Profilaxia de pós-exposição (PEP) ao HIV

por Alícia Amanda Moreira Costa

A descrição dos primeiros casos do que posteriormente foi chamado de aids (Síndrome da Imunodeficiência Adquirida) ocorreu no início da década de 19801. A aids é a manifestação clínica avançada da doença causada pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV). Esse vírus destrói células do sistema imunológico, prejudicando os mecanismos de defesa do organismo. É válido ressaltar que ser portador do HIV não é o mesmo que possuir aids2, pois o uso de medicamentos antirretrovirais faz com que o vírus seja suprimido para que o paciente não desenvolva aids e tenha menor chance de transmiti-lo. A infecção por HIV se apresenta como um problema de saúde pública devido ao crescente número de pessoas infectadas e elevados índices de mortalidade, o que evidencia a necessidade das políticas de prevenção3.

A profilaxia de pós-exposição (PEP) ao HIV é um esquema de medicamentos utilizado para prevenir a infecção até 72 horas após a exposição ao vírus, sendo mais eficaz o quanto mais precocemente for administrada. Esse tratamento é indicado para pessoas que sofreram violência sexual; praticaram relação sexual sem preservativo (ou quando houve rompimento dele) ou vítimas de acidentes ocupacionais com instrumentos perfurocortantes contaminados com material biológico. Portanto, a PEP é considerada um tratamento de emergência. O uso da PEP não substitui o uso de preservativos, já que além da possibilidade de falha, a PEP não evita gravidez e não oferece proteção contra outras infecções sexualmente transmissíveis, como sífilis e hepatites virais4.

O esquema de tratamento preferencial é constituído pela combinação de três medicamentos antirretrovirais: tenofovir, lamivudina e dolutegravir. Essa combinação possibilita menos efeitos adversos e baixa interação medicamentosa, o que facilita a adesão e uso correto por parte do paciente4.

Existem outros esquemas de tratamento que podem ser adotados na prevenção da infecção pelo HIV, caso o paciente apresente contraindicação a algum fármaco do tratamento preferencial. A combinação de zidovudina, lamivudina e dolutegravir pode ser usada quando o tenofovir não for tolerado devido à possibilidade de causar toxicidade renal, especialmente em pacientes com doença renal preexistente4. O dolutegravir aumenta a concentração de metformina no organismo, interferindo no tratamento de pacientes diabéticos. Nesse caso, o esquema alternativo é tenofovir, lamivudina e atazanavir/ritonavir4.

A escolha dos medicamentos adequados será feita pelo médico, que levará em consideração o histórico de saúde do paciente e suas comorbidades. No caso de mulheres que foram expostas ao HIV por relação sexual com homens, o teste de gravidez também é recomendado4. A duração do tratamento com a PEP é de 28 dias e o paciente deve ser acompanhado por uma equipe composta por diversos profissionais de saúde, incluindo médicos, farmacêuticos e psicólogos. Ao completar 30 e 90 dias após a exposição, é necessária a realização de exames de testagem de HIV para confirmar se não houve contaminação pelo vírus4.

Todo o tratamento do HIV e a estratégia de prevenção PEP são oferecidos gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS)4. É importante ressaltar que a disponibilização da PEP jamais deve ser entendida como um incentivo para que as pessoas pratiquem relações sexuais sem usar preservativos. A PEP é uma medida adicional de prevenção, que deve ser acionada em casos de emergência, a fim de tentar reduzir os casos de infecção pelo HIV.

 

 

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Fonte: Google Imagens

Referências:

  1. Santos NOS, Romanos MTV, Wigg MD. Virologia humana. 3ª edição. Rio de Janeiro, 2015. p.498.
  2. Ministério da Saúde. O que é HIV. Brasília. [acesso em julho/2018]. Disponível em: http://www.aids.gov.br/pt-br/publico-geral/o-que-e-hiv
  3. Guimarães MDC, Carneiro M, Abreu DMX, França EB. Mortalidade por HIV/Aids no Brasil, 2000-2015: motivos para preocupação? Rev Bras Epidemiol. Maio, 2017. DOI: 10.1590/1980-5497201700050015
  4. Ministério da Saúde. Protocolo clínico e diretrizes terapêuticas para profilaxia pós-exposição (pep) de risco à infecção pelo hiv, ist e hepatites virais. 1ª edição. Brasília, 2017. Disponível em:http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/protocolo_clinico_diretrizes_terapeuticas_profilaxia_exposicao_HIV_IST_hepatites_virais.pdf

 

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Probióticos na prevenção de diarreia associada ao uso de antibióticos em crianças

                                                                                                               Por Lívia Juliana Reis Duarte

Probióticos são microrganismos vivos que trazem benefícios à saúde quando ingeridos em quantidades adequadas1. Em 2002, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o regulamento que autoriza o uso de probióticos isolados, considerando suas propriedades funcionais ou para a saúde2. Atualmente são vendidos como medicamentos isentos de prescrição3 (leia mais).

