco-benefício

Por Lívia Juliana Reis Duarte

O resfriado é uma infecção aguda do trato respiratório que tem como principais sintomas a coceira no nariz, irritação na garganta, espirros, secreção e congestão nasal. É muito comum e se trata de uma condição autolimitada, ou seja, se cura independente da adoção de medidas terapêuticas. Não existem medicamentos específicos para combate ao vírus causador do resfriado, por isso, o tratamento é focado no alívio dos sintomas1. Os descongestionantes nasais são um dos tratamentos utilizados e, como alguns deles são medicamentos de venda livre e outros exigem prescrição médica que não é retida na drogaria2, a automedicação e o uso sem orientação profissional são comuns, o que pode trazer riscos para a saúde do usuário.

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Fonte: Google imagens

Em uma revisão sistemática3 com quase dois mil pacientes provenientes de 15 estudos, foi avaliada a eficácia e a segurança dos descongestionantes nasais em monoterapia no tratamento de resfriado comum. Foram incluídos estudos com medicamentos de uso oral e tópico – pseudoefedrina, oximetazolina e xilometazolina – comparados a placebo (substância sem efeitos terapêuticos). Em parte dos estudos, os medicamentos foram administrados em dose única e a eficácia foi avaliada em apenas um dia. Já na outra parte, a eficácia foi avaliada em um período de 1 a 10 dias, com a administração de múltiplas doses do descongestionante. Concluiu-se que houve um pequeno efeito benéfico na congestão nasal quando os descongestionantes foram usados em doses múltiplas, porém, as evidências não são suficientes para afirmar se esse efeito é clinicamente relevante3. Além disso, a determinação de melhora da congestão nasal foi avaliada por escalas subjetivas em vários estudos, podendo variar de acordo com o relato de cada paciente, o que pode levar a presença de viés e reduzir a credibilidade dos resultados3. Em relação à segurança, o tratamento com descongestionantes nasais em curto prazo pareceu não demonstrar risco maior de eventos adversos em relação ao grupo tratado com placebo, porém, a carência de estudos que consideram tal aspecto também é notável3.

O uso contínuo de descongestionantes nasais tópicos não é recomendado, pois, apesar de terem ação local, podem causar efeitos sistêmicos como a hipertensão arterial. Outros efeitos adversos são cefaleia, náusea, insônia e tontura3. Dentre os descongestionantes abordados na revisão sistemática, estão disponíveis no Brasil a pseudoefedrina para uso oral, e a oximetazolina e xilometazolina para uso tópico. A pseudoefedrina pode ser utilizada por até sete dias4, sendo que o seu uso excessivo pode causar vômitos, midríase (dilatação da pupila), hipertensão arterial sistêmica, taquicardia, agitação, ansiedade e reações dermatológicas5.  Já o tratamento com a oximetazolina não deve ultrapassar cinco dias, e seu uso prolongado pode causar rinite medicamentosa e efeito rebote (retorno da congestão nasal). Além disso, o uso excessivo pode causar taquicardia, agitação, palidez, diaforese (transpiração intensa), sonolência e ataxia (perda de coordenação de movimentos)6,7. O tratamento com a xilometazolina não deve ultrapassar dez dias em adultos8 e cinco dias em pacientes pediátricos. O uso prolongado desse medicamento pode causar efeito rebote e outros efeitos sistêmicos, como náusea, cefaleia e tontura9.

Além desses medicamentos, também estão disponíveis no Brasil a nafazolina e a fenilefrina. O uso da nafazolina não deve ultrapassar três dias10, assim como a terapia com o uso tópico da fenilefrina11. Já a administração oral da fenilefrina pode durar até sete dias11, sendo que o uso prolongado de ambos os medicamentos pode causar efeitos semelhantes aos já citados para os demais descongestionantes12,13.

Considerando que ainda não há evidências científicas suficientes que justifiquem o tratamento com descongestionantes nasais, sejam eles orais ou tópicos, a ingestão hídrica adequada, inalação de vapor e a lavagem nasal com soluções salinas isotônicas (0,9% – soro fisiológico) são opções satisfatórias, além de serem mais seguras e de baixo custo14. Vale lembrar que a congestão nasal pode ser um indicativo não só de um resfriado, mas também de outras doenças respiratórias, sendo importante identificar a sua causa.  A falta de orientação profissional associada ao uso inapropriado das terapias pode trazer riscos para a saúde do paciente. Assim, as orientações de um farmacêutico ou médico são indispensáveis, tanto na escolha do tratamento mais indicado quanto nas orientações para o uso correto e seguro.

