Intoxicação infantil causada por medicamento: um acidente evitável

Por Thais Sales e Paloma Torres

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O termo intoxicação refere-se aos sintomas decorrentes de um desequilíbrio fisiológico causado pela ingestão ou exposição aguda a uma determinada substância (ex.: produtos de limpeza, drogas, agrotóxicos, medicamentos, entre outros)1. Os sintomas de intoxicação são bastante variáveis, e dependem da substância a qual o indivíduo teve contato, podendo variar de sonolência a taquicardia e agitação psicomotora2.

Os dados relacionados à intoxicação infantil causada por medicamentos são preocupantes. Nos Estados Unidos, as intoxicações levam a aproximadamente 60.000 entradas no atendimento de emergência por ano3. Segundo um levantamento realizado pelo Centro de Atendimento Toxicológico (Toxcen) da Secretaria de Estado da Saúde do Espírito Santo, em 2016 foram registrados 1.661 casos de crianças de até 14 anos intoxicadas por medicamentos, e no ano anterior o número de casos foi de 1.2194.

Em muitas residências os medicamentos são deixados ao alcance das crianças e, consequentemente, a aparência colorida e atrativa desses produtos pode aumentar o risco de ingestão acidental5. Abaixo estão listadas algumas recomendações aos pais e responsáveis para evitar a ocorrência de intoxicação infantil com medicamentos3:

  • Mantenha os medicamentos guardados fora do alcance das crianças – armazenar os medicamentos preferencialmente em locais pouco acessíveis ou em armários que possam ser trancados3.
  • Tenha uma conversa esclarecedora – ensinar à criança sobre o que são os medicamentos, seus benefícios e malefícios pode evitar acidentes. Nunca diga ao seu filho que um medicamento é um doce, pois fará com que ele faça uma associação incorreta entre medicamentos e guloseimas3.
  • Avalie a integridade do medicamento antes de administrá-lo – antes de medicar a criança é importante conferir se o produto está dentro do prazo de validade e se há alguma alteração em seu aspecto (forma, cor, consistência, etc)6.
  • Procure orientação profissional e leia a bula – em caso de dúvidas sobre como usar o medicamento, procure o médico ou o farmacêutico. Buscar orientações com um profissional de saúde irá contribuir para o uso correto e seguro do medicamento6.
  • Use copos ou seringas padronizadas para fazer medidas – é muito comum o uso de colheres e outros utensílios de uso doméstico para dosar medicamentos. No entanto, tal costume pode resultar em erros de medida, pois esses utensílios estão disponíveis em diferentes tamanhos e formatos. A colher de sopa, por exemplo, pode ter tamanhos variados, dependendo do modelo e do fabricante. É importante o uso de copos ou seringas padronizadas, que permitam a medição exata da quantidade de medicamento a ser administrada6.

Informações adequadas sobre como, quando e por quanto tempo utilizar o medicamento contribuem para que o tratamento seja bem sucedido e que não haja nenhuma complicação relacionada ao seu uso. Por isso, antes de usar qualquer medicamento, é fundamental que os pais ou responsáveis peçam orientações ao médico ou farmacêutico, sobre possíveis efeitos adversos e como proceder nos casos de intoxicação infantil.

Como Prevenir Intoxicaes-1

Referências Bibliográficas

1Presgrave RF, Camacho LAB, Boas MHSV. Análise dos dados dos Centros de Controle de Intoxicação do Rio de Janeiro, Brasil, como subsídio às ações de saúde pública. Acesso em 2018 maio 18. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/csp/v25n2/19.pdf

2Maior MCLS, Oliveira NVBV. Intoxicação medicamentosa infantil: um estudo das causas e ações preventivas possíveis. Revista Brasileira de Farmácia. 2012; 93(4):422-430. Acesso em: 2018 maio 25. Disponível em: http://www.rbfarma.org.br/files/rbf-2012-93-4-5.pdf

3Instituto para Práticas Seguras de Medicação. ConsumerMedSafety.org – Proteja-se dos erros de medicação. Sete maneiras simples de proteger o seu filho de um envenenamento acidental. 2016. Acesso em 2018 abril 18. Disponível em: https://goo.gl/grMZjC

4Toxcen. Medicamento principal causa de intoxicação em crianças. 2017 [atualizado em 2017 junho 20]. Acesso em 2018 abril 18. Disponível em: https://goo.gl/8fbho5

5Paiva A, Viana D, Martins G, Molina N, Uzam CPP. Impacto dos Medicamentos nas Intoxicações em Crianças. Ibirapuera. 2017 jan-jun; 13:8-16. Acesso em 2018 maio 25 Disponível em: file:///C:/Users/naypa/Downloads/103-487-1-PB.pdf

6Instituto para Práticas Seguras no Uso de Medicamentos. Uso seguro de medicamentos  em pacientes pediátricos. ISSN: 2317-2312, VOLUME 6, NÚMERO 4, NOVEMBRO 2017. Acesso em 2018 maio 15. Disponível em: http://www.ismp-brasil.org/site/wp-content/uploads/2017/12/BOLETIM-ISMP-BRASIL-PEDIATRIA.pdf

 

 

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Omeprazol e outros inibidores da bomba de prótons: consequências do uso prolongado

Fonte: Google Imagens

por Louise Cristina Oliveira Santos

Os inibidores da bomba de prótons (IBP) formam uma classe de fármacos da qual fazem parte o omeprazol, esomeprazol, lansoprazol, pantoprazol e rabeprazol. Eles atuam inibindo a produção do ácido clorídrico pelas células do estômago e por isso são utilizados no tratamento de diversas doenças em que é necessária a redução da acidez estomacal (gastrites, úlcera gástrica, úlcera duodenal, esofagite de refluxo, azia, síndrome de Zollinger-Ellison e lesões gástricas). Também são recomendados como medicamentos complementares no tratamento de infecções causadas pela bactéria Helicobacter pylori ¹’².

