Ebola: entendendo a doença

por Érika Paz S. Santos

A Doença de Vírus Ebola, conhecida anteriormente como Febre Hemorrágica Ebola, é uma doença viral aguda grave, sendo muitas vezes fatal em seres humanos1,2. Devido à elevada virulência, a taxa de letalidade da doença varia de 50 à 90%. O vírus é transmitido para os seres humanos através do contato com sangue, secreções, órgãos ou fluidos corporais de animais selvagens infectados, como morcegos, macacos, porcos-espinhos, entre outros que estejam doentes ou mortos no ambiente. Uma vez infectadas, as pessoas o disseminam para as outras por contato direto com sangue, secreções, órgãos ou outros fluidos corporais de pessoas infectadas, através da pele não íntegra (cortada ou perfurada) ou por mucosas. A infecção também ocorre pelo contato indireto com objetos ou em ambientes com fluidos contaminados. Além disso, os homens que se recuperaram da doença ainda podem transmitir o vírus por meio do sêmen por um período de até 7 semanas2.

Fonte: Google imagens

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O período de incubação da doença, que é o intervalo desde a infecção até o surgimento dos primeiros sintomas, pode variar de 2 a 21 dias, sendo que as pessoas infectadas só transmitem a doença para outras quando apresentam sintomas, e não durante o período de incubação. Os sintomas iniciais da doença são: febre súbita (maior que 38,6° C), fraqueza intensa, dor muscular, de garganta e cefaleia. Posteriormente, os sintomas estendem-se a vários sistemas, como gastrointestinal (anorexia, náuseas, vômitos, dor abdominal, diarreia), respiratório (dor no peito, falta de ar, tosse, corrimento nasal), vascular (hiperemia conjuntival, hipotensão postural, edema) e neurológico (confusão, coma)1,2,3. As manifestações hemorrágicas surgem durante o pico da doença e incluem pequenas manchas vermelhas na pele (petéquias), manchas escuras ou azuladas na pele (equimoses) e hemorragia das mucosas. Nos exames patológicos laboratoriais é possível encontrar glóbulos brancos e plaquetas em número reduzido, elevação da concentração de proteínas no soro sanguíneo (hiperproteinemia), excreção de albumina na urina (proteinúria) e elevação das enzimas hepáticas. Pacientes gravemente acometidos desenvolvem os sinais clínicos rapidamente e vão a óbito normalmente entre 6 e 16 dias pós infecção, com choque hipovolêmico e falência de múltiplos órgãos1. Em pessoas infectadas há poucos dias o diagnóstico da doença é difícil, pois os sintomas são comuns a outras doenças. Contudo, se há suspeita de Doença de Vírus Ebola, o diagnóstico deve ser realizado com testes sorológicos para detecção de IgG e IgM e o isolamento do vírus3.

Até o momento não há nenhum tratamento ou vacina disponíveis com eficácia comprovada para a doença, então os pacientes recebem tratamentos de suporte para seus sintomas e infusão intravenosa de soluções de reidratação. Assim, é necessário rigor no controle da disseminação da doença, que pode ser feito com várias medidas preventivas. Com relação aos animais infectados é recomendado o manuseio correto deles com equipamentos de proteção individual (EPIs), como máscaras respiratórias, óculos, luvas, aventais e botas; o cozimento efetivo dos produtos originados deles, como carne e sangue, antes do consumo para inativar o vírus; e o enterro de suas carcaças de forma correta e segura, evitando que permaneçam no ambiente. Para reduzir a transmissão pessoa-pessoa recomenda-se evitar o contato físico com os doentes ou objetos pessoais destes que possam conter seus fluidos corporais, utilizar EPIs quando se estiver cuidando deles, lavar bem as mãos após contato com os mesmos e enterrar com segurança os corpos dos infectados que vieram a óbito. Como os homens ainda podem transmitir o vírus pelo sêmen mesmo após a recuperação da doença, sugere-se que as relações sexuais sejam evitadas por 7 semanas ou que sejam utilizados preservativos2.

