Interações entre fármacos e alimentos: o que é importante saber?

por Emilly Carvalho

Os medicamentos podem ser administrados por diversas vias. Dentre elas, a mais usada é a via oral (pela boca), pois é mais conveniente, segura e econômica, tendo grande adesão dos pacientes. Por essa via, os medicamentos são engolidos e depois seguem pelo estômago e intestino delgado, locais onde serão absorvidos1. A absorção irá depender de fatores como: características do fármaco, natureza do conteúdo presente no estômago ou intestino, área e fluxo sanguíneo da superfície absortiva2.

Uma dúvida recorrente é se os alimentos ingeridos interferem na ação do medicamento no organismo. De fato, há modificação dos efeitos do tratamento ocasionada pelos alimentos, como alteração na absorção, na distribuição, na metabolização e na eliminação do fármaco do organismo. Os alimentos também podem aumentar, reduzir ou gerar novos efeitos farmacológicos2.

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Os medicamentos que precisam ser tomados após a refeição, por exemplo, têm essa recomendação, pois os nutrientes ingeridos reduzem a irritação causada pelo medicamento na mucosa do estômago ou intestino, ou favorecem a absorção do fármaco. O estômago cheio altera a biodisponibilidade (quantidade de fármaco que atinge a circulação sanguínea) devido às interações entre o medicamento e o alimento2.

Essas interações têm relação com características físicas do medicamento, como a solubilidade e a permeabilidade às membranas das células. Para entender isso melhor, é necessário separar os fármacos em dois grupos:

  1. medicamentos lipofílicos: têm afinidade por lipídeos/gorduras.
  2. medicamentos hidrofílicos: têm afinidade por fluidos aquosos.

A membrana das células do nosso organismo é rica em lipídeos (gorduras), logo, os fármacos lipofílicos têm facilidade de atravessá-la. Já os fármacos hidrofílicos só conseguem atravessar as membranas com o auxílio de canais e transportadores membranares. Na prática, isso significa que fármacos lipofílicos, quando administrados com alimentos ricos em gordura, serão mais bem absorvidos. Já os hidrofílicos não sofrem influência dos alimentos em sua absorção, pois como já citado, esses usam mecanismos auxiliares (como proteínas de transporte) para se difundirem pela membrana e entrarem nas células3.

O pH é outro fator que influencia a ação do medicamento. Após uma refeição, o pH do estômago se eleva de aproximadamente 1,5 para 3, tornando-se menos ácido. Essa diminuição da acidez pode reduzir a absorção de alguns comprimidos. Por outro lado, um caráter mais básico pode fazer com que outras formas farmacêuticas se desintegrem mais rápido e sejam melhor absorvidas.

A presença de alimentos no estômago também afeta a ação de uma substância. Alguns medicamentos devem ser tomados em jejum para se obter uma absorção mais rápida do fármaco. Quando for recomendada a administração de um medicamento em jejum (com estômago vazio), a orientação geral é que ele seja tomado pelo menos uma hora antes de comer ou duas horas após a refeição2,4.

A tabela a seguir mostra exemplos de interações fármaco-alimento:

Fármaco Recomendação Justificativa
Carbamazepina Tomar junto com alimentos. Aumenta a dissolução e absorção do medicamento.
Griseofulvina Tomar junto com alimentos ricos em gordura. Como o fármaco é lipossolúvel, há aumento da absorção do medicamento.
Hidralazina Tomar junto com alimentos. Alimento contribui para reduzir o metabolismo de primeira passagem* e aumentar a quantidade de fármaco disponível para absorção.
Propranolol Tomar junto com alimentos. Alimento pode reduzir o metabolismo de primeira passagem* e aumentar a quantidade de fármaco disponível para absorção.
 

Ácido acetilsalicílico

 

Tomar junto com alimentos. Reduz a irritação gástrica.
Isoniazida Tomar com o estômago vazio, se tolerável. O alimento diminui a acidez local, impedindo a dissolução e absorção do fármaco.
Hidroclorotiazida Tomar junto com alimentos. Melhora a absorção do medicamento no intestino delgado.
Diclofenaco Tomar junto com alimentos. Diminui o risco de lesão no trato gastrointestinal.
Paracetamol Evitar tomar próximo ou durante refeições ricas em fibras. Alimentos ricos em fibras diminuem a absorção do medicamento.
Levotiroxina Tomar em jejum (30 a 60 minutos antes do café da manhã). A absorção é aumentada em jejum e diminuída na presença de alimentos que contém fibra ou cálcio.5

 Traduzido e adaptado de: A. Mozayani e L. P. Raymon. Handbook of Drug Interactions, A Clinical and Forensic Guide; 2004. E. M. Lopes, R.  B.  N. de  Carvalho e R. M. de Freitas. Analysis of possible food/nutrient and drug interactions in hospitalized patients; 2010 .