O uso em curto prazo dos IBP está associado a reações adversas leves e reversíveis como diarreia, dor abdominal, náuseas, dor de cabeça, alterações na pele, flatulência e constipação, que desaparecem quando o tratamento com o fármaco é interrompido. Uma exceção é o risco de choque anafilático, uma reação alérgica rara, inesperada e grave que requer atenção médica urgente¹’².

Porém, o uso em longo prazo pode levar à ocorrência de reações adversas preocupantes e desconhecidas pela maioria da população. Por exemplo, o uso por período igual ou superior a 2 anos pode levar à diminuição na absorção da vitamina B12, vitamina importante para o desenvolvimento hormonal e para a formação dos glóbulos vermelhos (hemácias). Clinicamente os efeitos causados pelo déficit da vitamina B12 podem se manifestar como demência, problemas neurológicos, anemia e outras complicações, às vezes irreversíveis¹’²’³.

O omeprazol é um dos medicamentos mais consumidos da classe dos IBP e seu uso contínuo já foi associado ao desenvolvimento de uma hipersensibilidade ao medicamento, causando uma doença rara nos rins denominada nefrite interstical⁴’⁵. Essa condição leva a uma inflamação dos túbulos renais, gerando alterações que vão desde disfunção moderada até insuficiência renal aguda²’⁴. Seus sintomas iniciais são: perda de peso, erupção cutânea, náuseas, febre e mal-estar²’⁴.

Outra reação adversa relacionada ao uso prolongando e regular (neste caso 1 ano ou mais) dos IBP é a redução nos níveis de magnésio na corrente sanguínea (hipomagnesia), podendo causar aumento da ocorrência de espasmos (contração involuntária do músculo) nas pernas, arritmias cardíacas, convulsões e alterações de ânimo¹’⁶’⁷’⁸. Pacientes que utilizam outros medicamentos que reduzem a concentração do magnésio plasmático, como os diuréticos e a digoxina, têm maiores riscos de sofrerem hipomagnesia ao utilizarem IBP ⁸. A redução dos níveis de magnésio também pode resultar na disfunção da glândula paratireoide, afetando a regulação dos níveis de cálcio, levando a um enfraquecimento dos ossos, aumentando assim o risco de fraturas, principalmente em pessoas idosas ¹’⁶’²’⁷.

O uso dos IBP também pode aumentar o risco de diarreia causada pela bactéria Clostridium difficile⁸’⁹ e resultar em maior suscetibilidade a certas infecções, por exemplo, a pneumonia hospitalar².

Diante desses riscos, percebemos que, como todo medicamento, os fármacos dessa classe devem ser usados somente em casos de real necessidade e com cautela. Recomenda-se aos profissionais de saúde e ao próprio paciente que estejam sempre atentos às reações adversas que podem ocorrer ao longo do tratamento.

Referências
  1. Rúbio, Francisca G. Los riscos del omeprazol. Grupo de Trabajo de Utilización de Fármacos de la semFYC. Medicina de Familia. 2014. Acesso em: 18/08/2014). Disponível em: http://abcblogs.abc.es/medicina-de-familia/2014/06/26/los-riesgos-del-omeprazol/.
  2. Wallace, John L.; Sharkley Keith A.Farmacoterapia da acidez gástrica, úlceras pépticas e doença do refluxo gastresofágico. As bases farmacológicas da terapêutica de Goodman & Gilman. 12ª edição. AMG. Porto Alegre; 2012. Pág. 1310-1313 2012.
  3. Lam, Jameson R; Schneider, Jennifer L; Zhao, Wei; Corley, Douglas A. Proton Pump Inhibitor and Histamine 2 Receptor Antagonist Use and Vitamin B12 Deficiency. 2013. Acesso em: 18/08/2014. Disponível em: http://jama.jamanetwork.com/article.aspx?articleid=1788456&resultClick=3.
  4. Savage, Ruth. Omeprazole Induced Interstitial Nephritis. 2000. Acesso em: 18/08/2014. Disponível em: http://www.medsafe.govt.nz/profs/PUarticles/omeprazole.htm.
  5. Australian Prescriber. Symonston. 2007. Acesso em: 10/09/2014. Disponível em: http://www.australianprescriber.com/magazine/30/3/artid/884.
  6. Mouchantaf, Rania. Proton pump inhibitors: hypomagnesemia accompanied by hypocalcemia and hypokalemia. Canadian Adverse Reaction Newsletter. 2011. Acesso em: 18/08/2014. Disponível em: http://www.hc-sc.gc.ca/dhp-mps/alt_formats/pdf/medeff/bulletin/carn-bcei_v21n3-eng.pdf.
  7. NPS Medicinewise. Janeiro, 2014. Disponível em: http://www.nps.org.au/publications/health-professional/health-news-evidence/2014/ppi-risks-in-older-people Acessado em: 11/09/2014
  8. Peck, Peggy. El uso prolongado y regular de inhibidores de la bomba de prótones (IBP) puede depletar magnésio. Sertox. 2011. Acesso em: 18/08/2014 Disponível em: http://www.sertox.com.ar/modules.php?name=News&file=article&sid=3647.
  9. United States of America. Food and Drug Administration. Silver Spring. 2012. Acesso em: 20/08/2014. Disponível em: http://www.fda.gov/drugs/drugsafety/ucm292419.htm.