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Devido ao surto da doença no cenário mundial, muitas pessoas encontram-se alertas e temerosas com relação à ideia de contágio da doença pela contaminação do ar, principalmente em viagens aéreas, visto que algumas doenças virais seguem esse padrão de transmissão. Contudo, para o Ebola esse risco é muito baixo, pois o vírus não permanece no ar e só é disseminado entre os humanos através do contato direto com fluidos corporais de pessoas infectadas. Além disso, frequentemente os doentes apresentam-se com o estado de saúde muito debilitado, o que os impossibilita de viajar. Assim, a OMS não considera os centros de transporte aéreo como locais de alto risco para a propagação do vírus e não deve haver proibição de viagens ou de comércio internacional5. Porém, isso não descarta o cuidado com os doentes que necessitem viajar para realizarem procedimentos relacionados à doença, pois há centros de tratamento localizados em vários países.

Desde o início da epidemia em março deste ano, a OMS registrou 4.269 casos de Ebola, com 2.288 mortes em países onde há transmissão intensa e disseminada (Guiné, Libéria e Serra Leoa)6. Assim, vê-se a importância das medidas preventivas e de ações governamentais de saúde para o controle da disseminação do vírus e, consequentemente, redução da mortalidade pela doença. É importante ressaltar que a Organização Mundial de Saúde (OMS) não recomenda que as famílias ou as comunidades cuidem dos indivíduos infectados ou que apresentem sintomas da doença em suas casas. É necessário encaminhá-los aos hospitais ou centro de tratamento devidamente equipados e qualificados para tratar estes pacientes4.

Colaboração:

Dr. Bruno Eduardo F. Mota – professor das disciplinas de Microbiologia clínica, Estudo clínico laboratorial de doenças humana B (ECLB) e Ética (curso de Biomedicina) na Faculdade de Farmácia/UFMG.

 

Referências

1 Feldman H, Geisbert TW. Ebola haemorrhagic fever. The Lancet. 2011; 377: 849–62. DOI:10.1016/S0140-6736(10)60667-8

2 Suíça. World Health Organization. Ebola virus disease. Genebra; 2014. [acesso 2014 ago 19]. Disponível em: http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs103/en/

3 Georgia. Centers for Disease Control and Prevention. Ebola haemorrhagic fever. Atlanta; 2014. [acesso 2014 ago 27]. Disponível em: http://www.cdc.gov/vhf/ebola/diagnosis/index.html

4 Suíça. World Health Organization. Frequently asked questions on Ebola virus disease. Genebra; 2014. [acesso 2014 ago 21]. Disponível em:  http://www.who.int/csr/disease/ebola/faq-ebola/en/

5 Suíça. World Health Organization. WHO: air travel is low-risk for Ebola transmission. Genebra; 2014. [acesso 2014 ago 21]. Disponível em: http://www.who.int/mediacentre/news/notes/2014/ebola-travel/en/

6 Suíça. World Health Organization. Ebola Response Roadmap – Situation Report. Genebra; 2014. [acesso 2014 set 11]. Disponível em: http://www.who.int/csr/disease/ebola/situation-reports/en/

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Propaganda e uso racional de medicamentos: uma prática possível?

Alba Valéria S M Moraes

Uma das características da sociedade contemporânea é relacionar a sensação de bem-estar, saúde e felicidade ao apelo do consumo de bens e serviços1. O consumo de medicamentos segue esta lógica e para aumentá-lo a indústria farmacêutica, juntamente com as agências de publicidade, utilizam diferentes formas de propaganda para atingir os profissionais de saúde e o público em geral. Para alcançar esse objetivo, as empresas investem até duas vezes mais na promoção dos medicamentos do que em pesquisa e desenvolvimento2, reafirmando assim a importância desta atividade para o sucesso da indústria farmacêutica.