Agradecimento

Dra. Mariana Martins Gonzaga Do Nascimento – professora adjunta no Departamento de Produtos Farmacêuticos – Faculdade de Farmácia da Universidade Federal de Minas Gerais.

Referências

  1. Ministério da Saúde. Gripes e resfriados. 2015 setembro 10. [acesso em 2018 agosto 14]. Disponível em: https://goo.gl/85jrNB
  2. Nascimento MFL. O que são Medicamentos Isentos de Prescrição (MIPs)? 2017 julho 07. [acesso em 2018 agosto 14]. Disponível em: https://goo.gl/Eg2Nha
  3. Deckx  L, De Sutter  AIM, Guo  L, Mir  NA, van Driel  ML. Nasal decongestants in monotherapy for the common cold. Cochrane Database of Systematic Reviews 2016, Issue 10. Art. No.: CD009612. DOI: 10.1002/14651858.CD009612.pub2.
  4. American Society of Health System Pharmacists, Inc., DynaMed [Internet]. Ipswich (MA): EBSCO Information Services. 1995. Record No. 233222, Pseudoephedrine; atualizado em 2016 Fev 22. [acesso em 2018 agosto 20]; Registro e login necessários. Disponível em: https://goo.gl/fothAu
  5. Pseudoephedrine Hydrochloride. In: Depth Answers [Internet]. Greenwood Village (CO): Truven Health Analytics; última modificação em 2018 agosto 01. Assinatura obrigatória para visualização. Disponível em: https://goo.gl/7tkDZG
  6. American Society of Health System Pharmacists, Inc., DynaMed [Internet]. Ipswich (MA): EBSCO Information Services. 1995. Record No. 233198, Oxymetazoline; atualizado em 2016 Jan 20. [acesso em 2018 junho 15]. Registro e login necessários. Disponível em: https://goo.gl/uRwGtc
  7. Oxymetazoline Hydrochloride. In: Depth Answers [Internet]. Greenwood Village (CO): Truven Health Analytics; última modificação em 2018 maio 10. Assinatura obrigatória para visualização. Disponível em: https://goo.gl/vPzfoZ
  8. Otrivina [bula]. Taboão da Serra – São Paulo: Novartis Biociências S.A.; 2015.
  9. Xylometazoline Hydrochloride. In: Depth Answers [Internet]. Greenwood Village (CO): Truven Health Analytics; última modificação em 2017 janeiro 05. Assinatura obrigatória para visualização. Disponível em: https://goo.gl/i8kY6r
  10. Lacy CF, Armstrong LL, Goldman MP, Lance LL. Medicamentos Lexi-Comp Manole. Nafazolina. 1 ed. São Paulo: Manole; 2009.
  11. Lacy CF, Armstrong LL, Goldman MP, Lance LL. Medicamentos Lexi-Comp Manole. Fenilefrina. 1 ed. São Paulo: Manole; 2009.
  12. American Society of Health System Pharmacists, Inc., DynaMed [Internet]. Ipswich (MA): EBSCO Information Services. 1995. Record No. 233126, Naphazoline; atualizado em 2016 Jan 20. [acesso em 2018 outubro 04]. Registro e login necessários. Disponível em: https://goo.gl/qv1dPc
  13. American Society of Health System Pharmacists, Inc., DynaMed [Internet]. Ipswich (MA): EBSCO Information Services. 1995. Record No. 908401, Phenylephrine; atualizado em 2016 fevereiro 22. [acesso em 2018 outubro 04]. Registro e login necessários. Disponível em: https://goo.gl/cHrbXS
  14. Ministério da saúde. Cadernos de atenção básica: Acolhimento à demanda espontânea – Queixas mais comuns na atenção básica, volume II. Brasília; 2012.

 

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Intoxicação infantil causada por medicamento: um acidente evitável

Por Thais Sales e Paloma Torres

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O termo intoxicação refere-se aos sintomas decorrentes de um desequilíbrio fisiológico causado pela ingestão ou exposição aguda a uma determinada substância (ex.: produtos de limpeza, drogas, agrotóxicos, medicamentos, entre outros)1. Os sintomas de intoxicação são bastante variáveis, e dependem da substância a qual o indivíduo teve contato, podendo variar de sonolência a taquicardia e agitação psicomotora2.