Diante do exposto acima, observa-se que cada medicamento irá se comportar de forma específica com diferentes alimentos ingeridos ou na ausência deles. Portanto, é importante sempre consultar a bula, pois nela haverá informações sobre a melhor forma de uso e quais cuidados devem ser tomados antes e após a administração do medicamento. Em caso de dúvidas deve-se buscar orientação de um(a) farmacêutico(a)4.

 

Glossário:

* Metabolismo de primeira passagem: metabolização(transformação) do fármaco no fígado antes que ele alcance a circulação sanguínea1.

 

Referências:

1 Iain L. O. Buxton, Leslie Z. Benet. Farmacocinética: a dinâmica de absorção, distribuição, ação e eliminação dos fármacos.In: Brunton LL, Chabner BA, Knollman BC. As bases farmacológicas da terapêutica de Goodman & Gilman. 12ª edição. São Paulo. Mc Graw Hill, Artmed. 2012.

Rang HP, Dale MM et al. Rang & Dale Farmacologia. 6.ed. Rio de Janeiro: Elsevier Editora; 2008.

3 Ana Catarina Palma dos Santos. Resposta do trato gastrointestinal à ingestão de alimentos e o seu impacto na cinética de fármacos administrados por via oral [dissertação]. Instituto Superior de Ciências da Saúde; 2015.

4 National Consumers League e U.S Department of Health and Human Services. Avoid Food-drugs Interactions. [cartilha]. U.S Food & Drug Administration [internet]. [acesso em 2019 Ago 19]; Disponível em: https://www.fda.gov/media/79360/download

5 Levothyroxine and Alcohol/Food Interacions.Drugs.com. [internet] [acesso em 2019 Set 30]; Disponível em: https://www.drugs.com/food-interactions/levothyroxine.html?professional=1

Descongestionantes nasais no tratamento de resfriado comum: uma análise do risco-benefício

Por Lívia Juliana Reis Duarte

O resfriado é uma infecção aguda do trato respiratório que tem como principais sintomas a coceira no nariz, irritação na garganta, espirros, secreção e congestão nasal. É muito comum e se trata de uma condição autolimitada, ou seja, se cura independente da adoção de medidas terapêuticas. Não existem medicamentos específicos para combate ao vírus causador do resfriado, por isso, o tratamento é focado no alívio dos sintomas1. Os descongestionantes nasais são um dos tratamentos utilizados e, como alguns deles são medicamentos de venda livre e outros exigem prescrição médica que não é retida na drogaria2, a automedicação e o uso sem orientação profissional são comuns, o que pode trazer riscos para a saúde do usuário.

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Em uma revisão sistemática3 com quase dois mil pacientes provenientes de 15 estudos, foi avaliada a eficácia e a segurança dos descongestionantes nasais em monoterapia no tratamento de resfriado comum. Foram incluídos estudos com medicamentos de uso oral e tópico – pseudoefedrina, oximetazolina e xilometazolina – comparados a placebo (substância sem efeitos terapêuticos). Em parte dos estudos, os medicamentos foram administrados em dose única e a eficácia foi avaliada em apenas um dia. Já na outra parte, a eficácia foi avaliada em um período de 1 a 10 dias, com a administração de múltiplas doses do descongestionante. Concluiu-se que houve um pequeno efeito benéfico na congestão nasal quando os descongestionantes foram usados em doses múltiplas, porém, as evidências não são suficientes para afirmar se esse efeito é clinicamente relevante3. Além disso, a determinação de melhora da congestão nasal foi avaliada por escalas subjetivas em vários estudos, podendo variar de acordo com o relato de cada paciente, o que pode levar a presença de viés e reduzir a credibilidade dos resultados3. Em relação à segurança, o tratamento com descongestionantes nasais em curto prazo pareceu não demonstrar risco maior de eventos adversos em relação ao grupo tratado com placebo, porém, a carência de estudos que consideram tal aspecto também é notável3.

O uso contínuo de descongestionantes nasais tópicos não é recomendado, pois, apesar de terem ação local, podem causar efeitos sistêmicos como a hipertensão arterial. Outros efeitos adversos são cefaleia, náusea, insônia e tontura3. Dentre os descongestionantes abordados na revisão sistemática, estão disponíveis no Brasil a pseudoefedrina para uso oral, e a oximetazolina e xilometazolina para uso tópico. A pseudoefedrina pode ser utilizada por até sete dias4, sendo que o seu uso excessivo pode causar vômitos, midríase (dilatação da pupila), hipertensão arterial sistêmica, taquicardia, agitação, ansiedade e reações dermatológicas5.  Já o tratamento com a oximetazolina não deve ultrapassar cinco dias, e seu uso prolongado pode causar rinite medicamentosa e efeito rebote (retorno da congestão nasal). Além disso, o uso excessivo pode causar taquicardia, agitação, palidez, diaforese (transpiração intensa), sonolência e ataxia (perda de coordenação de movimentos)6,7. O tratamento com a xilometazolina não deve ultrapassar dez dias em adultos8 e cinco dias em pacientes pediátricos. O uso prolongado desse medicamento pode causar efeito rebote e outros efeitos sistêmicos, como náusea, cefaleia e tontura9.

