Síndrome da bexiga hiperativa: questão comercial, paciente em segundo plano

por Bruna Xavier de Moro

Uma pesquisa realizada recentemente por Kari A. O. Tikkinen e Anssi Auvinen, médicos finlandeses, revela que a síndrome da bexiga hiperativa está sendo indevidamente utilizada como mero instrumento comercial. A pesquisa aponta divergências e conflitos de interesses que circundam a doença no contexto da medicalização.

Atualmente a síndrome da bexiga hiperativa (OAB, overactive bladder) é definida pela Sociedade Internacional de Continência como a urgência urinária, com ou sem incontinência,  com uma frequência aumentada diurna e noturna na ausência de infecção ou outra patologia óbvia.

A inespecificidade da definição conduz médicos a diagnosticarem simples e quaisquer sintomas do sistema urinário como OAB, e usarem um tratamento medicamentoso padronizado. Tratamentos desnecessários expõem os pacientes aos efeitos colaterais dos medicamentos, acarretando riscos que poderiam ser evitados. Estes tratamentos também aumentam seus gastos, o que favorece a indústria propiciando maior faturamento.

Segundo os autores do artigo, a melhor forma para contornar o problema conceitual da síndrome OAB seria “investigar os sintomas individual e separadamente para entender seus diferentes fatores de risco e fisiopatologia.” Contudo, esta forma de acompanhamento individual e seletiva não é simples e envolve maior disposição e disponibilidade dos profissionais. Por conseguinte, adota-se um tratamento generalizado,  situação em que, “um medicamento pode ser prescrito para um grande número de pacientes.”

A pesquisa relata que grande parcela dos estudos epidemiológicos são realizados por indústrias farmacêuticas, evidenciando claramente o conflito de interesse financeiro. Em um desses estudos patrocinado pela indústria foi constatado que uma em cada nove pessoas no mundo já foram diagnosticadas com a síndrome. Esta proporção transcende a normalidade e deixa claro que a síndrome OAB tem sido altamente lucrativa para a indústria.

Para diminuir este índice e adotar “tratamentos mais eficazes, seria necessário abandonar o conceito da síndrome OAB.” Enquanto a prática do tratamento individualizado não ocorre, mais pessoas continuam envolvidas nesse processo de medicalização. E assim,  a medicalização vai gerando lucros exorbitantes para a indústria farmacêutica enquanto o paciente que deve ser o foco das atenções em suas necessidades, fica em segundo plano como instrumento de comercialização de medicamentos.

Referências:

Does the Imprecise Definition of Overactive Bladder Serve Commercial Rather than Patient Interests? European Urology – Acesso em Março de 2012 http://www.europeanurology.com/article/S0302-2838(11)01375-3/fulltext

Síndrome da Bexiga Hiperativa serve a interesses comerciais, não dos pacientes – Diário da Saúde –  Acesso em Março de 2012    http://www.diariodasaude.com.br/news.php?article=sindrome-bexiga-hiperativa-serve&id=7338

(Texto extraído do V.8 nº3 do “Boletim Atrás da Estante”)

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Drogas não são brincadeira de criança

Por Raissa Carolina Fonseca Cândido

         Em 2006, a Organização das Nações Unidas produziu uma cartilha sob o título: “Drogas não são brincadeira de criança” destacando o importante papel que família e escola desempenham na prevenção do uso de drogas ilícitas por menores de 15 anos.

                        Hoje, utilizando deste mesmo título escrevo também sobre o uso de drogas por crianças e adolescentes, porém considerando a seguinte perspectiva: até que ponto família e escola têm participação na medicalização infantil, originando um consumo exagerado de drogas lícitas por estes indivíduos?

              O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é uma síndrome caracterizada por distração, agitação/hiperatividade, impulsividade, desorganização entre outros sintomas¹ e para Nádia Mara Eidt, “No contexto escolar, a hiperatividade e/ou déficit de atenção apresenta-se como justificativa corrente para o fracasso escolar de um número expressivo de crianças, atribuindo-se a elas a responsabilidade por não aprender e isentando de análise o contexto escolar e social em que estão inseridas”².

Segundo pôster apresentado no 3º Congresso Mundial de TDAH por pesquisadores do Instituto Glia de Pesquisa em Neurociências, USP, Unicamp e o Albert Einstein College of Medicine (EUA), 75% das crianças e adolescentes que usam medicação para o tratamento de TDAH no Brasil tiveram diagnóstico incorreto³.

De acordo com este trabalho, apenas 23,7% das 459 crianças diagnosticadas com TDAH realmente tinham o transtorno e das 128 crianças que faziam uso de Ritalina® para tratá-lo somente 27,3% sofriam com a doença³. Dados estes que se tornam ainda mais alarmantes já que o Brasil é apontado como o segundo maior consumidor de Ritalina® no mundo¹.

         O estudo que deu origem ao pôster já citado ainda não foi publicado, contudo de acordo com Prof. Dr. Marco Antônio Arruda, um dos autores do trabalho, “o estudo mostra que a realidade brasileira é de subdiagnóstico e subtratamento do TDAH. Sendo que o excesso de diagnósticos e de tratamento com psicoestimulantes ocorre principalmente nas classes A e B, que não são predominantes no nosso país”.

         Sendo assim, é preciso rever o diagnóstico e o tratamento de transtornos como o TDAH e repensar o papel do medicamento nestes tratamentos, considerando que conforme dito pela médica e pesquisadora da Unicamp, Maria Apparecida Moysés “As mudanças que aconteceram na história da humanidade foram pelos questionamentos, sonhos e utopias. Ao medicalizar, estamos abortando um futuro diferente, sem criatividade.”

Referências:

¹ Instituto Paulista de Déficit de Atenção. Acessado em: 27/01/2012. Disponível em: http://www.dda-deficitdeatencao.com.br/tdah/

² Transtorno de Déficit de Atenção/ Hiperatividade e psicologia histórico-social. Nádia Mara Eidit. Acessado em 27/01/2012. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/cp/v40n139/v40n139a07.pdf

³ Are Psychostimulants Overprescribed in Brazilian school-aged children? Marco A. Arruda, Maria Valeriana Moura-Ribeiro , José Hércules Golfeto , Marcelo E. Bigal, Guilherme V. Polanczyk.

(Texto extraído do V.8, n°1 do Boletim publicado em 31/10/11)*.

*As matérias deste número ainda não foram postadas no Blog, em breve vocês poderão ler todo o conteúdo deste nº por aqui.