Os dados relacionados à intoxicação infantil causada por medicamentos são preocupantes. Nos Estados Unidos, as intoxicações levam a aproximadamente 60.000 entradas no atendimento de emergência por ano3. Segundo um levantamento realizado pelo Centro de Atendimento Toxicológico (Toxcen) da Secretaria de Estado da Saúde do Espírito Santo, em 2016 foram registrados 1.661 casos de crianças de até 14 anos intoxicadas por medicamentos, e no ano anterior o número de casos foi de 1.2194.

Em muitas residências os medicamentos são deixados ao alcance das crianças e, consequentemente, a aparência colorida e atrativa desses produtos pode aumentar o risco de ingestão acidental5. Abaixo estão listadas algumas recomendações aos pais e responsáveis para evitar a ocorrência de intoxicação infantil com medicamentos3:

  • Mantenha os medicamentos guardados fora do alcance das crianças – armazenar os medicamentos preferencialmente em locais pouco acessíveis ou em armários que possam ser trancados3.
  • Tenha uma conversa esclarecedora – ensinar à criança sobre o que são os medicamentos, seus benefícios e malefícios pode evitar acidentes. Nunca diga ao seu filho que um medicamento é um doce, pois fará com que ele faça uma associação incorreta entre medicamentos e guloseimas3.
  • Avalie a integridade do medicamento antes de administrá-lo – antes de medicar a criança é importante conferir se o produto está dentro do prazo de validade e se há alguma alteração em seu aspecto (forma, cor, consistência, etc)6.
  • Procure orientação profissional e leia a bula – em caso de dúvidas sobre como usar o medicamento, procure o médico ou o farmacêutico. Buscar orientações com um profissional de saúde irá contribuir para o uso correto e seguro do medicamento6.
  • Use copos ou seringas padronizadas para fazer medidas – é muito comum o uso de colheres e outros utensílios de uso doméstico para dosar medicamentos. No entanto, tal costume pode resultar em erros de medida, pois esses utensílios estão disponíveis em diferentes tamanhos e formatos. A colher de sopa, por exemplo, pode ter tamanhos variados, dependendo do modelo e do fabricante. É importante o uso de copos ou seringas padronizadas, que permitam a medição exata da quantidade de medicamento a ser administrada6.

Informações adequadas sobre como, quando e por quanto tempo utilizar o medicamento contribuem para que o tratamento seja bem sucedido e que não haja nenhuma complicação relacionada ao seu uso. Por isso, antes de usar qualquer medicamento, é fundamental que os pais ou responsáveis peçam orientações ao médico ou farmacêutico, sobre possíveis efeitos adversos e como proceder nos casos de intoxicação infantil.

Como Prevenir Intoxicaes-1

Referências Bibliográficas

1Presgrave RF, Camacho LAB, Boas MHSV. Análise dos dados dos Centros de Controle de Intoxicação do Rio de Janeiro, Brasil, como subsídio às ações de saúde pública. Acesso em 2018 maio 18. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/csp/v25n2/19.pdf

2Maior MCLS, Oliveira NVBV. Intoxicação medicamentosa infantil: um estudo das causas e ações preventivas possíveis. Revista Brasileira de Farmácia. 2012; 93(4):422-430. Acesso em: 2018 maio 25. Disponível em: http://www.rbfarma.org.br/files/rbf-2012-93-4-5.pdf

3Instituto para Práticas Seguras de Medicação. ConsumerMedSafety.org – Proteja-se dos erros de medicação. Sete maneiras simples de proteger o seu filho de um envenenamento acidental. 2016. Acesso em 2018 abril 18. Disponível em: https://goo.gl/grMZjC

4Toxcen. Medicamento principal causa de intoxicação em crianças. 2017 [atualizado em 2017 junho 20]. Acesso em 2018 abril 18. Disponível em: https://goo.gl/8fbho5

5Paiva A, Viana D, Martins G, Molina N, Uzam CPP. Impacto dos Medicamentos nas Intoxicações em Crianças. Ibirapuera. 2017 jan-jun; 13:8-16. Acesso em 2018 maio 25 Disponível em: file:///C:/Users/naypa/Downloads/103-487-1-PB.pdf

6Instituto para Práticas Seguras no Uso de Medicamentos. Uso seguro de medicamentos  em pacientes pediátricos. ISSN: 2317-2312, VOLUME 6, NÚMERO 4, NOVEMBRO 2017. Acesso em 2018 maio 15. Disponível em: http://www.ismp-brasil.org/site/wp-content/uploads/2017/12/BOLETIM-ISMP-BRASIL-PEDIATRIA.pdf