Além desses medicamentos, também estão disponíveis no Brasil a nafazolina e a fenilefrina. O uso da nafazolina não deve ultrapassar três dias10, assim como a terapia com o uso tópico da fenilefrina11. Já a administração oral da fenilefrina pode durar até sete dias11, sendo que o uso prolongado de ambos os medicamentos pode causar efeitos semelhantes aos já citados para os demais descongestionantes12,13.

Considerando que ainda não há evidências científicas suficientes que justifiquem o tratamento com descongestionantes nasais, sejam eles orais ou tópicos, a ingestão hídrica adequada, inalação de vapor e a lavagem nasal com soluções salinas isotônicas (0,9% – soro fisiológico) são opções satisfatórias, além de serem mais seguras e de baixo custo14. Vale lembrar que a congestão nasal pode ser um indicativo não só de um resfriado, mas também de outras doenças respiratórias, sendo importante identificar a sua causa.  A falta de orientação profissional associada ao uso inapropriado das terapias pode trazer riscos para a saúde do paciente. Assim, as orientações de um farmacêutico ou médico são indispensáveis, tanto na escolha do tratamento mais indicado quanto nas orientações para o uso correto e seguro.

Agradecimento

Dra. Mariana Martins Gonzaga Do Nascimento – professora adjunta no Departamento de Produtos Farmacêuticos – Faculdade de Farmácia da Universidade Federal de Minas Gerais.

Referências

  1. Ministério da Saúde. Gripes e resfriados. 2015 setembro 10. [acesso em 2018 agosto 14]. Disponível em: https://goo.gl/85jrNB
  2. Nascimento MFL. O que são Medicamentos Isentos de Prescrição (MIPs)? 2017 julho 07. [acesso em 2018 agosto 14]. Disponível em: https://goo.gl/Eg2Nha
  3. Deckx  L, De Sutter  AIM, Guo  L, Mir  NA, van Driel  ML. Nasal decongestants in monotherapy for the common cold. Cochrane Database of Systematic Reviews 2016, Issue 10. Art. No.: CD009612. DOI: 10.1002/14651858.CD009612.pub2.
  4. American Society of Health System Pharmacists, Inc., DynaMed [Internet]. Ipswich (MA): EBSCO Information Services. 1995. Record No. 233222, Pseudoephedrine; atualizado em 2016 Fev 22. [acesso em 2018 agosto 20]; Registro e login necessários. Disponível em: https://goo.gl/fothAu
  5. Pseudoephedrine Hydrochloride. In: Depth Answers [Internet]. Greenwood Village (CO): Truven Health Analytics; última modificação em 2018 agosto 01. Assinatura obrigatória para visualização. Disponível em: https://goo.gl/7tkDZG
  6. American Society of Health System Pharmacists, Inc., DynaMed [Internet]. Ipswich (MA): EBSCO Information Services. 1995. Record No. 233198, Oxymetazoline; atualizado em 2016 Jan 20. [acesso em 2018 junho 15]. Registro e login necessários. Disponível em: https://goo.gl/uRwGtc
  7. Oxymetazoline Hydrochloride. In: Depth Answers [Internet]. Greenwood Village (CO): Truven Health Analytics; última modificação em 2018 maio 10. Assinatura obrigatória para visualização. Disponível em: https://goo.gl/vPzfoZ
  8. Otrivina [bula]. Taboão da Serra – São Paulo: Novartis Biociências S.A.; 2015.
  9. Xylometazoline Hydrochloride. In: Depth Answers [Internet]. Greenwood Village (CO): Truven Health Analytics; última modificação em 2017 janeiro 05. Assinatura obrigatória para visualização. Disponível em: https://goo.gl/i8kY6r
  10. Lacy CF, Armstrong LL, Goldman MP, Lance LL. Medicamentos Lexi-Comp Manole. Nafazolina. 1 ed. São Paulo: Manole; 2009.
  11. Lacy CF, Armstrong LL, Goldman MP, Lance LL. Medicamentos Lexi-Comp Manole. Fenilefrina. 1 ed. São Paulo: Manole; 2009.
  12. American Society of Health System Pharmacists, Inc., DynaMed [Internet]. Ipswich (MA): EBSCO Information Services. 1995. Record No. 233126, Naphazoline; atualizado em 2016 Jan 20. [acesso em 2018 outubro 04]. Registro e login necessários. Disponível em: https://goo.gl/qv1dPc
  13. American Society of Health System Pharmacists, Inc., DynaMed [Internet]. Ipswich (MA): EBSCO Information Services. 1995. Record No. 908401, Phenylephrine; atualizado em 2016 fevereiro 22. [acesso em 2018 outubro 04]. Registro e login necessários. Disponível em: https://goo.gl/cHrbXS
  14. Ministério da saúde. Cadernos de atenção básica: Acolhimento à demanda espontânea – Queixas mais comuns na atenção básica, volume II. Brasília; 2012.