Um novo modelo de negócio veio confirmar a importância da propaganda neste segmento. Optando por “fabricar” propaganda ao invés de fabricar os seus próprios produtos, um laboratório farmacêutico mexicano, que comercializa seus produtos isentos de prescrição no Brasil, terceiriza quase toda a sua produção, mas se responsabiliza diretamente pela propaganda de seus produtos. “A companhia tem produtoras de vídeo próprias e negocia diretamente com os veículos, sem a intermediação de agências de publicidade. Os produtos vendidos no país vêm do México, assim como as campanhas. A exceção são comerciais com celebridades locais”3

Compreende-se que a permanente expansão do mercado farmacêutico traz consigo a necessidade de divulgação e promoção de novos e antigos produtos, seja no país de origem do laboratório ou em outros locais. Entretanto, a conciliação dessa necessidade com os propósitos do uso racional dos medicamentos representa um grande desafio para o marketing que insiste em desconsiderar as características especiais dos medicamentos e os enormes riscos que oferecem quando utilizados de maneira inadequada.

Pode-se afirmar que o equilíbrio entre as práticas promocionais e o uso racional de medicamentos está longe de ser alcançado. O marketing de medicamentos sempre se valeu da ideia simbólica da possibilidade de vender saúde e sempre existiu uma forte demanda para a superação das doenças. A percepção do medicamento como um simples produto de consumo capaz de gerar lucros e retorno financeiro foi predominante na história da indústria farmacêutica e influenciou de maneira significativa as suas práticas de promoção.

Fonte: Anvisa

Fonte: Anvisa

Dessa forma, tornou-se previsível o surgimento de incorreções e abusos nessas práticas, com o consequente risco à saúde da população. Daí a necessidade da intervenção de órgãos reguladores como a ANVISA que, dentre outras atribuições, tem como função a regulamentação e fiscalização das propagandas de medicamentos no Brasil. Ao publicar a RDC nº. 96, de 17 de dezembro de 2008 que dispõe sobre a propaganda, publicidade, informação e outras práticas cujo objetivo seja a divulgação ou promoção comercial de medicamentos4, a Anvisa deu um importante passo para melhorar a qualidade das propagandas veiculadas na mídia brasileira.

Entretanto, observa-se que as regras desta Resolução ainda não são totalmente aplicadas, principalmente para as propagandas de medicamentos isentos de prescrição veiculadas em rádio ou televisão. A propaganda recente de um medicamento desta classe é um pequeno exemplo que ilustra esta situação. Na televisão uma atriz informa que não interrompe a sua rotina por causa de uma gripe. Na cena final da propaganda aparece uma imagem de um comprimido com três camadas e as seguintes informações: tira a dor, desentope e revigora. Após a finalização do vídeo aparecem duas mensagens lidas rapidamente por um locutor: “Se persistirem os sintomas o médico deverá ser consultado” e “Este medicamento é contraindicado em caso de suspeita de dengue”5.

Observa-se, entretanto, que as substâncias responsáveis pelas ações de tirar a dor, desentupir e revigorar não são informadas pela atriz e duas delas (ácido acetilsalicílico→ tira a dor e cloridrato de fenilefrina → desentope) fazem parte do Anexo lll da RDC nº 96 que determina a divulgação dos seguintes alertas para estes princípios ativos respectivamente: “Não use este medicamento em caso de gravidez, gastrite ou úlcera de estômago e suspeita de dengue ou catapora”4 e “Não use este medicamento em caso de doenças do coração, pressão alta ou glaucoma”4. Além destas duas substâncias o medicamento contém o anti-histamínico maleato de dexclorfeniramina que, de acordo com a bula do produto registrada na ANVISA, pode causar sedação6. Para substâncias que causam este efeito a RDC nº 96 prevê a seguinte advertência: “Durante seu uso, não dirija veículos ou opere máquinas, pois sua agilidade e atenção podem estar prejudicadas”4. Porém, como o medicamento em questão é uma associação de princípios ativos e a RDC nº 96 não prevê no seu Anexo lll alerta para as associações a advertência padrão prevista neste caso é: “(nome comercial do medicamento ou, no caso de medicamentos genéricos, a substância ativa) É UM MEDICAMENTO. SEU USO PODE TRAZER RISCOS. PROCURE UM MÉDICO E O FARMACÊUTICO. LEIA A BULA”4. Desta forma, causa estranheza observar que a propaganda priorizou apenas uma parte de um alerta específico (“Este medicamento é contraindicado em caso de suspeita de dengue”5) não enfatizando os outros alertas ou a informação de que o  uso do medicamento pode trazer riscos.