Os probióticos podem exercer um papel importante no desempenho das funções imunológicas, digestivas e respiratórias, além de contribuir para a diminuição da ocorrência de doenças infecciosas em crianças1. Os benefícios associados ao uso dos probióticos se devem principalmente aos seus efeitos na microbiota intestinal, pois ao estimular a multiplicação de bactérias benéficas, eles reforçam mecanismos naturais de defesa do organismo4. Por isso, alguns probióticos são popularmente conhecidos como repositores da flora intestinal.

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Um exemplo de utilização dos probióticos como repositores da microbiota intestinal é a prevenção da diarreia associada ao uso de antibióticos. Esse tipo de diarreia ocorre quando esses medicamentos atuam para combater os patógenos (microrganismos capazes de produzir doenças infecciosas), mas ao mesmo tempo prejudicam a microbiota natural do paciente5.

Em uma revisão sistemática foi analisado o uso de probióticos na prevenção de diarreia associada ao uso de antibióticos em cerca de 4.000 pacientes pediátricos, provenientes de 23 ensaios clínicos randomizados. Foram comparadas crianças que utilizaram antibiótico com crianças que usaram o antibiótico em associação com um probiótico. Os probióticos estudados foram: Bacillus spp., Bifidobacterium spp., Clostridium butyricum, Lactobacilli spp., Lactococcus spp., Leuconostoc cremoris, Saccharomyces spp. e Streptococcus spp., utilizados de maneira isolada ou combinados. Observou-se que 8% dos indivíduos do grupo que utilizou probiótico tiveram diarreia, em comparação a 19% no grupo que não utilizou probiótico6.

Quanto ao perfil de segurança dos probióticos, entre os eventos adversos foram citados: erupções cutâneas, náusea, gases, flatulência, inchaço abdominal, perda de apetite, dor no peito, vômito, constipação, aumento da secreção (catarro) e distúrbios do paladar. Os autores da revisão concluíram que não houve diferenças estatisticamente significativas na incidência de eventos adversos entre os grupos6. Entretanto, dos 23 estudos avaliados, em nove foi relatado que não houve ocorrência de eventos adversos, em sete foram identificados eventos adversos e em outros sete os efeitos adversos não foram mencionados, uma perda importante para análise dos dados. Por não haver um perfil de segurança bem estabelecido, a recomendação dos autores é que, até que sejam feitos novos estudos, o uso de probióticos deve ser evitado em crianças gravemente debilitadas ou com o sistema imune comprometido, devido ao maior risco de eventos adversos6.

Embora os resultados da revisão indiquem um potencial de benefício dos probióticos para prevenção da diarreia associada ao uso de antibióticos, os autores ressaltam que as evidências ainda são limitadas para estabelecer conclusões sobre a eficácia e segurança desses medicamentos. É importante salientar que o Ministério da Saúde não recomenda o uso de probióticos para tratamento de nenhum tipo de diarreia, independente da gravidade do caso7. Apesar de serem medicamentos isentos de prescrição, é essencial que o paciente procure o médico ou farmacêutico para se informar antes de iniciar o uso. O acompanhamento adequado por profissionais da saúde é fundamental para a melhor escolha de um tratamento que garanta uma intervenção efetiva e segura para o paciente.

Referências:

  1. Food And Agriculture Organization Of The United Nations, World Health Organization. Evaluation Of Health And Nutritional Properties Of Probiotics In Food Including Powder Milk With Live Lactic Acid Bacteria. Córdoba, 2001.
  2. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Regulamento técnico de substâncias bioativas e probióticos isolados com alegação de propriedades funcional e ou de saúde. Brasília: 2002.
  3. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Instrução normativa – IN n° 11, de 29 de setembro de 2016. Anexo – lista de medicamentos isentos de prescrição. Disponível em: https://goo.gl/yYQM51 Acesso em: 13/11/2017
  4. Saad SMI. Probióticos e prebióticos: o estado da arte. Rev Bras Cienc Farm. 2006; 42 (1). DOI: 10.1590/S1516-93322006000100002
  5. Moraes AC, Castro FMM. Diarreia Aguda. Rev Bras Med. 2014; 102 (2).
  6. Goldenberg JZ, Lytvyn L, Steurich J, Parkin P, Mahant S, Johnston BC. Probiotics for the prevention of pediatric antibiotic associated diarrhea (Review). Cochrane Database of Systematic Reviews. 2015, Issue 12. Art. No.: CD004827. DOI: 10.1002/14651858.CD004827.pub4.
  7. Ministério da Saúde. Manejo do Paciente com Diarreia (Cartaz). 2011. Disponível em: https://goo.gl/guAGgj Acesso em: 26/03/2018.