Além disto, o art. 24 dessa Resolução informa que essas advertências devem ser contextualizadas na peça publicitária, de maneira que sejam pronunciadas pelo personagem principal, quando veiculada na televisão; proferida pelo mesmo locutor, quando veiculada em rádio. A locução das advertências deve ser cadenciada, pausada e perfeitamente audível4. Entretanto, observa-se que para a propaganda citada, tanto na TV quanto no rádio, as recomendações acima não foram observadas.

Outro fato que merece atenção é a participação de uma atriz conhecida como protagonista desta propaganda, contrariando o inciso III do artigo 26 da RDC nº 96  que veda a participação de “pessoa leiga em medicina ou farmácia, cujas  características sejam facilmente reconhecidas pelo público em razão de sua celebridade, afirmando  ou sugerindo que utiliza o medicamento ou recomendando o seu uso”4

Considerando que a promoção comercial de medicamentos será sempre utilizada como ferramenta para alavancar as vendas, é necessário o monitoramento regular da aplicação das regras que disciplinam este setor. É necessário também que se invista na educação dos consumidores para que os mesmos percebam as limitações desta prática como fonte confiável de informação sobre medicamentos. É verdade que muito já se avançou, mas há ainda um longo caminho a ser percorrido para garantir o uso racional dos medicamentos isentos de prescrição e de todos os outros comercializados no país.

Referências
1 Nascimento AC. Ao persistirem os sintomas o médico deverá ser consultado: isso é regulação? São Paulo: Sobravime; 2005.
2 Ministério da Saúde (Brasil). Agência Nacional de Vigilância Sanitária, Gerência de Monitoramento e Fiscalização de Propaganda, Publicidade, Promoção e Informação de Produtos Sujeitos à Vigilância Sanitária. Estudo comparadoregulamentação da propaganda de medicamentos. Brasília: Ministério da Saúde; 2005. [acesso em 2014 jun. 16].  Disponível em: http://www.anvisa.gov.br/propaganda/estudo_comparado.pdf
3 Barbosa M. Farmacêutica mexicana Genomma Lab é fábrica de propaganda. Folha de São Paulo. 2014 jun. 8 [acesso em 2014 jul. 2]. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2014/06/1466851-farmaceutica-mexicana-genomma-lab-e-fabrica-de-propaganda.shtml
4 Brasil. Agência Nacional de Vigilância Sanitária.  Resolução- RDC nº 96, de 17 de dezembro de 2008 Dispõe sobre a propaganda, publicidade, informação e outras práticas cujo objetivo seja a divulgação ou promoção comercial de medicamentos. 2008 dez 17. [acesso em 2014 jun. 17].  Disponível em:  http://www.anvisa.gov.br/propaganda/rdc/rdc_96_2008_consolidada.pdf
5 Cuida de você [vídeo] ComunicaFilmes; 2014 abr 3.son,color. [acesso em 2014 jun. 16].  Disponível em: www.youtube.com/watch?v=-TeFysc0QOc
6 Brasil. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Bulário eletrônico. [acesso em 2014 jul. 17]. Disponível em: http://www.anvisa.gov.br/datavisa/fila_bula/frmVisualizarBula.asp?pNuTransacao=5268502014&pIdAnexo=2106543